João José Samouco da Fonseca - Um homem de cristal

João José Samouco da Fonseca - Um homem de cristal
TEXTOS QUE FIZERAM HISTÓRIA

Autor e encenador de teatro de revista natural da Chamusca

O Teatro é a sua grande paixão. Foi o pai que lhe meteu o vício na alma. Há mais de duas dezenas de anos que não encenava um espectáculo a sério. Voltou agora com a reposição de duas peças de teatro de Revista de que é autor, que voltaram a mobilizar o meio cultural da sua Chamusca natal. Diz-se um homem de cristal e mostra-se surpreendido quando lhe dizemos que as pessoas o consideram um homem difícil e de mau feitio. Uma entrevista aberta, feita em Julho de 1991.

Como nasceu o seu gosto pelo Teatro e pela encenação?

Comecei a brincar aos teatros, tinha para aí oito anos. Herdei isso do meu pai. Depois fui para Santarém aos treze anos e aí é que encontrei o homem que me influenciou muito, que foi o Carlos Mendes, um indivíduo realmente figura destacada do teatro. Era ele que ensaiava todos os anos o grupo de finalistas do 7.° ano. Também por influência dele comecei a ir a umas aulas do professor Carlos Santos, isto numa altura em que o interesse por estas coisas era muito maior. Foi ele ainda o primeiro a oferecer-me um livro ou dois sobre técnica teatral, que eu li dezenas de vezes.

E a sua actividade na Chamusca?

Aqui na Chamusca, por altura das férias escolares, com uma rapaziada amiga, fizemos pela primeira vez uma farsa que eu tinha visto em Santarém. Nessa altura eu andava morto por fazer teatro na Chamusca e sempre que eu sentia que qualquer coisa mexia, ía logo lá meter-me. Um dia, no Benfica, havia uma reunião para prepararem os ensaios de uma peça, e o Armindo Castelão veio perguntar-me se eu também queria entrar. Disse logo que sim. O facto é que se esqueceu de mim, os ensaios começaram e eu não fui chamado.

Mas não desistiu.

Era muito meu amigo, e é, o Joaquim Cabeça, que um dia, ouvindo o meu desabafo, comentou: "Ainda bem. Tu tens jeito para escrever, portanto podemos ser nós a fazer qualquer coisa.". E assim foi. Tinham passado há pouco tempo pela Chamusca os "Companheiros da Alegria" e eu escrevi uma revistazinha a que chamei "A Alegria dos Companheiros", em que entrou já o Manuel da Silva Santos, o Constantino Agnelo Coelho, um dos melhores actores que nasceram na Chamusca, e mais uns quantos.

Refere-se a uma "revistazinha" e a sua primeira "Revista", digamos assim?

Nesse espectáculo apareceu o senhor Carmo e o Manuel Tecedeiro, que me convidaram para escrever uma coisa de maior fôlego. Foi então que eu escrevi a minha primeira revista, «Retalhos da Nossa Terra». Tinha então 19 anos. Nessa altura entraram já os bons indivíduos do grupo que agarraram aquilo com força, de tal modo que o espectáculo acabou por ter boa aceitação. Isto também porque as pessoas estavam sedentas do teatro e já não viam uma revista desde que o meu pai tinha morrido.

E teve sequência?

Mais tarde, para integrar numas variedades que fizeram em memória de um bombeiro falecido, fiz um poema, a que chamei "Pretexto para Três Cantigas". Foi a primeira coisa que eu encenei, que acho que teve cabeça, tronco e membros.

Continuou a aprender de que forma?

Fui fazendo a minha formação teatral lendo muito o que me aparecia e vendo os espectáculos em Lisboa, até onde o dinheiro me chegava. Depois entusiasmei-me e um dia fizemos "Na Cepa Torta", a partir de um pedido do A. Leitão e do F. Monteiro, numa altura em que o Montepio estava em grandes dificuldades económicas. Entusiasmei-me de tal modo que perdi dez quilos em pouco tempo, a encenar uma revista que achei sempre talvez demasiado bairrista. Sempre considerei o "Salsifré uma revista muito mais conseguida sobre todos os pontos de vista. Depois de fazermos quatro representações na Chamusca, e mais por entusiasmo do A. Leitão e do F. Brás, acabámos por a tomar uma revista regional e corremos quase todo o Ribatejo.

Nesta reposição das revistas, qual foi a diferença que sentiu na relação com os actores amadores, em comparação com os das primeiras representações?

Tenho dificuldade em responder a isso. Mas talvez possa sintetizar correndo o risco de não ser muito rigoroso. Há vinte e nove anos, os actores amadores tinham mais respeito por mim do que estes, que afinal são os mesmos. E eu hoje tenho os cabelos brancos.

