Movimento de extrema-direita usou campo de escuteiros de Torres Novas através de associação cultural
Movimento Reconquista, liderado por jovem que cresceu em Fátima, realizou um encontro num espaço municipal cedido aos escuteiros de Torres Novas. Município desconhecia a iniciativa e diz que só foi informado depois de ter sido exigida a saída dos participantes. O Corpo Nacional de Escutas garante que não tinha conhecimento da ligação da associação que fez a reserva ao movimento de extrema-direita.
O movimento de extrema-direita Reconquista, liderado por Afonso Gonçalves, utilizou o Campo Escola da Serra de Aire, no concelho de Torres Novas, para um encontro de três dias com actividades semelhantes a treinos militares, aulas de boxe, história e formação ideológica. O acesso às instalações cedidas pelo município ao Agrupamento de Escuteiros 65 de Torres Novas foi conseguido através de uma reserva feita em nome da Vanguarda Lusitana, uma associação cultural que não apresenta ligações aparentes ao movimento Reconquista.
Contactado por O MIRANTE, o chefe do Agrupamento de Escuteiros 65, Alexandre Carvalho, remeteu os esclarecimentos para Sofia Fernandes, do gabinete de comunicação do Corpo Nacional de Escutas (CNE), que confirmou ao nosso jornal que a reserva foi feita por email, em nome da Vanguarda Lusitana, uma associação cultural cuja existência legal foi confirmada antes de o pedido ser aceite. Segundo a responsável, o representante da entidade chegou mesmo a visitar previamente as instalações sem levantar suspeitas.
Sofia Fernandes revela ao nosso jornal que, ao segundo dia, quando os responsáveis do Agrupamento 65 perceberam que as instalações estavam a ser utilizadas pelo movimento Reconquista, contactaram telefonicamente o representante da associação cultural Vanguarda Lusitana e comunicaram-lhe que o grupo teria de abandonar o espaço. O encontro estava previsto durar três dias, mas os escuteiros decidiram antecipar a saída dos participantes assim que tiveram conhecimento da verdadeira identidade do movimento.
Como já eram cerca das 20h00, explicou a responsável pela comunicação, e os participantes dispunham de apenas uma viatura, os escuteiros permitiram que o grupo permanecesse no campo durante essa noite, com a condição de abandonarem as instalações logo na manhã seguinte. A exigência foi cumprida, tendo o grupo deixado o local sem necessidade de intervenção das autoridades, segundo confirmou a O MIRANTE Sofia Fernandes. O nosso jornal sabe que o contacto com o agrupamento não foi feito através de um email oficial da associação cultural.
O MIRANTE contactou o movimento Reconquista para obter esclarecimentos sobre as circunstâncias em que foi efectuada a reserva, solicitando também que o pedido fosse encaminhado para a associação cultural Vanguarda Lusitana, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição.
Município desconhecia presença do movimento
Elvira Sequeira, vice-presidente da Câmara de Torres Novas e responsável pelo pelouro do Associativismo, confirmou a O MIRANTE que o espaço pertence ao município e está cedido ao Agrupamento 65. A autarca explicou que a autarquia tem conhecimento de que o campo é utilizado por outras entidades, nomeadamente para actividades ligadas às escolas e ao escutismo, mas desconhecia por completo que iria acolher uma iniciativa do movimento Reconquista. Diz que só tomou conhecimento da situação depois de ter sido exigida a saída dos participantes, quando foi informada por um elemento do agrupamento. Elvira Sequeira mostrou-se ainda surpreendida quando O MIRANTE lhe deu conhecimento de que tinha existido um pagamento pela utilização das instalações.
Sofia Fernandes confirmou que a associação cultural pagou pela estadia, embora tenha sublinhado que os valores cobrados são reduzidos e destinados exclusivamente à manutenção, limpeza e funcionamento do campo. Sem precisar o montante recebido neste caso, apontou valores de referência entre 1,50 e 2 euros por pessoa e por noite.
