Sociedade | 23-10-2026 15:58

Empresário do ouro de Santarém acusado de liderar rede internacional de cocaína

FOTO ILUSTRATIVA – FOTO DR

O empresário com negócio de ouro em Santarém está a ser julgado por coordenar a importação de droga através de uma empresa de fachada com a colaboração de um empresário de Alcanena com experiência no negócio de couros e sócio de uma empresa na República Dominicana, país de onde vinha a cocaína dissimulada em peles de bovinos. Em julgamento, que decorre no Tribunal de Santarém, responde também um espanhol responsável pela distribuição da droga. Os suspeitos estão em prisão preventiva e o Estado exigiu o arresto de bens dos empresários.

Um empresário do ouro em Santarém e um negociante de peles e curtumes de Alcanena, estão a ser julgados por associação criminosa e tráfico de droga, que importavam da República Dominicana, através de uma empresa de fachada. Ambos estão desde o ano passado em prisão preventiva, tal como um terceiro arguido, um espanhol, detido em flagrante, e que era responsável por distribuir por via terrestre, para Espanha e outros países europeus, a cocaína que chegava a Portugal por via marítima. O Departamento de Investigação e Acção Penal de Leiria, sustenta que os três integravam uma rede transnacional organizada que introduzia elevadas quantidades de cocaína em território nacional com o objectivo de a transformar, reembalar e distribuir.
Para operacionalizar o esquema, o grupo utilizava uma sociedade constituída em Dezembro de 2022 que adquiriram para o comércio e importação de peles e couros, que entrou em liquidação após os suspeitos terem sido presos. A gerência estava entregue formalmente a um “testa de ferro” de Lisboa que recebia mil euros mensais, mas o controlo e as decisões da empresa cabiam ao empresário do sector da ourivesaria e penhores, que segundo a investigação geria os contactos aduaneiros e a contratação de serviços de apoio à importação. Sustenta o Ministério Público que a empresa importou, entre o início de 2024 e meados de Junho de 2025, quando os empresários foram detidos, um total de 12 contentores marítimos carregados com peles de bovino, no interior dos quais vinha escondida a cocaína.
A logística em Portugal assentava numa divisão precisa de tarefas. O empresário residente no centro de Santarém, encarregou-se de arrendar, em Março de 2024, um pavilhão industrial na Gouxaria, concelho de Alcanena, pelo valor mensal de 750 euros, destinado a servir de entreposto para a recepção e descarga da mercadoria. Para ocultar a sua verdadeira identidade nas operações comerciais e contratuais, apresentava-se frequentemente sob os nomes falsos de “Bruno Monteiro” ou “Filipe Joaquim”. Cabia-lhe avisar o cúmplice de Alcanena, que era sócio de uma empresa da República Dominicana que estava em dificuldades, da chegada dos contentores e dar-lhe instruções sobre como acondicionar as cargas no armazém e este operava pessoalmente o empilhador para descarregar as paletes e recrutava trabalhadores para auxiliarem nos trabalhos de força.
Em Dezembro de 2024, o arguido espanhol foi interceptado e detido em flagrante na portagem de Santo Tirso, na auto-estrada A3, quando transportava cerca de 80 quilos de cocaína ocultos num compartimento falso de uma carrinha de matrícula espanhola. Na sequência desta detenção, a organização alterou o seu “modus operandi”, deixando de utilizar viaturas com matrículas espanholas e passando a recorrer a carros de aluguer com matrícula portuguesa, maioritariamente levantados no Aeroporto de Lisboa.
O desmantelamento final da operação ocorreu após a chegada de um carregamento de três contentores com cerca de 60 toneladas de peles de bovino ao Porto de Leixões, importados pela empresa de fachada. A inspecção aduaneira por scanner detectou densidades anormais na carga, o que levou à abertura dos contentores e à descoberta de 993 pacotes de cocaína, com o peso de 595 quilos, dissimulados de forma minuciosa entre o pelo dos animais e a camada de gordura das peles. A droga apreendida era suficiente para a preparação de mais de 1,8 milhões de doses individuais.
As autoridades monitorizaram o seu transporte até à Gouxaria, numa acção de entrega controlada. No dia 27 de Junho de 2025 os dois empresários encontraram-se com os motoristas dos camiões pesados no posto de abastecimento da Repsol na Zibreira, orientando-os até ao armazém da Gouxaria para se proceder à descarga. O empresário residente em Santarém foi detido no local ao volante de um carro com malas de viagem vazias, luvas de látex, rolos de película aderente, sacos, uma máquina de embalar a vácuo e uma balança de precisão com vestígios de cocaína.

Ministério Público pediu o arresto de bens dos empresários

Em face da enorme disparidade entre os rendimentos lícitos declarados pelos arguidos e o património por estes adquirido no período em investigação, o Ministério Público requereu a perda alargada de bens a favor do Estado e o respectivo arresto preventivo. No caso do empresário do ouro foi calculada uma vantagem patrimonial ilícita presumida de 1.9 milhões de euros. Para garantir este montante, foi solicitado o arresto de saldos em diversas contas bancárias, de metade de dois imóveis da quota de 25.000 euros na sociedade que detém a loja de ouro, uma moto e um automóvel Mercedes. Ao empresário de Alcanena foi apurada uma vantagem ilícita de 47.861 mil euros, tendo o Ministério Público requerido o arresto das suas contas bancárias, da quota numa sociedade e de dois veículos ligeiros.

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