Na nossa opinião, o quadro de Gil Vicente é, talvez, dos melhores da revista, e aquele que nos mostra um autor verdadeiramente inspirado. Gostava que recordasse como é que o escreveu e como é que nasceu a ideia do poema?

O Gil Vivente apareceu-me porque eu queria que o "Salsifré" fosse melhor do que "Na Cepa Torta", que tivesse outro sentido, e imaginei um pastor vicentino na Chamusca. Como é que eu o escrevi? Olhe, tinha acabado de tomar banho, estava ainda dentro da banheira e pedi à Laura que me trouxesse, rápido, um papel porque eu queria escrever uma coisa. Depois enfiei o roupão e fui para a sala escrevê-lo. Nessa altura eu só pensava nisso.

Há outros textos com história? Estou-me a lembrar do Ribatejo, O Baile, etc.

O Baile foi dos textos inspirados que também saiu quase de jacto. Esse poema tem a ver com a minha vivência nos bailes das colectividades e ainda com os bailes que dantes se faziam nos celeiros, onde eu também metia sempre o nariz. Este é dos textos que eu mais gosto... mais até do que o do Gil Vicente.

"Até bruto me chamaram por querer manter a disciplina do grupo"

Já ouvi alguém dizer que o senhor aproveitou alguns inéditos do seu pai, para adaptar às revistas que já escreveu. É verdade?

É absolutamente mentira. Aliás, isso é uma ofensa à minha moral. O meu pai nem sequer deixou inéditos. Sou muito exigente nessas coisas.

Há quem o considere uma pessoa de mau feitio. A generalidade das pessoas que falam de si dizem sempre que é um homem difícil e com mau feito.

As pessoas que dizem isso penso que o dizem um bocado no ar. Reconheço que não tenho assim um feitio muito bom, julgo até que as pessoas que têm um bom feitio não prestam. Penso que não sou indivíduo vaidoso nem orgulhoso, mas tenho a minha mancha de ser. Porque é que eu tenho mau feitio? Porque gosto de coisas transparentes, porque gosto de lidar com pessoas que sejam como cristal, que é aquilo que eu procuro ser, porque gosto que me digam as coisas pela frente...

De onde acha que surgiu essa imagem de si?

Tenho a impressão que foi no teatro, por causa da necessidade de manter disciplina de grupo. Nesta reposição houve uma senhora que até bruto me chamou, pelo menos. E ouve outras atitudes parecidas que não vale a pena estar a citar. Ora naquelas coisas as pessoas já sabem como é que é, já sabem o trabalho que aquilo dá, se não querem lá ir não apareçam. Mas a maioria cumpre, diga-se.

É extremamente exigente, apesar de estar a trabalhar com amadores.

Deixe-me dizer-lhe que a disciplina não foi nada daquilo que era dantes. Nem pensar. Onde é que eu que dantes estava três quartos de hora à espera para começar o ensaio? Isso é que era bom, isso que era bom. Havia de ser bonito. E mandarem-me recados. Houve indivíduos responsáveis da organização que mandaram recados porque não podiam ir aos ensaios, por isto ou por aquilo. Então isso é assim, mandar recados quando as pessoas passam aqui à porta todos os dias?

Nos seus textos de crítica social nota-se que não tem contemplações com aqueles que, vindos de fora, chegam à Chamusca para vencer. Não acha que a culpa é mais dos da Chamusca do que dos chegam de fora?

Nunca ninguém me perguntou isso, e confesso que nunca analisei o caso. Mas sei a resposta. Quando eu escrevi isso, o que me chocava e ainda hoje me arrepia, é , depois, o comportamento deles em relação aos chamusquenses. Conhece aquela história do sacristão inglês, que se não fosse o facto de ser analfabeto nunca teria sido um dos homens mais ricos do seu país? É por isso que eu não critico os chamusquenses. Eu, e maior parte dos chamusquenses, desde pequeno que comecei a ouvir dizer que não havia nada como um emprego certo. Era isso também que a minha mãe me dizia milhares de vezes. Devido a esse ambiente, muitos chamusquenses, não eram estimulados para a vida.

O que o chocava nos que vinham enriqueciam?

Era a sua sobranceria. Eu podia dizer o nome das pessoas que tinha em mente quando escrevi, no Gil Vicente. "Esses que vêm de fora, enriquecer à Chamusca, a rirem do nosso fadário, a cantarem de canário. ..".

Não se corre o risco de bairrismo se transformar noutra coisa?

