Sofrer em silêncio continua a ser uma realidade que preocupa profissionais de saúde
O medo da morfina, a resignação perante o sofrimento e a procura tardia de ajuda continuam a dificultar o tratamento da dor. Em Santarém, médicos e enfermeiros deixaram um aviso: sofrer em silêncio não é solução.
Há quem passe anos a suportar dores por acreditar que são consequência inevitável da idade ou da doença. Há também quem evite tratamentos por receio de ficar dependente dos medicamentos. Foi contra esta resignação que a Unidade de Dor Aguda da Unidade Local de Saúde da Lezíria promoveu, na Casa do Brasil, em Santarém, uma iniciativa no Dia Mundial de Combate à Dor. Sob o lema “Conhecer a Dor. Desfazer Mitos. Melhorar Vidas”, doentes, cuidadores e profissionais participaram em palestras, workshops e momentos de partilha. A mensagem foi clara: a dor merece atenção, mesmo quando não aparece nos exames, e o seu tratamento não pode ficar para depois.
“A dor é uma experiência profundamente humana, mas não é uma experiência igual para todos”, afirmou a vereadora com o pelouro da Saúde, Teresa Ferreira. O sofrimento, lembrou, pode roubar o sono, limitar a autonomia, prejudicar o trabalho e afectar a vida familiar. A directora clínica para os cuidados hospitalares, Teresa Rodrigues, alertou para a invisibilidade de muitas situações: “A dor nem sempre é visível”. Tratar é também devolver às pessoas a capacidade de caminhar, trabalhar e viver com dignidade.
À margem da iniciativa, a anestesiologista Ana Ricardo, do Hospital de Santarém, disse a O MIRANTE que persiste o medo dos medicamentos mais fortes, sobretudo da morfina, por receio de dependência ou de riscos para a saúde. A médica e a enfermeira Ana Tiago defenderam que estes fármacos têm lugar no controlo de determinadas dores, com prescrição e acompanhamento. O desconhecimento, reconheceram, também existe entre profissionais de saúde, tornando indispensável reforçar a formação. “A dor é para aguentar e eu aguento”, exemplificou Ana Tiago, reproduzindo uma frase que continua a ouvir. O problema é que adiar a procura de ajuda pode agravar o sofrimento e dificultar o controlo da dor. Os especialistas lembraram ainda o papel do exercício físico, do movimento e dos hábitos saudáveis, consoante cada situação.


