Sociedade | 26-10-2026 10:00

Dois bombeiros de Torres Novas desafiam os limites e treinam para o inesperado

Dois bombeiros de Torres Novas desafiam os limites e treinam para o inesperado
William Ferreira e Fábio Rodrigues, do Delta Squade Rescue, treinam diariamente para serem melhores no socorro a vítimas de trauma - foto O MIRANTE

Fábio Rodrigues e William Ferreira, bombeiros profissionais em Torres Novas, criaram a Delta Squad Rescue, um projecto que nasceu da vontade de mostrar o trabalho dos operacionais para além dos incêndios florestais. Acreditam que a preparação constante e a partilha de conhecimento podem fazer a diferença no socorro às populações e ambicionam levar o nome da corporação a competições nacionais de trauma.

Fábio Rodrigues e William Ferreira são bombeiros há mais de uma década, mas a experiência acumulada nunca foi motivo para se acomodarem. Pelo contrário, quanto mais conhecem a realidade do socorro, maior é a vontade de aprender, aperfeiçoar técnicas e procurar respostas para situações em que cada segundo pode fazer a diferença. Bombeiros profissionais na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Torrejanos criaram a Delta Squad Rescue, um projecto que começou por dar visibilidade ao trabalho operacional através de registos fotográficos e evoluiu para a partilha de conhecimentos e treinos de socorro a vítimas de trauma. A iniciativa tem vindo a despertar o interesse de outros bombeiros, que Fábio e William procuram desafiar a participar nos exercícios, a trocar experiências e a ganhar confiança perante cenários de emergência complexos.
“Não somos melhores do que ninguém, o que queremos é enriquecer as nossas práticas e os nossos conhecimentos e, se possível, melhorar os de quem trabalha connosco”, começa por referir William, explicando que a Delta Squad Rescue nasceu também da vontade de mostrar uma realidade que raramente ganha protagonismo. “Parece que só se lembram dos bombeiros na época dos incêndios florestais, mas nós estamos cá todo o ano”, vinca, acrescentando que há um trabalho diário de socorro pré-hospitalar, acidentes rodoviários e outras emergências que passa despercebido.
Inspirados pelas fotografias, que também passaram a servir de exemplos reais nas sessões de instrução, ou em cenários sugeridos por colegas, os dois bombeiros recriam atropelamentos, quedas de grandes alturas e acidentes com múltiplas vítimas. Depois tentam resolver a ocorrência no menor tempo possível, privilegiando sempre os ganhos para as vítimas. A intenção, explica Fábio Rodrigues, é não só habituarem-se a pensar rápido perante situações inesperadas como a trabalharem em sintonia, sem necessidade de explicar cada movimento.
“Sei que, se estiver a cometer um erro, o meu colega vai corrigir-me”, sublinha William, acrescentando que a confiança entre os elementos de uma equipa é tão importante como o domínio das técnicas. Além disso, afirma, a realidade do terreno nem sempre corresponde à formação teórica, e muitos procedimentos são ensinados para equipas de três elementos, mas as ambulâncias saem habitualmente com dois bombeiros, obrigando a adaptar a intervenção aos meios disponíveis.

Atropelamento deu sentido a horas de treino
Em cada treino que decorre quase diariamente no quartel, com conhecimento e apoio da estrutura da associação, Fábio e William querem também contagiar os colegas com a mesma vontade de aprender. Convidam-nos a criar cenários, a participar nos exercícios e a experimentar soluções que, por falta de prática ou confiança, nem sempre se sentem à vontade para executar. Acreditam que a preparação de uma equipa depende da capacidade de todos os seus elementos e que o conhecimento não deve ficar limitado a quem toma a iniciativa de procurar mais formação. “Não se cresce sem iniciativa, não se faz a diferença sem iniciativa”, defende William, vincando que é essa convicção que os leva a procurar formação complementar e a testar situações que dificilmente surgem nos exercícios habituais.
A confirmação de que o esforço não é em vão chegou numa ocorrência particularmente exigente, na qual Fábio e William integravam uma equipa de desencarceramento chamada a um atropelamento no concelho de Torres Novas. Quando chegaram, encontraram uma mulher com ferimentos muito graves, que tinha ficado encarcerada na viatura. O cenário exigia rapidez, coordenação e cuidados específicos para estabilizar a vítima até à chegada de meios de socorro diferenciados.
“Era precisamente o que tínhamos estado a treinar”, lembra Fábio, destacando que conseguiram aplicar procedimentos de imobilização, controlo de hemorragias e vigilância dos sinais vitais, num trabalho conjunto que recordam como um dos momentos mais marcantes do percurso profissional. “Preferimos treinar e não apanharmos nunca aquele cenário do que o contrário”, afirma William, insistindo na importância de treinar, questionar e melhorar numa profissão onde se corre contra o tempo e, muitas vezes, segundos fazem a diferença entre a vida e a morte. Não é por acaso que no corpo tem tatuada uma frase que resume a forma como encara a profissão: “Sê a pessoa que faz a diferença”. Ou, como diz, pelo menos tenta.

Ligação aos bombeiros desde as escolinhas

Fábio Rodrigues e William Ferreira entraram nas escolinhas dos Bombeiros Voluntários Torrejanos em 2009, ainda adolescentes, embora por razões diferentes. Fábio chegou por influência do pai, numa família com fortes ligações à corporação, apesar de sonhar com uma carreira nos paraquedistas. William nasceu em França, mudou-se para Portugal em 2008 e tornou-se o primeiro bombeiro da família. Chegou a afastar-se da actividade para jogar basquetebol a nível nacional, mas regressou à corporação durante a pandemia. Seguiram percursos diferentes até se reencontrarem profissionalmente nas equipas de intervenção. Hoje, ambos são bombeiros de segunda classe e partilham não apenas as ocorrências, mas também a vontade de continuar a aprender e de participar em competições nacionais de trauma.

Modelo de voluntariado precisa de ser repensado

Fábio Rodrigues e William Ferreira estão preocupados com a diminuição do número de voluntários e consideram que o espírito de altruísmo tem vindo a perder-se. A formação inicial dura cerca de um ano e exige disponibilidade, dedicação e sacrifícios, sem garantir um emprego remunerado. Para quem trabalha e tem família, passar vários dias longe de casa em operações de socorro é cada vez mais difícil.
Os dois bombeiros defendem que o modelo de voluntariado precisa de ser repensado e alertam para a necessidade de valorizar quem dedica o seu tempo a ajudar os outros. Lembram que o trabalho das corporações não se resume aos incêndios florestais e que os bombeiros estão disponíveis durante todo o ano para responder às emergências. “Nós aparecemos nos piores dias da vida das pessoas”, sublinham, receando que, sem mudanças, seja cada vez mais difícil garantir a renovação das corporações.

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