Domingos Martins dedicou quase 50 anos aos bombeiros de Rio Maior e continua a sentir falta da segunda família
Entrou para os Bombeiros Voluntários de Rio Maior em 1979 e fez da missão de ajudar os outros uma forma de vida. Um AVC obrigou Domingos Martins a deixar o activo há três anos e meio, mas não apagou a ligação à corporação. No dia em que completou 63 anos foi surpreendido com uma homenagem.
Domingos Martins passou grande parte da vida a ajudar os outros, mas nos últimos três anos e meio foi ele quem precisou de ajuda para recuperar de um AVC que lhe retirou a capacidade de andar e falar. O antigo bombeiro dos Voluntários de Rio Maior, que ingressou na corporação em 1979, foi homenageado no dia 3 de Outubro, precisamente quando completou 63 anos. A surpresa juntou familiares, amigos e antigos companheiros de missão e culminou com a atribuição do seu nome a uma das salas do quartel. Um reconhecimento que o deixou emocionado e que não esperava receber, conta a O MIRANTE, numa conversa em que as palavras saem com dificuldade, mas em que o orgulho de ter pertencido à corporação permanece intacto.
A ligação aos bombeiros começou quando ainda era jovem, movido pela vontade de ser útil à comunidade. O que começou por ser uma forma de ocupar parte do tempo transformou-se num compromisso para a vida, afirma, procurando explicar o significado de pertencer a uma corporação de bombeiros. Ao longo do percurso encontrou colegas e superiores que marcaram a sua formação, entre os quais o antigo comandante António Eduardo Agostinho. A vida de bombeiro exigiu disponibilidade, dedicação e sacrifícios, mas Domingos Martins garante que conseguiu conciliar as responsabilidades na corporação com a vida familiar. A mulher, Luísa Martins, com quem está casado há 39 anos, e as filhas foram um apoio fundamental, sobretudo quando os problemas de saúde começaram a condicionar a sua autonomia. Também os antigos colegas e a associação humanitária se mantiveram presentes numa fase em que deixou de poder ser ele a prestar auxílio.
O momento que mudou a sua vida aconteceu a 31 de Maio, há cerca de três anos e meio, quando estava envolvido na preparação de um evento de atletismo e futsal da secção desportiva da colectividade, pela qual era responsável. Sofreu um AVC que o deixou sem conseguir andar e falar, obrigando-o a interromper uma ligação de mais de quatro décadas ao serviço activo. A recuperação tem sido lenta e exigente. A fisioterapia permitiu-lhe voltar a deslocar-se, embora com dificuldades, e recuperar parte da fala. A voz mantém-se muito baixa, quase num sussurro, e há palavras que nem sempre consegue encontrar. Nessas alturas é Luísa quem o ajuda a completar as frases. O AVC veio agravar um quadro clínico já marcado por vários problemas de saúde. Luísa Martins explica que o marido tem dificuldades de visão, utiliza uma prótese auditiva, tem próteses nas duas ancas e foi submetido a um transplante renal há cerca de 16 anos. Depois de vários anos de investigação médica sem respostas conclusivas, a família recebeu, em Dezembro passado, a confirmação de uma síndrome que afecta as células da visão, uma condição que se agravou após o AVC. Apesar das limitações, Domingos Martins continua a fazer questão de regressar ao quartel sempre que pode.
Quartel continua a ser uma segunda casa
O que mais custa a Domingos Martins não é ter deixado de participar nas ocorrências, mas a ausência do convívio diário com aqueles que considera uma segunda família. As visitas ao quartel ajudam a manter viva essa ligação e são sempre acompanhadas pelo carinho dos antigos companheiros. Para Luísa Martins, que acompanha de perto as dificuldades do marido, a homenagem teve um significado especial. Depois de quatro anos de namoro e 39 de casamento, conhece bem a importância que os bombeiros sempre tiveram na vida de Domingos. “Ele ficou muito feliz e emocionado. Foi mesmo um dia especial”, recorda, destacando o reconhecimento manifestado pelos comandantes, dirigentes e restantes elementos da associação. Depois de quase cinco décadas de ligação aos Bombeiros Voluntários de Rio Maior, Domingos Martins reconhece que chegou o momento de descansar. Questionado sobre se voltaria a vestir a farda caso a saúde o permitisse, responde que não. Sabe que essa etapa da sua vida terminou, embora a ligação à corporação permaneça. O desejo que deixa aos que continuam no activo é simples e resume os valores que procurou seguir desde 1979: que nunca deixem de “fazer o bem e ajudar os outros”. É essa a mentalidade que considera essencial preservar entre aqueles que escolhem dedicar parte da vida ao serviço da comunidade.


