Quando falta o médico é à porta da farmácia que se vai bater
Em territórios envelhecidos, onde o acesso a consultas nem sempre é fácil, as farmácias continuam a ser um porto seguro para a população. No Tramagal, a Farmácia Mendes atravessa três gerações da mesma família e mantém uma relação de proximidade com os utentes que vai muito além da venda de medicamentos.
Quando o centro de saúde está longe, não há médico disponível ou surge uma dúvida sobre um sintoma, é muitas vezes à farmácia que a população recorre. Em localidades envelhecidas, estes estabelecimentos são mais do que um ponto de venda de medicamentos, funcionando também como espaços de aconselhamento, confiança e até de combate à solidão. A propósito do Dia Mundial do Farmacêutico, assinalado a 25 de Setembro, O MIRANTE esteve na Farmácia Mendes, no Tramagal, onde há mais de um século se conhecem os utentes pelo nome. Fundada em 1918 pelo avô de Maria Helena Mendes, a farmácia atravessou três gerações da família. Aos 77 anos, a farmacêutica continua ligada ao negócio, embora reformada, e ainda ajuda ao balcão quando necessário. Trabalhou vários anos em Lisboa antes de assumir a farmácia da família, há cerca de 27 anos, e garante que a procura de aconselhamento farmacêutico sempre existiu. A dificuldade em conseguir consultas e os custos associados aos cuidados médicos levavam, já nessa altura, muitas pessoas a procurar ajuda na farmácia.
No Tramagal, a distância ao centro de saúde e as dificuldades de mobilidade tornam essa proximidade ainda mais importante. “Há pessoas que têm muita dificuldade em andar até ao centro de saúde e têm que chamar o táxi. O centro está longe e é mais perto virem aqui à farmácia”, explica. Dores, problemas de pele, queixas oculares e dúvidas sobre medicação estão entre os motivos mais frequentes de procura. Rui Lopes, director técnico adjunto, sublinha que o farmacêutico não substitui o médico, mas pode ajudar a perceber quando é necessário recorrer a cuidados de saúde, nomeadamente através da Linha SNS 24.
Uma farmácia de aldeia
Nem todos entram à procura de medicamentos. Há quem passe apenas para conversar ou quebrar a rotina de dias passados em casa. “Muitas vezes vêm menos para comprar um medicamento e mais para a conversa”, conta Maria Helena. Rui Lopes considera que esta realidade nem sempre é compreendida por quem define orientações para o sector. “Está tudo focado na cidade”, lamenta, defendendo que as populações do interior exigem uma atenção diferente. “O sistema quer objectivos e resultados, mas uma aldeia não é igual a uma cidade”, reforça.
A falta de medicamentos é outro desafio, embora os profissionais rejeitem a ideia de que as pequenas farmácias tenham necessariamente menos oferta. A gestão dos stocks depende da procura, dos custos e da disponibilidade dos laboratórios. Rui Lopes esclarece ainda que algumas alterações na comparticipação do Estado podem fazer aumentar o valor pago pelos utentes, mesmo quando o preço do medicamento não sofre alterações. Maria Helena lamenta o desaparecimento de farmácias em territórios menos povoados, considerando que se perde um “porto seguro” para quem precisa de ajuda. Recorda já ter auxiliado utentes a marcar consultas, enquanto Rui Lopes conta o episódio de um homem que entrou apenas para pedir ajuda a dar um nó numa gravata. Pequenos gestos que traduzem a confiança construída ao longo dos anos. Para Maria Helena, a paciência e a sensibilidade no atendimento são tão importantes como o conhecimento técnico. E é no reconhecimento dos utentes que encontra a maior recompensa de uma profissão à qual dedicou grande parte da vida. “Chegamos ao final do dia e sentimos que fizemos alguma coisa de útil”, conclui.


