Crónicas do Brasil | 31-03-2022 20:09

Civilização Brasileira

Vinicius Todeschini

No Brasil há uma guerra não declarada entre ricos e pobres, com as diferenças econômicas e sociais aumentando ano após ano. Submissos a uma elite econômica insensível e egoísta, a maioria dos brasileiros, 1/3 parte desses, sobrevivem na tênue linha entre a pobreza e a miséria, outro 1/3, entre a classe média baixa e a pobreza.

                O que resta à humanidade? Um planeta isolado em um universo incomensurável e indiferente, onde bilhões de seres competem pela sobrevivência, divididos em classes, em castas, confrarias e máfias. A realidade desafia os textos sagrados ao contradizê-los constantemente, obrigando os defensores desses escritos a criarem novas justificativas para manter seus prosélitos atrelados às suas ordens e, consequentemente, continuarem financiando-as. É assim que funcionam ordens religiosas, afinal não se pode comprovar nada do que afirmam os seus representantes, mas muitos não conseguem viver sem algo que lhes relembre o que não aconteceu. Misteriosamente o mundo aceita isso, porque o maior mistério é ver mistérios onde só existe desconhecimento. As guerras também atendem esses propósitos, mantém o mundo ocupado em buscar a paz, quando a paz, realmente, nunca existiu.

                No Brasil há uma guerra não declarada entre ricos e pobres, com as diferenças econômicas e sociais aumentando ano após ano. Submissos a uma elite econômica insensível e egoísta, a maioria dos brasileiros, 1/3 parte desses, sobrevivem na tênue linha entre a pobreza e a miséria, outro 1/3, entre a classe média baixa e a pobreza. O que resta é uma classe média exaurida, mas que ainda consegue manter seus filhos estudando e se formando. Aqui, enquanto a fome cresce entre os pobres, o número de bilionários aumenta sem parar. Em 2020 eram 45, porém em 2021 aumentaram para 65. Eles detêm R$219,1 bilhão de dólares, quase atingindo o patamar do PIB do país. Estudos demonstram que 1% dos super-ricos detém 50% da riqueza do Brasil e os 10% mais ricos, 82% de toda a riqueza brasileira. Os colonizados aprenderam a colonizar o seu próprio povo e esse aprendeu a viver de migalhas.

 O Brasil está na vice-liderança mundial de falta de mobilidade social, junto com a África do Sul, perdendo apenas para um país vizinho, a Colômbia. E sempre que algum governo ameaça quebrar essa ordem consumada, um golpe de Estado acontece, seja militar ou político, como o de 2016.

                Todos os povos que foram colonizados sofreram e continuam sofrendo com as consequências da colonização, mas a marca mais forte das implicações desse processo, aqui, é a submissão sem resistência aos ditames dos poderosos. Nunca no país houve uma rebelião organizada e mantida pelo povo, sempre foram iniciativas de dissidentes das próprias elites que se revoltaram contra a crueldade da classe dominante contra os pobres. O Brasil foi o último grande país do mundo a abolir a escravidão e, assim mesmo, foi uma decisão que não contou com a participação popular, o patriarca e abolicionista, José Bonifácio, por exemplo, era apenas um reformista e monarquista constitucional. Nascido em Santos, ele se considerava um português nascido na América e não um brasileiro. Era um abolicionista já na Constituinte de 1823, mas não havia como derrotar a elite escravocrata dominante daquela época e demorou mais 60 anos para que a Abolição da Escravidão acontecesse.

Os liberais brasileiros, na sua maior parte, sempre defenderam à Independência e, ao mesmo tempo, a manutenção da escravidão, porque defender o fim da escravidão era atacar o direito sacrossanto à propriedade. Eles não eram exceção no mundo, o pai da Constituição americana, James Madison, por exemplo, assim como muitos outros dos chamados, Pais fundadores da nação norte-americana, eram liberais e escravocratas. O próprio John Locke, pai do liberalismo, era escravocrata e a favor da pena de morte para quem atentasse contra a propriedade privada. O cerne do pensamento das elites está umbilicalmente ligado ao liberalismo econômico, que é elitista e racista. Defende a liberdade do Estado, mas não a liberdade individual de quem contradiz as prerrogativas desse mesmo Estado, quando ele se mostra déspota. O liberalismo nunca teve pruridos em derramar o sangue de quem se opunha a ele.  As ideias de liberdade de Locke servem apenas aos poderosos e, como eles jamais desejaram justiça social, jamais haverá liberdade real enquanto o liberalismo comandar algum país. O Brasil está na vice-liderança mundial de falta de mobilidade social, junto com a África do Sul, perdendo apenas para um país vizinho, a Colômbia. E sempre que algum governo ameaça quebrar essa ordem consumada, um golpe de Estado acontece, seja militar ou político, como o de 2016.

Vinicius Todeschini 29-03-2022

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