Sociedade | 29-10-2026 15:00

Medo de denunciar continua a dificultar combate à violência doméstica

Medo de denunciar continua a dificultar combate à violência doméstica
Agentes da PSP estiveram na Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira a dar conselhos de segurança aos mais velhos - foto O MIRANTE

O medo de denunciar, a violência financeira contra idosos e a perseguição nas relações amorosas estiveram entre os temas abordados numa acção de sensibilização da PSP, em Vila Franca de Xira, dirigida sobretudo a idosos.

Marília Vitorino e Ana Maria Rodrigues cresceram a assistir à violência dos pais contra as mães. Uma recorda a agressividade do pai, que já vinha desde que a mãe estava grávida de si; a outra lembra as tentativas, juntamente com as irmãs, de proteger a mãe das agressões. Décadas depois, aos 68 e 71 anos, respectivamente, as duas mulheres continuam a sentir o peso dessas memórias e consideram importante sensibilizar a população para a violência doméstica. Os testemunhos foram partilhados a O MIRANTE à margem de uma acção de sensibilização promovida pela PSP, na manhã de sexta-feira, 23 de Outubro, no auditório da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira, dedicada à violência doméstica e aos maus-tratos a idosos.
Hugo Silva e Bárbara Batista, da Equipa de Proximidade e Apoio à Vítima da PSP de Vila Franca de Xira, abordaram as diferentes formas de violência, muitas vezes perpetradas por familiares ou cuidadores. O que fazer perante estas situações e como denunciar um crime público foram algumas das questões esclarecidas durante a sessão.
Marília Vitorino, que vive em Vila Franca de Xira, admite que o tema a afecta particularmente devido à violência que presenciou em casa dos pais. Também Ana Maria Rodrigues recorda os episódios de violência do pai contra a mãe, uma situação que se prolongou durante muito tempo, até a irmã mais velha descobrir quem era a mulher com quem o pai mantinha uma relação extraconjugal e ir falar com ela. Segundo recorda, foi a partir daí que a situação acabou por terminar.
As duas consideram que hoje existe maior sensibilização para estas questões do que no passado, quando muitas situações eram silenciadas. Ana Maria defende que quem tem conhecimento de maus-tratos deve comunicar a situação às autoridades, mesmo quando a vítima não quer denunciar. Quanto aos mais jovens, mostra-se também preocupada com comportamentos de controlo nas relações amorosas, nomeadamente através de aplicações de telemóvel que permitem saber onde está o namorado ou a namorada.

PSP alerta para violência financeira e perseguição
Os crimes de violência doméstica são aqueles que têm tido maior número de alterações, porque abrangem não só as relações conjugais, mas também as relações entre pais e filhos, e vice-versa, e até situações que envolvem os cuidadores, explicou o agente Hugo Silva. Os casos de violência económica ou financeira, em que, por exemplo, os filhos tiram dinheiro aos pais para comprar droga ou álcool, ou fazem levantamentos da conta dos pais sem consentimento, são os mais difíceis de provar.
O medo de testemunhar e denunciar o crime de violência doméstica continua também a ser um entrave ao fim da situação, até porque, na maior parte dos casos, os crimes acontecem “dentro de quatro paredes”, explicou Hugo Silva. Dados de 2021 apontam para 13.772 crimes de violência doméstica participados à PSP. Em 2010, foram 18.503. Ainda assim, disse Bárbara Batista, “não é verdade que hoje existam mais casos de violência doméstica, há é mais queixas”.
Outro dos fenómenos explicados pela polícia diz respeito à perseguição, conhecida como stalking, que tem nos jovens a maior parte das vítimas. Os perseguidores seguem as vítimas na escola, no percurso para casa ou para o trabalho, além de lhes enviarem mensagens constantes para o telemóvel.
Hugo Silva deu ainda a conhecer um caso de perseguição em que a vítima e o perseguidor não se conheciam. Tratava-se de um homem que apanhava diariamente o autocarro por estar obcecado pela motorista, até ser apanhado em flagrante pela polícia. “As imagens de telemóvel têm sido aceites como prova pelos procuradores”, explicou, referindo-se a casos de perseguição.
No final, a PSP informou que, caso algum idoso precise de ajuda, pode ligar directamente para as esquadras e pedir para falar com o agente afecto ao policiamento de proximidade responsável pelo acompanhamento da população idosa. A PSP tem previstas mais acções de sensibilização dirigidas à população idosa, nomeadamente sobre o tema das burlas.

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