Sociedade | 23-10-2026 10:00

Na Moçarria há um trigo que resiste à indústria e mantém viva a tradição do pão

Na Moçarria há um trigo que resiste à indústria e mantém viva a tradição do pão
Ricardo Lourenço, produtor de trigo Barbela na Moçarria, aposta há uma década na recuperação de uma variedade ancestral portuguesa - foto O MIRANTE

Durante décadas, as padarias da Moçarria alimentaram grande parte da cidade de Santarém. Hoje, a tradição resiste pelas mãos de quem acredita que o futuro do pão também se constrói com os cereais do passado. Ricardo Lourenço, agricultor de 43 anos, cultiva há uma década trigo Barbela, uma variedade ancestral portuguesa que produz menos, exige mais tempo e desafia os métodos da panificação industrial.

Houve um tempo em que o dia começava cedo na Moçarria, com o cheiro a pão acabado de cozer e as carrinhas das padarias a saírem carregadas em direcção a Santarém. Nas décadas de 50 e 60, a freguesia era uma referência na produção de pão e abastecia boa parte da cidade. As padarias eram mais do que negócios. Faziam parte da vida da terra, davam trabalho e alimentavam uma tradição que atravessou gerações. Os tempos mudaram, a produção industrial ganhou terreno, mas há quem se recuse a deixar desaparecer essa herança. Ricardo Lourenço, 43 anos, natural da Moçarria, é um desses resistentes. Agricultor por tradição familiar, dedica-se há cerca de dez anos ao cultivo de trigo Barbela, uma variedade antiga portuguesa que perdeu espaço para cereais mais produtivos, mas que começa a despertar novamente o interesse de padeiros e consumidores. Não é uma cultura para quem procura grandes quantidades ou resultados imediatos. É uma aposta na qualidade e na preservação de um património agrícola que, acredita, merece ser valorizado. O agricultor tem assistido a uma procura crescente pela farinha de Barbela, tanto por profissionais da panificação como por particulares que querem recuperar o hábito de fazer pão em casa. Uma mudança que interpreta como sinal de que há consumidores dispostos a procurar alternativas à produção massificada.
O trigo Barbela começa a contar a sua história muito antes de chegar ao forno. A sementeira realiza-se habitualmente em Novembro ou Dezembro e a colheita acontece entre Junho e Julho, dependendo das condições meteorológicas e do desenvolvimento da cultura. Ricardo Lourenço explica que o crescimento do cereal decorre ao longo de vários meses e que cada campanha exige atenção às particularidades do terreno e do clima. Depois da colheita, o trigo tem de secar, ser limpo e seguir para a moagem. A preferência recai sobre os moinhos de pedra, associados a processos tradicionais de transformação do cereal. A massa de Barbela exige conhecimento, paciência e uma forma de trabalhar que nem sempre se ajusta à pressa das linhas industriais. Os tempos de preparação e fermentação, a quantidade de água e a própria técnica de amassar influenciam o resultado. Há padeiros que utilizam exclusivamente farinha de Barbela e outros que a misturam com diferentes variedades. A fermentação com massa-mãe é também uma possibilidade para quem privilegia processos tradicionais. O resultado depende da experiência de quem trabalha a massa.

A qualidade faz a diferença
No campo, o trigo Barbela também se distingue. Pode atingir cerca de metro e meio de altura, adapta-se a terrenos menos férteis e apresenta características de resistência à seca. A dimensão da palha pode ainda ajudar a limitar o desenvolvimento de algumas ervas daninhas, reduzindo, em determinadas condições, a necessidade de utilização de herbicidas. Mas há uma desvantagem que ajuda a explicar o abandono progressivo desta variedade: a produtividade. Ricardo Lourenço aponta para uma produção média de tonelada e meia por hectare, muito abaixo das seis toneladas que algumas variedades modernas conseguem alcançar. É uma diferença com peso económico e que torna difícil competir num mercado onde a quantidade e o preço continuam a determinar muitas escolhas.
Na Moçarria, o Festival do Bunho e do Pão de Barbela tem contribuído para dar visibilidade a esta herança. O certame aproxima produtores, padeiros e consumidores, mostrando que o pão continua a ser um elemento importante da identidade local e que pode assumir diferentes formas na gastronomia. Ricardo Lourenço acredita que o caminho passa por divulgar o cereal, conquistar novos consumidores e incentivar a sua utilização. Não esconde a ambição de ver o trigo Barbela reconhecido para lá das fronteiras portuguesas, embora saiba que essa valorização exige persistência. No Dia Mundial do Pão, assinalado a 16 de Outubro, a história deste agricultor recorda que por detrás de um alimento tão comum existe um trabalho que começa na terra e depende do conhecimento acumulado ao longo de gerações.

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