Sociedade | 08-11-2026 12:00

Duas maiores associações de apoio a idosos de Alverca em crise directiva

Duas maiores associações de apoio a idosos de Alverca em crise directiva
Dirigentes da Casa de São Pedro de Alverca apelam à mobilização dos sócios - foto O MIRANTE

Há um sinal de alerta preocupante no associativismo em Alverca: as duas maiores associações de apoio a idosos da cidade, a Misericórdia e a Casa de São Pedro, vão para eleições em Dezembro e há meses que não aparecem listas concorrentes e os actuais dirigentes lançam apelos à mobilização.

A Casa de São Pedro (CSP) e a Associação de Assistência e Beneficência Misericórdia de Alverca (AABMA), as duas principais instituições da cidade e do concelho no apoio a idosos, gestoras de lares com centenas de utentes, estão a passar por uma crise directiva como há muito não se via. Estão convocadas eleições em ambas para Dezembro mas até hoje não apareceram listas concorrentes para render os actuais dirigentes.
Em relação à Casa de São Pedro (CSP), os actuais dirigentes explicam a O MIRANTE que já recuperaram 453 mil euros de dívidas, realizaram investimentos pedidos pela Segurança Social e estão num rumo de recuperação, numa casa com 200 utentes e 124 trabalhadores. “Neste momento quem assumir os destinos da CSP encontra uma casa com as contas equilibradas e em dia”, garante Luís Coelho, presidente da direcção.
Com eleições marcadas para 3 de Dezembro, os actuais dirigentes confessam-se cansados e com vontade de deixar o cargo, mas para isso precisam de alguém que os substitua. “Não queremos e não vamos deixar a associação sem liderança, vamos segurar o barco até que alguém assuma a vontade de a liderar. Mas precisamos de deixar este apelo”, explica Luís Coelho. Os cargos são exercidos em regime de voluntariado, sem remuneração, e exigem uma disponibilidade e responsabilidade que nem todos estão dispostos ou têm condições para assegurar. “A catástrofe que está a atravessar o nosso país é a disponibilidade das pessoas para assumirem os cargos nas IPSS”, lamenta o presidente.
A Casa de São Pedro, que já foi Personalidade do Ano de O MIRANTE em 2020, gere hoje um orçamento anual superior a dois milhões de euros. A dimensão da estrutura exige acompanhamento permanente, capacidade de gestão e conhecimentos em áreas como as finanças, os recursos humanos e o funcionamento das respostas sociais. “A Casa de São Pedro não precisa de uma pessoa qualquer. Precisa de pessoas responsáveis, que saibam o que estão a fazer ou, quando não sabem, que ouçam quem sabe”, defende Luís Coelho.

Ultrapassados problemas com salários
Os actuais dirigentes dizem a O MIRANTE que a dívida da instituição ronda actualmente os 215 mil euros, tendo registado um excedente orçamental no exercício anterior. Para os dirigentes, o problema principal não é, neste momento, a inexistência de equilíbrio económico, mas a falta de liquidez para responder a alguns compromissos. A inflação, o aumento dos combustíveis, os custos de manutenção e as actualizações salariais têm pressionado os orçamentos das IPSS um pouco por todo o país.
Ao mesmo tempo, as instituições não conseguem aumentar as mensalidades dos utentes ao mesmo ritmo, devido às limitações financeiras das famílias e ao enquadramento das comparticipações da Segurança Social. Nos últimos anos também os aumentos do salário mínimo nacional e as actualizações das remunerações dos trabalhadores tiveram impacto nas despesas com pessoal. Os salários na instituição estão em dia e os retroactivos são processados de acordo com as tabelas e os instrumentos de regulamentação colectiva, incluindo os períodos de retroactividade previstos.

Misericórdia de Alverca alerta para perigo de extinção

Também na Misericórdia de Alverca os actuais corpos gerentes manifestaram preocupação numa informação enviada aos sócios, descrevendo a importância da constituição de listas concorrentes para a eleição de novos órgãos sociais e apelando, “uma vez mais, para a participação neste importantíssimo momento da instituição, para a constituição de interessados para assegurar a viabilidade e futuro da AABMA”, escrevem.
Na informação, assinada pelos presidentes da assembleia geral (Nuno Libório), conselho fiscal (Rosa Neto) e direcção (José Jerónimo), é descrito que, de Março até hoje, “não se formalizou nenhuma lista concorrente o que muito nos preocupa”. Os estatutos da associação dizem que o acto eleitoral terá de acontecer no final do mandato, até Dezembro deste ano, o que dá maior importância ao actual momento vivido na instituição. “Convocamos todos, sem excepção, à tomada de consciência da situação em concreto e à sua mobilização, sob pena da instituição ficar numa gestão corrente e consequentemente levar à extinção da instituição ou à fusão com outra instituição, o que nos deve preocupar”, avisam.
A O MIRANTE o presidente da direcção, José Jerónimo, diz ter esperança que o alerta público leve à mobilização da comunidade..

À Margem

A fragilidade do associativismo

O trabalho das IPSS é importantíssimo na nossa sociedade, sendo muitas vezes o amparo de quem precisa e está socialmente mais vulnerável. O que se está a passar em duas instituições de Alverca deve ser um sinal de alerta para o futuro do associativismo local. O que acontece quando as casas que durante décadas ajudaram a comunidade percebem que a comunidade não as quer ajudar? Não estamos apenas perante um problema de gestão interna. Estamos perante uma questão de cidadania.
Durante décadas, o movimento associativo foi uma das expressões mais importantes da vida comunitária. Exigimos instituições fortes, contas equilibradas, cuidados de qualidade e respostas sociais próximas, mas nem sempre estamos disponíveis para assumir uma parte do trabalho que permite manter tudo isso. O voluntariado não pode servir de desculpa para deixar as IPSS entregues a si próprias perante dificuldades crescentes. É necessário valorizar o trabalho dos dirigentes, apoiar a modernização da gestão, promover a participação dos associados e criar condições para que as instituições possam cumprir a sua missão sem viver permanentemente no limite da disponibilidade financeira e humana. Uma comunidade não se mede apenas pela forma como trata os seus idosos, os seus doentes ou os cidadãos mais vulneráveis. Mede-se também pela capacidade de encontrar pessoas dispostas a organizar e a sustentar as instituições que cuidam deles.
Filipe Matias

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