Sociedade | 25-10-2026 15:00

Perderam pernas, companheiros e a paz: em Ourém tentam reconstruir a vida

Perderam pernas, companheiros e a paz: em Ourém tentam reconstruir a vida
O Centro de Reabilitação Fénix já acolheu 50 militares ucranianos desde Julho de 2024 - foto DR

Um antigo seminário na freguesia do Olival, em Ourém, transformou-se num refúgio para militares ucranianos marcados pela guerra. O Centro de Reabilitação Fénix já acolheu 50 soldados feridos no conflito com a Rússia, proporcionando-lhes tratamentos físicos, apoio psicológico e dias de tranquilidade junto das famílias.

Serghii Nazarenko tem 32 anos, perdeu parte de uma perna numa explosão e carrega memórias que nenhuma prótese conseguirá apagar. O militar ucraniano, natural de Kiev, está em Portugal para recuperar das feridas da guerra, mas garante que a maior dor não é a que ficou marcada no corpo. “A minha pior memória, sem dúvida, não é a minha lesão. A pior memória da guerra é quando perdes os teus companheiros, quando vês as suas mortes e vais aos seus funerais”, confessa à agência Lusa. Serghii é um dos dez militares ucranianos que chegaram a Ourém a 4 de Outubro, acompanhados pelas famílias, para um programa de reabilitação no Centro Fénix, instalado num antigo seminário na Aldeia Nova, freguesia do Olival. Ao todo, o grupo integra 31 pessoas, incluindo um bebé, que encontraram naquele espaço algo que a guerra lhes roubou: a possibilidade de dormir sem medo de que uma bomba lhes caia em cima. Antes da invasão russa, em Fevereiro de 2022, Serghii trabalhava numa empresa de telecomunicações. Alistou-se nas Forças Armadas e, em Outubro de 2024, foi atingido por uma mina antipessoal na região de Lugansk, no leste da Ucrânia. Perdeu parte de uma perna e passou a depender de uma prótese para caminhar. Integra o Centro de Operações Especiais Omega, da Guarda Nacional da Ucrânia. Veio para Portugal acompanhado pela filha de seis anos. É por ela, mais do que por si, que valoriza esta oportunidade. Na Ucrânia, explica, as crianças chegam a ter de se refugiar em caves cinco vezes por dia devido aos ataques aéreos. Em Ourém, a filha consegue dormir tranquilamente e fazer os trabalhos escolares à distância.

Uma pausa na guerra para quem já perdeu demasiado
Também Olga Polishchyk, de 37 anos, encontrou em Ourém uma pausa numa vida marcada pelo sofrimento. Natural de Odessa, serviu nas Forças Armadas ucranianas entre 2018 e 2024 e enfrenta agora uma nova batalha, contra o cancro. Está acompanhada pela filha de dez anos, que sofre de uma doença genética. Com a ocupação russa da cidade onde viviam, a criança ficou três meses sem acesso ao tratamento de que necessitava, agravando-se o seu estado de saúde. Olga assegura que, em Portugal, a condição ocular da filha melhorou em apenas uma semana.
Os testemunhos ajudam a perceber a dimensão de um projecto que vai muito além dos tratamentos médicos. O Centro de Reabilitação Fénix abriu portas a 1 de Julho de 2024 e já acolheu 50 militares ucranianos, incluindo os dez que chegaram este mês. O actual grupo tinha autorização para permanecer até 21 de Outubro, prazo máximo autorizado pelas autoridades ucranianas para a sua permanência fora do país. Segundo a associação Ukrainian Refugees UAPT (HelpUA.pt), responsável pelo projecto, esta é a primeira vez que militares da unidade especial Omega, incluindo combatentes altamente condecorados, recebem autorização para sair temporariamente da Ucrânia e realizar tratamentos de reabilitação no estrangeiro.
O vice-presidente da associação e responsável pelas missões na Ucrânia, Ângelo Neto, reconhece que o centro está subaproveitado por falta de financiamento. Quando a criação do equipamento foi anunciada, em Janeiro de 2023, a expectativa era receber entre 100 e 150 doentes. “Podíamos, sem dúvida, mais, mas é o que conseguimos com o apoio 100% da sociedade civil”, afirma, explicando que as despesas com viagens aéreas, alimentação, alojamento e tratamentos obrigam a uma gestão rigorosa dos donativos. O centro dispõe de equipamentos de fisioterapia, magnetoterapia, ginásio, acompanhamento psicológico e outros recursos de reabilitação. Tem ainda dois cães utilizados em terapia com crianças. O programa inclui igualmente actividades culturais e de lazer, procurando alternar os dias de tratamento com passeios.
Uma nova etapa está prevista para Janeiro de 2027, quando o Centro Fénix deverá passar a disponibilizar 40 vagas de cuidados continuados destinadas à população portuguesa. A associação espera que esta actividade permita criar receitas regulares e aumentar o número de militares ucranianos acolhidos. O antigo seminário, também conhecido como Casa da Criança da Aldeia Nova, pertence à Obra do Frei Gil, ligada à Ordem dos Dominicanos, e foi cedido gratuitamente à associação por períodos renováveis. O espaço dispõe de segurança própria e de vigilância das autoridades portuguesas.

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