Sociedade | 24-10-2026 15:00

Pressão no trabalho está a levar profissionais ao limite, alerta psiquiatra Luísa Delgado

Pressão no trabalho está a levar profissionais ao limite, alerta psiquiatra Luísa Delgado
Médica psiquiatra Luísa Delgado - foto O MIRANTE

Médica psiquiatra alerta para os sinais de esgotamento físico e psicológico e defende que a prevenção do burnout não pode depender apenas dos trabalhadores. Empresas devem reconhecer que a pressão excessiva pode comprometer a saúde dos profissionais e a produtividade.

O cansaço persistente, a perda de prazer nas actividades do dia-a-dia e a dificuldade em desligar dos problemas profissionais são sinais de alerta que não devem ser ignorados. A médica psiquiatra Luísa Delgado, directora do Serviço de Psiquiatria, chamou a atenção para os riscos do burnout durante a sua participação no evento Vila Saúde, realizado no Entroncamento, onde defendeu a necessidade de encontrar um equilíbrio entre as exigências profissionais e a vida pessoal. A especialista explicou que a resistência ao desgaste varia de pessoa para pessoa e depende também da satisfação com as funções desempenhadas. Trabalhar numa área que proporciona realização pessoal pode ajudar a enfrentar melhor as exigências diárias, enquanto exercer uma actividade pouco gratificante ou distante das expectativas individuais pode acelerar o esgotamento. Perante situações de desgaste prolongado, considera fundamental procurar estratégias que permitam recuperar o equilíbrio, incluindo mudanças na forma de encarar o trabalho ou nas próprias funções profissionais.

Perda de prazer e sintomas físicos são sinais de alerta
Um dos sinais mais preocupantes é a perda da capacidade de sentir prazer, sobretudo quando acompanhada pela dificuldade em deixar os problemas profissionais no local de trabalho. A ansiedade perante um novo dia de trabalho, a irritabilidade, a tristeza e os pensamentos negativos persistentes podem indicar que os limites estão a ser ultrapassados. A estes sintomas juntam-se manifestações físicas como taquicardia, dores de cabeça, tensão muscular e problemas gastrointestinais. Luísa Delgado ressalva, contudo, que nem todas as emoções negativas correspondem a uma doença. “Estar triste não é estar deprimido. São coisas diferentes”, afirmou, sublinhando que a tristeza, a frustração e a apreensão fazem parte da experiência humana. A persistência dos sintomas e o impacto na vida quotidiana são factores importantes para perceber quando é necessário procurar acompanhamento especializado.

Empresas também têm responsabilidade na prevenção
A pressão para alcançar resultados, corresponder às expectativas e obter reconhecimento pode contribuir para o esgotamento. A psiquiatra critica a tendência para exigir cada vez mais dos trabalhadores, sem respeitar as diferenças individuais e os limites de cada pessoa. “Às vezes pedimos demais para ter mais”, observou, alertando que o aumento da exigência nem sempre se traduz em melhores resultados. Para Luísa Delgado, a prevenção do burnout exige também responsabilidade das entidades empregadoras e medidas que evitem a sobrecarga profissional. O esgotamento pode provocar ausências prolongadas, dificuldades de concentração, quebra de produtividade e deterioração do ambiente de trabalho, prejudicando tanto os profissionais como as organizações. A médica defende, por isso, uma maior atenção à saúde mental e condições de trabalho que permitam conciliar a vida profissional com a pessoal, lembrando que exigir continuamente mais pode acabar por produzir precisamente o efeito contrário ao pretendido.

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