Quando os rapazes passam a homens

Quando os rapazes passam a homens
TEXTOS QUE FIZERAM HISTÓRIA

Juramento de bandeira na Escola Prática de Engenharia em Tancos.

O ir à tropa já não tem o significado que tinha há trinta ou quarenta anos mas continua a ser um momento importante na vida de um jovem e da sua família. Basta assistir a uma cerimónia de juramento de bandeira, para perceber a importância que a instituição militar continua a ter. Para muitas pessoas é ali que os rapazes se fazem homens.

Cinco da manhã de quarta-feira, 4 de Agosto de 1999. Era noite cerrada e já o casal Queirós estava à porta da Escola Prática de Engenharia, no polígono de Tancos, concelho de Vila Nova da Barquinha, para assistir ao juramento de bandeira do filho.

Em cima do corpo o cansaço de trezentos quilómetros de comboio. Uma viagem entre Peso da Régua e o quartel. "Saímos de casa às oito da noite e quando chegamos aqui estava tão escuro que até tive medo. Felizmente passado pouco tempo acenderam as luzes e ficamos mais descansados", conta Margarida Queirós.

Algum tempo depois, já a encontrámos instalada no lugar reservado ao público, no meio de centenas de outros familiares e amigos dos jovens recrutas do 3º turno/99 de instrução que, por volta das dez e meia, começaram a formar na parada.

Com os olhos postos na formatura. Margarida e o marido procuram o filho e já quase não atendem o jornalista. Em jeito de remate acrescentam. "Se isto não fosse bonito não vínhamos de tão longe".

Grande parte das pessoas presentes na Escola Prática de Engenharia são do norte. Nota-se pelo sotaque. Fernando Teixeira estava na primeira fila. Por meio de alguns empurrões de quem queria furar para ver melhor lá nos disse que veio de Paços de Ferreira porque não quis deixar de estar presente para felicitar o filho.

"Não é obrigatório estar aqui, mas como hoje é um dia de muita alegria para todos eles não podíamos fazer outra coisa senão vir assistir às cerimónias". Com os olhos postos no filho, a sorrir de contentamento, ainda acrescentou.

"A tropa só lhes faz é bem. Deviam passar todos por aqui para terem mais disciplina e formação para a vida". Depois da continência em parada e da incorporação do estandarte nacional na formatura, segue-se a atribuição de condecorações e da entrega de prémios aos soldados melhor classificados na recruta.

As conversas no público não param. "Olhe, ali está ele. É o meu filho, sabia?". As máquinas fotográficas e de filmar também não têm descanso. Todos querem ficar com uma recordação do momento.

Ir à tropa e jurar bandeira continua a ser um momento importante na vida de muitos jovens. Firme no seu posto, ao lado da tribuna de honra, Joaquim Cunha, que veio de Matosinhos para ver o neto, não resistiu a contar como era a tropa no seu tempo." Há quarenta anos o Exército era pior, muito difícil e bastante rigoroso. Isto agora está muito mais moderno, mas mesmo assim a emoção destes dias é sempre grande".

As conversas param no momento em que a banda toca o hino nacional. Na tribuna, para além dos convidados civis e militares, está o comandante da Escola Prática, Coronel de Engenharia, António Duarte Mendes Correia acompanhado pelo Comandante da Região Militar do Sul, Tenente-General José Manuel Martins Cavaleiro.

O Major Francisco Baptista dirige-se aos recrutas explicando-lhes o significado da cerimónia em que participavam. "O testemunho que ides receber dos nossos antepassados constitui uma responsabilidade enorme que estou certo conseguireis honrar, contribuindo, desse modo para assegurar às gerações presentes e vindouras, um clima de paz, liberdade, segurança e respeito pela nossa integridade territorial e pela manutenção do regular funcionamento das instituições consagradas na Constituição da República".

A seguir os recrutas, de braço levantado em direcção à bandeira, repetem a fórmula de juramento. Quando começa o desfile volta a agitação com toda a gente a procurar chegar-se à frente para ver melhor.

Vítor Tavares dá voltas à máquina fotográfica para tentar registar o irmão a marchar. Há dois anos foi ele o modelo na altura em que jurou bandeira no Regimento de Infantaria de Tomar. Entusiasmado desafia o fotógrafo de O MIRANTE a chegar-se mais à frente na tentativa de pôr o irmão no jornal.

Desfeita a formatura e terminada a cerimónia é o tempo dos beijos e abraços. Um reencontro com pais, irmãos, namoradas. As fardas ficam um pouco amachucadas com tanta manifestação de amizade e carinho.

Depois de um período de licença os recrutas serão colocados nas suas unidades. "Fazemos votos para que coloqueis como tónica dominante da vossa conduta, a determinação, a eficiência, a disciplina, o rigor e o vosso querer servir. Confiamos em todos vós, agora e no futuro, para elevar bem alto o nome da Engenharia Militar, do Exército e de Portugal". São as palavras de despedida.

Na Escola Prática de Engenharia, que ocupa uma área de 395 hectares, ministram-se cursos de formação e qualificação militar, na área das engenharias. Desenvolve-se ainda a preparação dos militares para intervenções em situação de calamidade ou catástrofe, em colaboração com o Serviço Nacional de Protecção Civil. Esta unidade participa também na execução de obras do Estado ou das autarquias locais, sempre que sejam solicitados os seus serviços.

Reportagem publicada na edição de O MIRANTE de 11 de Agosto de 1999

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