Sociedade | 23-10-2026 07:00

Michelle Rosa: quatro gerações a trabalhar a terra e uma vida que não se mede apenas em dinheiro

Michelle Rosa: quatro gerações a trabalhar a terra e uma vida que não se mede apenas em dinheiro
Michelle Rosa dirige uma exploração agrícola em Adofreire, Torres Novas - foto O MIRANTE

Aos 47 anos, Michelle Rosa representa a quarta geração de uma família de agricultores e continua a fazer da terra o seu modo de vida. Em Adofreire, no concelho de Torres Novas, dirige uma exploração de fruta fresca onde os dias começam muitas vezes antes do nascer do sol. Entre colheitas, contas e decisões difíceis, enfrenta a falta de rentabilidade de um sector que considera pouco valorizado. Já pensou em desistir, mas há uma ligação à terra que fala mais alto do que os números.

Quando chega a época da apanha do figo, o despertador de Michelle Rosa toca por volta das cinco da manhã. O trabalho começa ainda com o fresco da madrugada e prolonga-se pelo campo até às dez ou onze horas. Mas o dia está longe de terminar. Há fruta para distribuir, contas para fazer, projectos para acompanhar e decisões para tomar. Aos 47 anos, Michelle é agricultora, gestora, responsável financeira e de marketing, conforme as necessidades de uma empresa onde é preciso saber fazer um pouco de tudo. Licenciada em Ciências do Desporto, foi na agricultura que encontrou a sua verdadeira vocação. É a quarta geração de uma família ligada à terra e dirige a Rosa Agro, empresa sediada em Adofreire, no concelho de Torres Novas, junto à Serra de Aire. Produz fruta fresca, comercializada também através da marca Doce Terra, além de figos secos e passas. “Sou agricultora a tempo inteiro. A minha profissão é cuidar das plantas, da terra, da biodiversidade e da sustentabilidade”, afirma a O MIRANTE.
A paixão nasceu na infância, quando acompanhava o pai nos trabalhos agrícolas. Regressado da emigração, foi ele quem lhe transmitiu os primeiros conhecimentos e a disciplina exigida pelo campo. Michelle recorda que o acompanhava à hora que fosse necessário, independentemente de quanto tinha dormido. Aprendeu cedo que a terra não espera e que os resultados dependem tanto do esforço como do conhecimento. Ser mulher num sector tradicionalmente dominado por homens acrescentou dificuldades ao percurso. Reconhece que a autoridade feminina nem sempre é aceite da mesma forma e que continua a ser necessário provar competências. “Temos de nos fazer valer um pouco mais”, considera. Ainda assim, encara as diferenças com pragmatismo e não esconde que determinadas tarefas fisicamente exigentes continuam a ser mais frequentemente desempenhadas por homens.

Trabalhar um ano inteiro sem garantias
A dureza da agricultura não está apenas nas horas passadas no campo. Está também na incerteza de cada campanha e na dificuldade em transformar trabalho em rendimento. Michelle lamenta que os preços pagos aos produtores nem sempre acompanhem os custos e o investimento necessário para colocar alimentos na mesa dos consumidores. “Toda a gente se esquece de que todos os dias come pelo menos três vezes por dia”, observa, criticando a pouca valorização de quem produz. O conhecimento transmitido pelo pai continua a orientar muitas decisões. Escolher culturas adaptadas ao solo e ao clima é fundamental para evitar investimentos condenados ao fracasso. Nem sempre o entusiasmo chega para afastar o desânimo. Michelle admite que já ponderou abandonar a agricultura. Há anos em que se investem tempo e dinheiro numa produção que acaba por não corresponder às expectativas. No ano seguinte, é necessário recomeçar, sem garantias de que o resultado será diferente. Mas quatro gerações de história não cabem numa folha de cálculo. “Quando olho para isto, não vejo só dinheiro”, confessa. A terra representa trabalho, memórias e uma herança familiar que não quer perder. A agricultura ensinou-lhe sobretudo paciência e a aceitar que nem tudo depende da vontade humana.
A quem pretende iniciar-se na actividade, deixa um conselho sustentado na experiência: estudar as culturas, conhecer os custos e garantir compradores antes de investir. “Ou sabemos para onde vamos vender, ou então não vale a pena”. Porque produzir fruta é apenas parte do desafio. Conseguir viver dela é outra história.

De 2023 a 2026: a defesa do figo preto de Torres Novas

Em Outubro de 2023, O MIRANTE apresentou Michelle Rosa como uma das produtoras empenhadas na valorização do figo preto de Torres Novas. Na altura, explorava cerca de dez hectares, apostava na produção biológica e cultivava também pêssegos, damascos e uvas de mesa. Integrava o projecto GoFigo, criado com outros agricultores para promover o fruto tradicional da região. A poupança de água, através da rega por gravidade e da adaptação às condições meteorológicas, era uma preocupação constante, a par da escassez de mão-de-obra e dos custos da apanha manual. Três anos depois, a propósito do Dia Internacional da Mulher Rural, O MIRANTE regressa ao seu percurso. Mantêm-se a dedicação à terra, a exigência de gerir uma exploração agrícola e a luta por uma actividade economicamente sustentável.

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