Crónicas do Brasil | 20-03-2022 14:42

Se Pessoa encontrasse Fernando*

Vinicius Todeschini

No “Livro do Desassossego”, Bernardo Soares escreveu, “Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito? ”

Isso nunca aconteceu a rigor, porque, simplesmente, houve uma separação temprana e um se perdeu do outro e o outro se estilhaçou em vários e eles nunca foram nada, além de pessoas que nunca existiram totalmente. “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada”. A explicação vem na terceira frase quando Pessoa que jamais encontraria Fernando se põe a ser muitos outros, porque não pode querer ser nada, mas, ao mesmo tempo, não é nada, porque não é quem se destinava a ser.

A tragédia pessoana se inicia com a perda do pai aos cinco anos de idade e a sua ida para a África do Sul com a mãe já casada com o seu padrasto, que era militar de carreira, e foi para esse país da África em missão diplomática, como cônsul. “O mito é nada que é tudo”. Pessoa é incansável em sua busca de sentido para algo que intui, mas que não faz sentido algum. Sua bizarra amizade com Crowley é um exemplo, durante dois anos eles trocaram cartas, que por fim culminou com a visita de Aleister Crowley a Lisboa e a encenação de um suicídio, divulgado por Pessoa com a colaboração do seu amigo, o jornalista Augusto Ferreira Gomes, o suicídio na “Boca do Inferno”, em Cascais.

Pessoa entrou em contato com a obra de Crowley através da editora londrina Mandrake que estava publicando a autobiografia do mago inglês, “The Confessions of Aleister Crowley”. Pessoa era astrólogo, desde 1914 se dedicava a isso, entre outras coisas, e alertou a editora sobre a incorreção do horóscopo de Crowley. Ele chega a fazer inumeráveis e complicados cálculos para acertar a hora do nascimento do inglês, e sugere que tenha sido às 23h.16m. e 39s. O ocultista britânico só sabia que tinha nascido entre 23h e a meia-noite. Crowley recebeu textos de Pessoa e respondeu assim: “Considerei, realmente, a chegada da sua poesia como uma clara Mensagem, que gostaria de lhe explicar pessoalmente. Estará em Lisboa nos próximos três meses? Se assim for, gostaria de o visitar, mas sem dizer a ninguém. Por favor, informe-me na volta do Correio”.  Antes de embarcar para Portugal, Crowley escreveu em seu diário algo muito significativo em relação aos motivos da sua viagem, um tanto quanto repentina, depois de três meses sem comunicação com Pessoa. “Londres é infernal. Cada um deprimido com antes (…) Cada vez com mais vontade de ir para Portugal no dia 29”. Interessante também é a descrição do mago para a cidade de Lisboa da época: “Lisboa, a julgar pelo barulho, é uma espécie de Grande Londres. Como uma fábrica de caldeiras com todos os seus operários presos na maquinaria. Esquálida, mal pavimentada, suja, estreita, enfadonha, Como um super-rádio num café: literalmente, um inferno de barulho”.

Pessoa escreveu este poema sobre a transcendência. “Não dorme sob os ciprestes/Pois não há sono no mundo/O corpo é a sombra das vestes/Que encobrem teu ser mais profundo”. Na verdade, ele participou de várias ordens esotéricas, como a “Ordo Templi Orientis”, e criou esse poema altamente simbólico e cheio de chaves para, supostamente, desvendar os arcanos da imortalidade. O poeta certamente caberia no perfil de portador de transtorno de múltiplas personalidades, pelos manuais de psiquiatria da nossa época, baseado apenas em evidências e frágeis de fundamentos. Se Rimbaud escreveu, “Eu é um outro”, Pessoa poderia dizer; eu são muitos outros ou coisa que o valha. Em 1928, em um sumário explicativo ele explicou o fenômeno dos heterônimos da seguinte forma; “Obras pseudônimas são aquelas com o autor em sua própria pessoa, exceto pelo nome que assina; as obras heterônimas são com o autor fora da sua própria pessoa”. E para concluir tão espinhoso tema, no “Livro do desassossego”, Bernardo Soares escreveu, “Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito? ”

Pessoa se definiu como um histero-neurastênico em carta a dois psiquiatras franceses, em 1919. Se considerava um homem sem nenhum atrativo e abúlico, ele faleceu em 1935, provavelmente de pancreatite aguda, consequência da muita quantidade e da pouca qualidade do que bebia. Talvez a existência de Fernando seja a de um estuário-rio, que abriga muitas vertentes e rios e ainda assim leva na correnteza seus segredos mais insondáveis: “Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso/Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo”.  

*Fernando Pessoa é o escritor português mais lido e admirado no Brasil.       

Vinicius Todeschini 18-03-2022

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