De acordo com regulamentos publicados no site do próprio Agrupamento 65, está prevista a utilização do campo por outras associações e estabelecem-se tarifas para a permanência e utilização de instalações. Um dos documentos indica o pagamento de 1,50 euros por pessoa e por noite, dez euros por dia pela utilização de salas e um valor a combinar para a cozinha.
Escuteiros descobriram identidade do grupo pelas redes sociais
Segundo Sofia Fernandes, alguns elementos dos escuteiros de Torres Novas que se encontravam no local observaram participantes com camuflados semelhantes aos militares e estranharam a situação. Perante o que viram e as imagens entretanto divulgadas nas redes sociais, os responsáveis do Agrupamento 65 contactaram a pessoa que tinha efectuado a reserva em nome da associação cultural Vanguarda Lusitana, exigindo explicações sobre a verdadeira identidade do grupo e as actividades que estavam a decorrer no campo.
De acordo com a SIC, que divulgou uma reportagem sobre o movimento Reconquista onde o caso foi exposto, durante a academia de Verão foram realizadas actividades semelhantes a treinos militares, com participantes de camuflado e boina, aulas de boxe e preparação física. O CNE, esclareceu a responsável da comunicação, não apresentou qualquer participação às autoridades, por considerar que a situação ficou resolvida.
Reconquista garante que escuteiros sabiam quem estava por detrás do encontro e fala em ameaças de intervenção policial
O movimento Reconquista respondeu a O MIRANTE já depois do fecho da edição em papel, contrariando a versão apresentada pelo Corpo Nacional de Escutas sobre as circunstâncias em que foi reservado o Campo Escola da Serra de Aire, em Torres Novas. Numa resposta com esclarecimentos atribuídos ao presidente, Afonso Gonçalves, o Reconquista garante que os responsáveis pelo espaço foram informados, desde o primeiro contacto, de que a iniciativa era promovida pelo movimento, assim como dos seus objectivos.
O Reconquista esclarece que não existe qualquer ligação formal ou institucional à Vanguarda Lusitana, mas admite que a associação é gerida por apoiantes do movimento que disponibilizaram a sua estrutura jurídica para facilitar a organização de eventos. Justifica a reserva em nome da associação com o facto de o Reconquista não possuir personalidade jurídica própria.
Sobre a saída antecipada das instalações, o movimento afirma ter reagido com “estupefacção e choque” à exigência dos escuteiros, que considera autoritária e desproporcionada. Alega que os responsáveis pelo campo ameaçaram recorrer à força policial caso os participantes não abandonassem o local, uma versão que contrasta com os esclarecimentos prestados pelo CNE a O MIRANTE. O grupo sublinha que a maioria dos participantes tinha entre 18 e 30 anos e que muitos residiam longe de Torres Novas, não tendo condições para regressar imediatamente a casa.O movimento rejeita ainda qualquer carácter ameaçador ou violento das actividades realizadas.
Fundador do movimento foi criado em Fátima, elogia Salazar e diz que mulheres não deviam votar
Afonso Gonçalves, de 26 anos, nasceu em Leiria, mas cresceu em Fátima, no concelho de Ourém, onde frequentou um colégio católico. É fundador e presidente do movimento Reconquista, criado em 2023, que reúne sobretudo jovens nacionalistas e pretende transformar-se num partido político. O dirigente defende posições radicais contra a imigração, elogia a ditadura de António de Oliveira Salazar e questiona direitos fundamentais da democracia. Num podcast, afirmou que apenas homens portugueses com propriedades deveriam ter direito de voto, excluindo as mulheres, que considera, de forma generalizada, menos inteligentes e racionais. De acordo com a SIC há registos de transferências bancárias por elementos de forças policiais para o Reconquista. O Reconquista promove manifestações e encontros à porta fechada e está a ser investigado pelo Ministério Público.


