O céu não é o limite para os jovens engenheiros que lançam foguetões em Constância
Sétima edição do European Rocketry Challenge (EuRoC) transformou Constância num palco internacional da engenharia aeroespacial. A competição reuniu 21 equipas universitárias de vários países e mostrou que o caminho para o espaço também se constrói com erros, sacrifícios e persistência.
Há foguetões que não chegam a levantar voo, mas nem por isso representam um fracasso. No Campo Militar de Santa Margarida, em Constância, o sucesso também se mede pelas noites sem dormir, pela capacidade de começar de novo quando tudo corre mal. Foi esse o espírito da sétima edição do European Rocketry Challenge (EuRoC). Organizado pela Agência Espacial Portuguesa, com o apoio da Agência Espacial Europeia, o encontro decorreu entre 16 e 21 de Outubro. Das 64 candidaturas de 26 países, foram seleccionadas 21 equipas. Em quatro dias, 12 foguetões partiram das rampas de lançamento. Nem todos conseguiram voar.
Na abertura, no Pavilhão Municipal de Constância, o astrofísico norte-americano Neil deGrasse Tyson convidou os estudantes a desafiarem o conhecimento estabelecido. Evocou as fotografias da Terra tiradas nas missões Apollo para relativizar os conflitos humanos. Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, apontou um resultado menos visível da competição: antigos participantes que hoje trabalham na indústria aeroespacial ou fundaram empresas. Eduardo Mendes Ferrão e Alexander Kinnaird, da ESA Academy, defenderam o apoio aos jovens. O presidente da câmara, Sérgio Oliveira, destacou a visibilidade internacional e o movimento gerado na hotelaria e restauração locais.
No sábado, 17 de Outubro, a expectativa começou cedo em Santa Margarida. Entre tendas militares e uma bancada a distância segura, equipas transportavam os foguetões aos ombros até à zona de lançamento. Cem espectadores puderam adquirir bilhete para assistir. A primeira janela terminou sem descolagem: problemas nas válvulas impediram o lançamento. A espera, percebeu-se, também faz parte do espectáculo. Pelo caminho de terra batida, O MIRANTE encontrou Margaretha, namorada de um elemento da equipa alemã HyEnD, e um amigo a estagiar em engenharia em Lisboa. Contaram que os estudantes constroem quase sozinhos foguetões capazes de atingir nove quilómetros. Para enfrentar a jornada, a comitiva alemã preparara 127 sandes, embrulhadas e guardadas na bagageira. A exploração espacial também precisa de almoço.
Portugueses mostram que desistir não é opção
Para a portuguesa North Space, a vitória foi resistir. Gonçalo Coelho, líder da equipa, de 23 anos, descreve a participação como tendo sido “indescritível”. Depois de uma explosão do motor em 2025, o grupo regressou com o SPATI-III, uma versão melhorada do foguetão. Mas a validação do novo motor não ficou concluída a tempo e o lançamento teve de ser abandonado. Era a terceira presença da equipa, depois de 2023 e 2025. Entre aulas e falta de recursos, o projecto avança com o apoio de laboratórios do ISEP e da empresa Gislótica. Mesmo sem lançar, aprenderam com os concorrentes. Na RED, do Instituto Superior Técnico, a ambição tem o peso de meses de trabalho. Tiago Palma, de 20 anos, fala de sacrifícios, frustrações e lágrimas, mas também do orgulho de construir em conjunto algo que parecia impossível. A equipa, que já conquistou distinções na categoria de propulsão sólida para três quilómetros, reúne estudantes de engenharia aeroespacial, química e outras áreas. Cada falha obriga a recomeçar.
Áustria conquista prémio principal
No final, a austríaca Aerospace Team Graz conquistou o EuRoC Award, prémio principal que distingue o desempenho global, da concepção e documentação técnica ao trabalho colectivo e ao voo. Vencedora também em 2023 e 2025, arrecadou ainda o prémio de melhor voo de propulsão líquida na categoria dos nove quilómetros. A grega White Noise estreou-se a vencer: recebeu os prémios Rookie of the Year e Payload Award, para a melhor carga útil.


