Sociedade | 22-10-2026 10:00

Aeródromo militar de Tancos pode ganhar asas para outros voos

Aeródromo militar de Tancos pode ganhar asas para outros voos
Aeródromo de Tancos acolheu a Base Aérea 3, extinta em 1994 - foto DR

A proposta da Lufthansa para a privatização parcial da TAP tem no seu caderno de encargos um investimento de 500 milhões de euros numa escola de pilotos no complexo militar de Tancos, com o Governo a admitir a abertura do aeródromo militar à aviação comercial.

A proposta da Lufthansa para a privatização parcial da TAP prevê um investimento de 500 milhões de euros numa nova escola aeronáutica em Tancos, com o Governo a admitir que a pista desse aeródromo militar, localizado no concelho de Vila Nova da Barquinha, pode vir a ter uso civil. Refira-se que o Governo seleccionou na quarta-feira, 14 de Outubro, a Lufthansa para a privatização parcial da TAP, com uma proposta de 1.201 milhões de euros para até 49,9% do capital, prevendo concluir a operação até ao início de 2028.
Na conferência de imprensa após o Conselho de Ministros, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou que da proposta da Lufthansa fazem parte outros investimentos. “Em particular, gostaria de destacar os 500 milhões de euros que significam a criação de uma nova escola de pilotos em Tancos, um centro de inovação em Aveiro, um centro de serviços corporativos, a que se soma o já conhecido investimento da Lufthansa Technik em Santa Maria da Feira”, disse.
Depois, o ministro das Infraestruturas Miguel Pinto Luzacrescentou que, com este investimento, o aeródromo militar de Tancos - onde esteve instalada a antiga Base Aérea 3, extinta em 1994 - terá “a capacidade de ter uma abertura civil e militar”. Na fase de perguntas, Pinto Luz foi questionado se haveria alguma comparticipação do Estado e quando estaria preparado para receber voos civis. “O Estado português terá uma comparticipação de cerca de 10%, 50 milhões de euros, nomeadamente para a pista propriamente dita. Os prazos que a Lufthansa nos aponta é de 2029 a 2030”, afirmou.
O ministro reiterou que a pista situada no complexo militar de Tancos, na freguesia de Praia do Ribatejo, terá a valência civil e militar e remeteu mais detalhes para uma apresentação nas próximas semanas, articulado com o Ministério da Defesa Nacional. O primeiro-ministro detalhou que a proposta da Lufthansa permite perspectivar um crescimento do emprego em Portugal: “três mil empregos associados ao crescimento projectado da TAP, e um total de 5.500 empregos directos e indirectos no conjunto de todas estas iniciativas de investimento” em Portugal pela companhia alemã.

PSD saúda intenções anunciadas
A Distrital de Santarém do PSD saudou o investimento de 500 milhões de euros (ME) anunciado para o aeródromo de Tancos, considerando que a escola de pilotos da Lufthansa e a utilização civil da pista representam oportunidades de desenvolvimento económico e turístico. “Desde 2018 (…), o PSD Santarém tem vindo a defender a importância estratégica de Tancos. Nem sempre fomos compreendidos, mas o anúncio” de quarta-feira “demonstra que havia fundamento nesta visão”, afirmou o presidente dessa estrutura, Ricardo Oliveira, citado em comunicado.
O presidente da Comissão Política Distrital do PSD de Santarém e deputado à Assembleia da República considerou que Tancos tem potencial para se tornar uma infraestrutura determinante para o futuro do distrito, destacando a criação de emprego e a possibilidade de atrair novas empresas.

Médio Tejo quer mais aviação civil em Tancos e não apenas uma escola de pilotos

Autarcas querem aproveitar a instalação da escola de pilotos da Lufthansa para abrir a infraestrutura a outras actividades de aviação civil.

A Comunidade Intermunicipal (CIM) do Médio Tejo quer que o investimento de 500 milhões de euros anunciado para o aeródromo militar de Tancos, em Vila Nova da Barquinha, seja o ponto de partida para uma utilização civil mais abrangente da infraestrutura. A instalação de uma escola de pilotos da Lufthansa é recebida com entusiasmo pelos autarcas, mas a ambição regional vai além da formação de profissionais da aviação. O presidente da CIM Médio Tejo e da Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, considera o anúncio uma excelente notícia para a região e acredita que poderá atrair empresas, serviços e novos investimentos. O projecto, integrado na proposta do grupo alemão para a privatização parcial da TAP, prevê a criação de cerca de 200 postos de trabalho e uma comparticipação pública de 50 milhões de euros, destinada sobretudo à adaptação da pista para utilização civil e militar. “Temos uma esperança incrível de que esta valorização traga desenvolvimento económico para a região”, afirmou Manuel Jorge Valamatos à agência Lusa, sublinhando que os municípios defendem há vários anos o aproveitamento daquela infraestrutura. O autarca garante que o anúncio não surpreendeu a CIM, que tem mantido contactos com sucessivos governos e com o Exército para viabilizar a utilização conjunta da pista.
Apesar do entusiasmo, permanece por esclarecer se o aeródromo poderá receber outras operações aeronáuticas além da escola de pilotos. Manuel Jorge Valamatos insiste que é necessário aproveitar todo o potencial da infraestrutura e adianta que a CIM tem uma reunião agendada para a próxima semana com o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, para discutir o futuro de Tancos. O presidente da Câmara de Vila Nova da Barquinha, Manuel Mourato, também saudou o investimento, mas exige esclarecimentos sobre o impacto do ruído, as acessibilidades, a segurança e as oportunidades de contratação local. O autarca defende que o desenvolvimento económico deve ser acompanhado de medidas que salvaguardem a qualidade de vida da população. A utilização civil e militar de Tancos é uma reivindicação antiga dos municípios do Médio Tejo. Em Novembro de 2024, o Exército já tinha manifestado abertura à solução, cuja concretização dependia de decisões políticas.

À Margem - Opinião

Uma região à espera que aterrem os aeroportos que estão no horizonte

A porta aberta ao aproveitamento do aeródromo militar de Tancos para a aviação civil é uma das novidades da proposta da Lufthansa para aquisição de parte do capital da TAP e que abre excelentes perspectivas para a nossa região. Se tudo correr pelo melhor, daqui a uma década há a possibilidade de termos duas infraestruturas ligadas à aviação comercial a operar no Ribatejo, uma a sul, no concelho de Benavente, e outra a norte, no concelho de Vila Nova da Barquinha. É exagero dizer que é quase como ganhar a lotaria sem jogar, pois tanto uma como outra hipótese foram sendo reivindicadas, com mais ou menos denodo, ao longo dos anos por políticos e forças políticas da nossa região. Mas com duas alavancas de desenvolvimento como as que se anunciam – e a história recente acautela a que não se mandem foguetes antes da festa – esta região tem tudo para crescer e reforçar a sua afirmação no contexto nacional. A bola está agora nas mãos de quem executa.
João Calhaz

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