Eu não vejo as coisas assim. Pode haver um caso ou outro, mas esses não venham para cá com essa. Uma vez surpreendi três indivíduos que não eram de cá, que se esqueceram que eu estava no meio deles, a dizerem: "...isto é para a gente fazer ver aos gajos cá da Chamusca, etc., etc." Esta nunca me esquece. Não me venham cá dizer coisas. Vão dar uma volta.

Quem vem de fora não pode gostar da Chamusca como alguém que aqui nasceu?

Confesso que nestas coisas de bairrismo eu até nem sou muito extremista. Compreendo perfeitamente que esta é uma terra que está aberta, e o que se passa aqui passa-se em todo o lado. Mas não me venham é para cá dizer, como eu já ouvi dizer a alguém, que gostam tanto da Chamusca como da sua terra natal. É mentira. Julgam que gostam ou fingem que gostam. Eu estive trinta e um anos em Lisboa, fiz a minha vida toda em Lisboa, passei mais anos da minha vida em Lisboa e quero que Lisboa vá dar uma volta.

Porque se gosta assim da Chamusca?

Porque foi aqui que, pela primeira vez abrimos os olhos, que fizemos os nossos primeiros amigos, que vimos pela primeira vez o sol e a lua; foi aqui que nasceram os nossos avós, com um passado melhor ou pior, de que possamos mais ou menos ter orgulho,

O teatro de Revista na Chamusca, tem futuro?

Penso que sim. Se aparecer gente que se ponha a escrever e queira realmente fazer Revista.

Porque não procura encenar um tipo de teatro diferente, mais sério?

Não me interessa. Confesso que gostava de fazer algumas peças. Algumas até daquelas que mais recordo do meu tempo de amador. Eu já não represento há muito anos e confesso que não me importaria de o fazer hoje. Tenho saudades, mas só o faria com alguém a orientar-me. E quem é que me orienta? Resumindo, gostava de fazer «A Ceia dos Cardeais», que embora não seja uma peça muito boa, é, pelo menos, uma coisa que mexe comigo e que eu acho que daria um bom espectáculo para o nosso público.

O senhor que é poeta... ?

Não me chame poeta, eu sou um cantigueiro, ou coisa assim parecida.

Acha que a Chamusca é mesmo um terra de poetas?

(Silêncio) Pergunta difícil, essa.

Tem sido fácil para algumas pessoas, a quem a tenho feito outras vezes.

O que é que respondem?.

Gostava de ouvir antes a sua resposta sincera.

(Silêncio) A Chamusca tem tido poetas. Mas têm aparecido ultimamente umas pessoas com pretensões a poetas, isto sem falar nos senis, que quanto a esses. Deus Nosso Senhor nos ilumine, para não cairmos nessas patetices. Quanto aos outros, todos fazem uns versinhos, todos se julgam poetas, todos se intitulam poetas, não sei se é atraso mental ou coisa parecida. Mas isso também pode ser fruto dessa ideia que se criou, de que a Chamusca é uma terra de poetas. Hoje, a Chamusca não é uma terra de poetas, de maneira nenhuma.

Em termos editoriais, o que representa a "Chamusca Ilustrada" no seu percurso de homem de cultura?

Foi uma necessidade que senti. Tinha uns textos que gostava de publicar, uns meus, outros do Álvaro Neto.. mas o projecto ficou muito aquém do que eu queria. Gostava de ter feito uma Chamusca muito mais ilustrada, com uma colaboração mais diversificada.

Quais são as maiores recordações que guarda do seu percurso como agente cultural?

Sem dúvida que foram os momentos das revistas. E a "Chamusca Ilustrada", que também gostei de fazer.

O que o entristece?

Entristece-me pensar que eu, nesta altura, já podia ter feito, pelo menos, mais umas dez revistas, se tivesse tido grupo de teatro para isso.

A culpa é só dos outros?

Eu acho que sim. Eu nunca fiz um poema que me satisfizesse. Ao fim de uns dias olhava para o que tinha feito e aquilo não era nada. Para ser poeta, ou era muito bom ou então... Ao fim de uns dias aquilo já não era nada. Tenho a certeza de que se escrevesse hoje uma revista eu fazia uma obra capaz e deixava que a uma certa distância "Salsifré" ou "Na Cepa Torta". É uma convicção que eu tenho.

Está a falar assim porque não a vai fazer. Imagine que o põem à prova?

Não sei se a vou escrever!! Eu tenho-a na cabeça. E tenho aí três revistas escritas. A última, aquela que eu tive quase preparada, chamava-se «Alta Roda» e tenho-a ali gravada com parte da música que o Arrenega fez. Mas para fazer uma obra dessas eu não posso ir representar sozinho, tocar sozinho. Tudo depende do grupo. E onde é que está o grupo? Ele falha!!! O grupo, para fazer uma revista, por muito que reduza aquilo, tem que ter entre 50 a 60 pessoas. É muita gente e não é fácil arranjar tanta gente. E depois, se não me vierem pedir para fazer, eu também não tenho autoridade para dizer: exigir que façam isto ou aquilo.

