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Quem gosta mais de animais do que de pessoas tem um problema

Quem gosta mais de animais do que de pessoas tem um problema

Adélia Gominho é a primeira eleita do PAN no Ribatejo e está na Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira

Edição de 21.12.2017 | Entrevista

Adélia Gominho, mulher que gosta de ser frontal e directa, é a primeira deputada municipal do Ribatejo do partido Pessoas, Animais e Natureza (PAN), na Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira. Foi também candidata à câmara e obteve a confiança de 2133 votantes. A O MIRANTE fala, de forma aberta, do estado ambiental do concelho, do surto de legionella, de quem erradamente alimenta animais na via pública e, claro, de tauromaquia. Se fosse o PAN a mandar, os financiamentos públicos à tauromaquia no concelho acabavam imediatamente. Mas também não seria isso a condenar a tourada à extinção, diz. Já assistiu a touradas em pequena na televisão e considera que seria mais vantajoso levar as pessoas a verem os animais no campo do que levar toiros para as largadas do Colete Encarnado.

É a primeira eleita do PAN num concelho com fortes tradições taurinas. Como é que lida com a situação?

Vivo desde os sete anos no concelho, mas não sou aficionada e também não gosto da expressão anti-taurina. Leva-me para anti-touro e não é o caso. Eu gosto do toiro enquanto animal. Só não vejo qual a vantagem de em 2017 ainda existir entretenimento à custa do sofrimento do animal. Não precisamos de o ferir para mostrar força e inteligência, não faz sentido. E não sou apenas eu a pensar assim, basta olhar para a maioria dos portugueses. Compreendo que exista a tradição da tauromaquia, ligada a uma cultura rural e isso é bom. Mas não concordo com a tourada como também não concordo com os animais no circo. Há quem ache corajoso defender estas ideias que também defendo mas faço isto desde sempre.

Já assistiu a uma tourada?

Nunca fui a uma corrida numa praça de toiros. Assisti na televisão quando era miúda. Mas já vi muitas largadas e garraiadas.

Deve acabar-se com os financiamentos públicos à tauromaquia?

Somos contra que a actividade tauromáquica sobreviva com fundos públicos. Estamos contra porque, ao contrário de outras artes, não está em causa o gosto da arte, mas porque a tauromaquia assenta em princípios que não são éticos. Os aficionados foram-se afastando da tourada e ela vai acabar em menos de 20 anos por falta de público. Não digo isto para afrontar ninguém, trata-se apenas de ver o mundo como ele é.

Haverá espaço para um Colete Encarnado sem tauromaquia?

Não somos contra as festividades e pode fazer-se um desfile etnográfico que relembre o toiro, a lezíria, o trabalho do campo. Conheço muita gente que gosta da vivência da festa e da alegria, das tertúlias, conviver, comer, festejar, cantar, ninguém ia tirar isso às pessoas, faz parte de nós. Eu também vou à festa. Mas também não concordo com as largadas, fico triste quando as vejo. O animal não está feito para vir correr no meio de uma cidade. Preferia muito mais que os esforços que são feitos para trazer areia e bancadas fossem antes no sentido contrário de levar as pessoas e os jovens ao campo verem os animais no seu habitat natural.

Nas redes sociais um cão em sofrimento merece mais reacções do que uma pessoa a morrer de fome. Vive-se um clima de fundamentalismo?

Há exageros de parte a parte. Consigo compreender, mas não diria que há fundamentalismo. Um animal é um animal. Os animais não são iguais aos humanos. Os humanos são um dos seres deste planeta. Não podemos exagerar. Quem gosta de animais e não gosta de pessoas tem um problema. É legítimo fotografar um cão abandonado e publicar no Facebook, ele não vai ver a foto. Agora uma vítima de violência doméstica ou uma criança não se pode fotografar. Mas acredito que as ajudas chegam na mesma, mas sem tanta exposição.

Concorda que se alimente animais na rua?

Compreendo o que compele as pessoas a alimentarem os animais nas ruas e tenho pena que não estejam reunidas as condições para que isso possa ser feito noutros moldes. Não se pode dar comida húmida na via pública, cria problemas de salubridade. Temos de criar condições para que isso possa ser feito afastado das casas, num jardim, em abrigos próprios.

E o que fazer face aos dejectos caninos e à falta de civismo de alguns donos?

A culpa é dos donos, os animais não têm noção de que o estão a fazer na cidade. Arranjar sítios específicos para um animal fazer as necessidades já mostrou não ser solução. Quem tem um animal tem de compreender que tem obrigações perante a sociedade e só com muita educação se resolve isto.

Os pombos são uma ameaça ou uma virtude?

Nenhuma delas. Mas se temos cidades com edifícios abandonados e abertos com alimentos à disposição, os pombos vão para onde têm alimento fácil e abrigo. Podemos capturá-los e largá-los que eles voltam. Isso não resulta. É preciso voltar a falar dos pombais contraceptivos. Por 20 mil euros já se compram esses equipamentos. Se nos lembrarmos que as gaiolas colocadas pela câmara há dois anos para capturar pombos custaram o dobro disso e não deram resultados, talvez esteja na hora de pensar num método diferente.

Vila Franca de Xira é um bom concelho para viver

O resultado destas autárquicas foi uma surpresa ou uma desilusão?

