Na Póvoa do Conde a apanha da azeitona ainda junta três gerações da mesma família
Depois de dois anos afastado por motivos de saúde, António regressou às oliveiras aos 90 anos. O filho vem de Lisboa e os netos, especialistas em Inteligência Artificial, trocam os computadores pelo campo para ajudar o avô. Ali perto, na Póvoa do Conde, Jorge modernizou o lagar que herdou da família e enfrentou a desconfiança dos clientes. Duas histórias que mostram como a produção de azeite mudou em Portugal, sem perder as raízes.
Aos 90 anos, António voltou este ano a levantar-se cedo para apanhar a azeitona. Depois de dois anos impedido de participar na campanha por problemas de saúde, sentiu forças para regressar às oliveiras e ajudar o filho, como fez durante grande parte da vida. O trabalho já não é o mesmo, mas a vontade de continuar a tradição mantém-se intacta. António recorda os tempos em que a apanha da azeitona juntava dezenas de pessoas e podia prolongar-se por dois meses. O trabalho era praticamente todo manual e havia oliveiras tão grandes que uma única árvore demorava um dia inteiro a ser apanhada. Eram jornadas duras, mas também momentos de convívio, com famílias, vizinhos e trabalhadores reunidos à volta da mesma tarefa.
Hoje a realidade é diferente. O filho vem de Lisboa e reserva uma semana para a apanha. Ao fim de semana chegam os netos, dois engenheiros informáticos especializados em Inteligência Artificial, que trocam os computadores pelas oliveiras para ajudar o avô. Não é uma questão de rentabilidade. Se contabilizassem as horas de trabalho e os custos envolvidos, dificilmente a produção compensaria. Mas as contas que interessam à família são outras. O objectivo é produzir azeite de qualidade a partir das oliveiras da família e, sobretudo, manter vivo um encontro entre gerações. Há almoços demorados, histórias repetidas e conversas que não cabem na correria do quotidiano. Um dos netos chegou a levar amigos para conhecerem a experiência. Numa época em que tantas famílias se dispersaram entre aldeias e cidades, a apanha da azeitona tornou-se um reencontro anual.
Um lagar moderno que começou por enfrentar a desconfiança
Ali perto, em plena Póvoa do Conde, aldeia do concelho de Santarém, Jorge conta outra parte da transformação da agricultura portuguesa. Filho e neto de lagareiros, herdou o lagar da aldeia em 2000 e decidiu modernizar as instalações, substituindo os métodos tradicionais por equipamentos mais eficientes. A mudança não agradou a todos. Muitos clientes recusavam-se inicialmente a entregar-lhe a azeitona, alegando que o azeite produzido pelos novos processos não tinha sabor e parecia água. Jorge recorda hoje o episódio com humor, mas na altura a resistência colocou dificuldades a quem tinha investido na modernização do negócio. O tempo acabou por lhe dar razão. O lagar cresceu, aumentou a capacidade de transformação e conquistou a confiança dos produtores. A história de Jorge reflecte uma mudança profunda no sector olivícola português, que passou de uma actividade muito dependente do trabalho manual para uma produção cada vez mais mecanizada e profissionalizada. Também no Ribatejo, região historicamente ligada ao azeite, os olivais tradicionais convivem hoje com novas plantações e estruturas modernas de transformação. Onde antes eram necessárias muitas pessoas e semanas de trabalho, existem agora equipamentos capazes de processar grandes quantidades de azeitona em poucas horas.
Portugal produz azeite que também abastece Itália
A modernização permitiu aumentar a produção nacional e conquistar mercados internacionais. Um dos exemplos mais curiosos é Itália, país mundialmente associado à cultura do azeite e à reputação das suas marcas. Em 2024, Portugal exportou para Itália cerca de 35,3 milhões de quilos de azeite virgem, segundo dados do comércio internacional do UN Comtrade disponibilizados pelo Banco Mundial. O número mostra a importância de Portugal enquanto fornecedor de um país que construiu uma imagem internacional fortíssima em torno deste produto.
A realidade encerra uma contradição: Portugal produz e exporta azeite de qualidade, mas nem sempre consegue que a origem portuguesa tenha junto dos consumidores o reconhecimento alcançado pelas marcas italianas. O desafio já não passa apenas por produzir mais ou modernizar os lagares. Passa também por valorizar a origem, afirmar marcas próprias e conseguir que o consumidor internacional associe Portugal à qualidade do azeite que produz.