Quais são as recordações mais marcantes pela negativa?

A primeira foi o grande desgosto que eu tive de o "Salsifré" ter ficado pelo oitavo espectáculo. Era acreditava que podia estar em cena dois ou três anos, sendo apresentada de dois em dois meses, com as devidas alterações e actualização dos quadros.

"Gostava de ter uma voz de grande tenor"

Se por um lado o senhor não parece um homem ambicioso, por outro parece um homem exigente demais com as coisas, de tal modo que as inviabiliza...

Isso, isso. É isso!!

Mas é, ou não, um homem ambicioso?

Penso que não. Se eu fosse ambicioso tinha outra vida. Eu era considerado um homem de esquerda antes do 25 de Abril e prejudiquei a minha vida no Banco, de onde teria saído, agora ou mais tarde, como director adjunto, se fizesse como alguns dos meus colegas, que não tinham nada a ver com a esquerda nem sabiam o que era o socialismo com letra pequena, quanto mais com letra grande, que nunca tinham lido coisa nenhuma, e o que queriam era o ordenado ao fim do mês e fazer-se com quem estivesse no poleiro.

Elas adaptaram-se.

A seguir ao 25 de Abril começaram a dizer: "eu também já era, eu também já era" e alguns só não me ultrapassaram porque eu tinha outra competência profissional. Mas tive a satisfação de ouvir dizer a uma figura grada do banco, que só conhecia duas pessoas no Banco de Portugal que eram homens de esquerda antes do 25 de Abril e que nunca o esconderam, nem se aproveitaram do 25 de Abril. E éramos à volta de três mil empregados.

Quer dizer que para si o 25 de Abril hoje é uma data como outra qualquer?

Para mim foi uma data negativa. E tanto que eu desejei um 25 de Abril. Tanto que eu desejei a mudança de regime.

Como resumiria o seu percurso de vida? Teve uma vida fácil?

Eu fui um indivíduo que teve que ir para Lisboa ganhar a vida. Estive dois anos desempregado, depois de acabar o 7.° ano, com a minha mãe para sustentar. Fiz uns biscates durante esse tempo, mas tudo foi pouco para as dificuldades que eu vivi. Se eu soubesse o que sei hoje tinha arranjado emprego quase imediato.

Os horizontes eram limitados?

Eu vivia naquele meio acanhado, do meu avô padeiro, da minha mãe viúva com trinta e quatro anos, dos meus tios que tinham embirrado que eu fosse estudar, dificultava tudo. E naquela altura mais difícil, eles não se cansavam de repetir: "a gente bem dizia. Porque é que ele foi estudar, padeiro é que era bom", etc. E o que é facto é que ninguém fez nada para eu arranjar emprego.

Se não fosse bancário teria sido médico ou poeta?

Se calhar teria sido médico e poeta.

O que é para si o cúmulo da miséria?

A fome. Deparei há tempos com um homem a alimentar-se de restos de comida de um contentor de lixo, em plena Avenida da Liberdade, em Lisboa e isso choucou-me profundamente

Qual o seu ideal de felicidade?

Talvez consumir a existência, com amor, numa profissão/ /missão que contribua de forma efectiva para aliviar o sofrimento físico/moral dos meus semelhantes.

Qual a figura histórica que mais despreza?

Hitler.

E a que mais admira?

Todas as que lutaram pela libertação dos escravos e pela emancipação dos servos da gleba, assim como as que hoje pugnam pela igualdade de oportunidade (quantas vezes uma figura de retórica) e por uma vida digna para todos os cidadãos do mundo.

Qual é o dom natural que gostaria de ter?

Uma voz de grande tenor.

Qual o seu músico preferido?

Verdi.

E o seu pintor?

Rafael. E dos portugueses, o Columbano.

Como é que gostaria de morrer?

Como um passarinho, com a consciência em paz, rodeado dos meus entes mais queridos.

E como gostava de ser recordado?

Eu pretendo ser um homem transparente, um homem de cristal, e só gosto de lidar com gente transparente.

* Entrevista feita por Joaquim António Emídio, publicada a 15 de Julho de 1991, a propósito da reposição, na Chamusca, dos espectáculo de teatro de revista "Cepa Torta" e "Salsifré". (Conteúdo editado)

João Joé Samouco da Fonseca, faleceu no dia 10 de Maio, em Lisboa, na sua casa de família, aos 87 anos, sendo sepultado em jazigo de família, no dia seguinte, no cemitério da Chamusca.

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