Sociedade | 21-10-2026 15:48

Padre exorcista acusado por violação em Fátima agora condenado a prisão efetiva por novos crimes

Padre exorcista acusado por violação em Fátima agora condenado a prisão efetiva por novos crimes

Padre afastado da igreja foi condenado a cinco anos e seis meses de prisão e diz que não lhe custa cumprir a pena

O antigo sacerdote Humberto Gama, que em 2018 ficou em liberdade após ser acusado de violação em Fátima, foi agora condenado a cinco anos e seis meses de prisão por violação, burla qualificada e usurpação de funções, num processo julgado em Vila Real. O homem de 87 anos, que continuou a apresentar‑se como padre e exorcista apesar de ter sido afastado da Igreja há décadas, disse após conhecer a decisão: “não me custa nada ir para a prisão”.

O antigo sacerdote, afastado da Igreja desde, foi condenado pelo Tribunal de Vila Real a cinco anos e seis meses de prisão efetiva por violação, burla qualificada e usurpação de funções. O processo que motivou a condenação diz respeito a factos ocorridos em Murça, onde Gama recebia pessoas para “aconselhamento espiritual” num espaço montado na sua casa. A vítima, uma mulher de 47 anos, procurou o arguido para apoio religioso e acabou por denunciá‑lo à Polícia Judiciária em 2021.

A ligação de Humberto Gama a Fátima remonta a vários episódios anteriores, incluindo o processo noticiado por O MIRANTE em 2018, quando foi acusado de violação por uma mulher que o procurou também para “orientação espiritual”. Na altura, o tribunal decidiu deixá‑lo em liberdade enquanto decorria a investigação, decisão que gerou polémica devido ao historial do arguido e ao facto de continuar a usar símbolos e funções religiosas que já não lhe pertenciam.

À saída do tribunal de Vila Real, Humberto Gama disse que vai recorrer da decisão e afirmou não temer cumprir a pena: “Vou para a prisão, qual é o problema? Com esta idade já morro lá”.

Numa reportagem em 2008, O MIRANTE esteve na sua casa e consultório montado às portas de Fátima. No terraço que cercava a vivenda de três pisos à beira da estrada nacional que liga Fátima a Minde, três automóveis de luxo – dois Mercedes e um BMW – indicavam que a vida lhe corria bem. Mas garantia que a riqueza não lhe vinha das consultas que dá. “Eu não preciso disto, vivo da minha reforma de professor. Cada um dá o que quer. Não cobro nada a ninguém”, disse-nos na sala de espera onde os pacientes aguardavam consulta.

Oriundo de uma família modesta de Mascarenhas (Mirandela), foi ordenado padre mas em 1973, foi demitido da Congregação dos Marianos e as suas práticas têm sido criticadas por alguma hierarquia católica por quem nutre uma evidente animosidade.

Em 1993 foi candidato pelo PS à Câmara de Mirandela numa lista adversária da do irmão, José Gama, que acabaria por ganhar. Quatro anos depois candidatou-se novamente, mas já pelo PSN. Um dos picos de fama ocorreu em 2006, quando um casal da zona de Vila Franca de Xira se queixou dele às autoridades por alegado abuso sexual da mulher durante as suas práticas exorcistas. Gama diz que o assunto morreu e que tudo se tratou de uma maquinação de um padre da Igreja Católica. Mas reconhece que tem de tocar nos possessos para absorver as energias más e expulsá-las daqueles corpos.

Humberto Gama é apreciador de arte, particularmente de pintura, e os quadros espalhados pela casa são prova disso. A música é outro elemento que faz parte do seu dia a dia. Diz que conheceu pessoalmente Frank Sinatra, de quem é admirador, e que tem uma guitarra assinada pelos míticos The Beatles, que diz ter apresentado em Londres ao padre Max (assassinado no pós-25 de Abril). Gosta dos prazeres mundanos, como a boa mesa e um bom vinho. Tal como de mulheres, presume-se quando diz não ligar ao celibato e confessa não saber se tem filhos.

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