Centro de dados de 220 milhões divide vereadores da Câmara de Coruche
A ausência de garantias financeiras documentadas e a ligação à NVIDIA marcaram a discussão na Câmara de Coruche sobre a instalação de um centro de dados de inteligência artificial, com 30 empregos previstos. A oposição absteve-se na votação e a promotora revelou pormenores sobre o projecto.
O executivo da Câmara de Coruche aprovou, em reunião extraordinária, a renúncia ao direito de reversão sobre um terreno destinado a um investimento anunciado de 220 milhões de euros. A decisão pretende facilitar o acesso a financiamento para construir um centro de dados de inteligência artificial no Parque Empresarial do Sorraia, mas motivou reservas de vários vereadores da oposição – que se abstiveram - quanto à salvaguarda dos interesses municipais se o projecto não avançar.
O lote 92, na zona industrial do Monte da Barca Norte, foi adquirido por escritura pública a 29 de Setembro. A empresa pediu que o imóvel pudesse ser utilizado como garantia perante bancos e investidores, sem as limitações associadas ao direito de reversão do município. A informação apresentada na reunião previa 20 milhões de euros de capitais próprios, outros 20 milhões de capital adicional e 180 milhões em financiamento bancário e instrumentos complementares, numa operação que envolveria quatro bancos e duas seguradoras.
O presidente da câmara, Nuno Azevedo (PS), justificou a proposta com a dimensão do investimento, a criação prevista de 30 empregos qualificados e o potencial de atrair outras actividades tecnológicas. O autarca acrescentou que a empresa já tinha apresentado uma comunicação prévia para a construção e reunido com os serviços municipais para adequar o projecto às regras urbanísticas. Considerou, por isso, estarem reunidas as circunstâncias excepcionais previstas no regulamento de venda de lotes.
Durante o debate, foi referido que a sociedade promotora tinha um capital social de dez mil euros, perante um investimento anunciado de 220 milhões. Um dos vereadores reconheceu que esse valor não determina, por si só, a capacidade financeira da empresa, mas criticou a ausência, na documentação fornecida aos eleitos, de compromissos vinculativos de investidores, aprovações bancárias ou comprovativos de capitais disponíveis.
Os vereadores que colocaram reservas defenderam que a autarquia deveria exigir garantias antes de abdicar do direito de reversão, nomeadamente manifestações formais de interesse dos financiadores ou pré-aprovações de crédito. Foi também recordado o caso da IKIMobile (marca de telemóveis), cujo encerramento, após expectativas de investimento e emprego, serviu de exemplo para reclamar maior prudência.
Nuno Azevedo contrapôs que o investimento comporta riscos e que não facilitar o financiamento poderia levar os promotores a escolher outro concelho. Salientou que os contactos com os serviços municipais e o desenvolvimento do processo urbanístico demonstravam que a iniciativa já ultrapassara a fase das intenções.
A discussão incidiu também sobre a NVIDIA. A informação municipal apresentava a multinacional como principal investidora, mas um vereador assinalou que o requerimento da empresa referia apenas a utilização dos seus equipamentos. Questionado sobre as necessidades de água, o presidente do município disse que, segundo os promotores, a tecnologia prevista não teria os consumos elevados associados a soluções anteriores.
Empresa aponta arranque para o final de 2027
Uma notícia publicada pelo jornal económico ECO, a 19 de Outubro, sublinha que a Aura Technologies prevê instalar em Coruche um centro de dados de 6,4 megawatts, dedicado ao treino e utilização de sistemas de inteligência artificial, com entrada em funcionamento prevista para o final de 2027. O terreno onde se desenvolverá este investimento conta com 7.209 metros quadrados e foi vendido por 135.246 euros.