Foi dentro do que estávamos à espera. A nossa ideia é mostrar que Vila Franca de Xira é um concelho grande, diferente e com muitas riquezas, foi isso que nos moveu a avançar. A minha ligação ao PAN vem um pouco antes das legislativas de 2015. Chamou-me à atenção o facto de referirem que não são de esquerda nem direita, é um partido dedicado a causas e não a uma ideologia.

Sente o peso da responsabilidade?

As causas que defendemos têm finalmente atenção no discurso político. Sinto apoio da equipa e os outros partidos da assembleia receberam-me muito bem. Conhecemo-nos todos e tenho até amigos noutros partidos. Isso facilita o diálogo. Sou apenas uma cidadã a fazer política local. Na assembleia iremos levantar temas que possam levar a uma visão diferente, tendo em vista o bem-estar das pessoas. Vila Franca de Xira é um bom concelho para se viver, pela proximidade a Lisboa, pelo rio, por não uma grande densidade populacional como noutras zonas da grande Lisboa. Há sítios mais povoados e complicados no concelho, mas mesmo nesses é fácil pegar numa bicicleta ou carro e chegar a outros locais. Somos o elo entre o Ribatejo e a capital e precisamos que venham conhecer o concelho. Em termos turísticos temos muito para apostar e melhorar.

Que balanço faz da última década de gestão socialista?

Nos últimos anos a prioridade foi a requalificação urbana e ambiental. Tem havido uma continuidade. Estamos melhor do que estávamos, mas há ainda muito a conseguir. Ainda falta uma loja do cidadão bem equipada na zona sul do concelho. Investiu-se muito nas áreas urbanas e esqueceu-se as zonas mais pequenas e rurais. Não sei se todos já usufruem do que tem sido melhorado. Não temos uma agenda cultural que seja realmente dinamizada e comunicada. As actividades existem mas as pessoas não sabem delas.

Está prevista a criação de mais ciclovias na Póvoa e a transformação da Nacional 10 numa avenida urbana. São bons projectos?

A EN10 tem de estar aberta a todos, peões e bicicletas, nisso estamos de acordo. Os problemas de trânsito não dependem só da câmara. Não me parece que abrir novos nós de acesso à Auto-Estrada do Norte (A1) isoladamente vá melhorar algo. Sou a favor desses acessos mas complementados com melhor oferta ferroviária e de transporte público. Abrir acessos à auto-estrada, sem outras alternativas, só vai fazer piorar as filas de trânsito que já existem na Póvoa.

E abolir as portagens?

Não resolve tudo. Tirar as portagens vai convidar as pessoas a levar o carro para a auto-estrada e os problemas que se tem na nacional simplesmente mudam de sítio.

Entidades lidaram bem com o surto de legionella mas está a falhar o resto

Adélia Gominho diz-se “revoltada” pelo facto do surto de legionella que afectou o concelho em 2014 ainda se arrastar na justiça. Elogia a gestão e a comunicação que foi feita pelas diferentes entidades durante o surto, mas lamenta que depois as vítimas tenham sido deixadas desamparadas. “Não sei se as pessoas que não viveram a zona do Forte da Casa conseguiram perceber até hoje o impacto que o surto teve na comunidade. Infelizmente tenho amigos que foram apanhados. O impacto a nível psicológico merecia ser estudado para se saber como actuar na comunidade atingida. Ficaram muitas respostas por dar.
Durante o surto as coisas foram bem geridas, houve informação, comunicação, evitou-se o pânico, as pessoas do hospital conseguiram fazer um bom trabalho. Mas depois os meses passaram e há uma outra parte que precisava de ser feita. O aligeirar da lei foi uma incúria e irresponsabilidade”, refere.
No panorama ambiental, Adélia Gominho diz que há questões, como a degradação do Mouchão da Póvoa, que carecem de respostas urgentes. Diz que as questões ambientais “não têm fronteiras” e que os municípios têm de saber falar entre si para tomarem as melhores medidas. Na casa onde vive, no Sobralinho, perto da fábrica da Cimpor, Adélia Gominho diz sentir com frequência poeiras no ar. “Agora se são oriundas da Cimpor ou de uma pedreira não sei. Se calhar ainda não se resolveu porque moramos ali poucos. Quando os meses se arrastam, são feitas análises e contra-análises e nada é conclusivo, as pessoas ficam sem resposta e não me parece que as autoridades portuguesas, na generalidade, estejam a conseguir dar resposta”, refere.

Da Alemanha para Portugal

Adélia Gominho tem 48 anos, nasceu na Alemanha e vive no concelho de Vila Franca de Xira desde os sete anos. Primeiro no Forte da Casa e actualmente no Sobralinho. Tem três gatos em casa e gosta de viver no Sobralinho por ser uma terra rural, calma e de paz. Trabalha a partir de casa como profissional de comunicação. O que a irrita é ver as pessoas a repetir as mesmas acções para obterem sempre os mesmos resultados. Não tem uma viagem de sonho e abraça o que a vida lhe dá. É casada, tem um filho e não gosta de ver a fraca contribuição da população do Orçamento Participativo do concelho. Defende que os mais novos poderiam ter aulas, por exemplo, de cidadania, para no futuro serem mais interventivos na vida da comunidade.

Quem gosta mais de animais do que de pessoas tem um problema

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