Crónicas do Brasil | 02-04-2022 14:59

Defender o povo e defender-se do povo

Vinicius Todeschini

O capataz consegue ser mais cruel que o patrão, porque quando guindado a um cargo superior aos seus iguais, ele passa a oprimi-los com uma crueldade superior ao próprio patrão (:) Sérgio Camargo, cidadão brasileiro afrodescendente que foi exonerado do governo esta semana é um exemplo: quando era presidente da Fundação Cultural Palmares, cujo propósito é promover e preservar os valores culturais da influência negra na sociedade brasileira, chamava os movimentos negros de “escória maldita” formada por vagabundos.

                Muitos homens foram traídos quando defendiam grandes causas populares, alguns pelos seus próprios pares, entretanto, na maioria das vezes, quem os entregava aos inimigos que combatiam eram pessoas do povo, justamente aqueles a quem queriam salvar da exploração e da miséria à qual eram submetidos. Che Guevara entrou na Bolívia disfarçado para criar uma revolução aos moldes de Cuba, mas foi morto por um grupo de elite do exército boliviano, depois de ser denunciado por uma mulher do povo que avisou a sua localização aos militares bolivianos. Existem muitas teorias sobre a sua morte, algumas chegam ao extremo de afirmar que ele foi traído por Fidel Castro e mandado à Bolívia para morrer.

                A guerrilha do Araguaia -na região amazônica brasileira- também acabou mal para os guerrilheiros, eles acabaram denunciados pelos mateiros que conheciam os seus caminhos por aquela região do país. Conseguiram algumas vitórias no início, fruto do enfrentamento contra forças militares sem preparo, porém vieram os soldados profissionais e eles foram derrotados. O plano dos guerrilheiros era se infiltrar entre os locais e aos poucos cooptá-los ao seu projeto revolucionário. O exército, por sua vez, oferecia mil cruzeiros aos habitantes da região -que eram chamados de caboclos pelos militares- para entregar os trajetos e posições dos “paulistas” (assim o povo designava os guerrilheiros), valor que possibilitava a compra de uma boa área de terra e muitos em troca alcaguetaram os revolucionários brasileiros.

Os custos do Estado capitalista são socializados por aqui, mas os lucros são exclusivamente dos ricos e dentro dessa lógica perversa, retirar direitos conquistados, é, simplesmente, uma crueldade.

                Paulo Freire, em seu livro mais conhecido, “A Pedagogia do Oprimido”, escreveu que o capataz consegue ser mais cruel que o patrão, porque quando guindado a um cargo superior aos seus iguais, ele passa a oprimi-los com uma crueldade superior ao próprio patrão, quando deveria defendê-los, porque conhece o opressor e também foi explorado por ele, apesar disso ele faz, justamente, o contrário. Sérgio Camargo, cidadão brasileiro afrodescendente que foi exonerado do governo esta semana por conta das eleições e da baixa popularidade do presidente, é um exemplo, quando era presidente da Fundação Cultural Palmares, cuja propósito é promover e preservar os valores culturais da influência negra na sociedade brasileira, chamava os movimentos negros de “escória maldita” formada por vagabundos, ofendia artistas populares e chamava o líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, de filho da puta.

                Por que defender quem, aparentemente, não quer ser defendido? O povo que elege governantes que governam para os privilegiados e retiram direitos adquiridos dos trabalhadores em muitos anos de luta, o que pensa quando percebe o ledo engano? Existem muitas explicações, Paulo Freire, por exemplo, coloca essa questão da seguinte forma: “Querem ser, mas temem ser. São eles e ao mesmo tempo são o outro introjetado neles, como consciência opressora”.

                O fetichismo econômico que continua em voga em países como o Brasil, desiguais socialmente e desenvolvidos de forma assimétrica, continua a ser a base dos discursos que levam os políticos, comprometidos com os poderosos e com a manutenção dessa ordem social engessada e injusta, ao poder. O atual presidente brasileiro é um caso escandaloso, nesse aspecto. Assumidamente defensor de valores reacionários e opressores, obteve muitos votos nas periferias, inclusive em regiões que eram bases eleitorais da esquerda. E chegou com tudo, fazendo uma Reforma da Previdência que retirou uma quantidade enorme de direitos, aumentando e dificultando, ainda mais, a aposentadoria dos trabalhadores. Os custos do Estado capitalista são socializados por aqui, mas os lucros são exclusivamente dos ricos e dentro dessa lógica perversa, retirar direitos conquistados, é, simplesmente, uma crueldade.

                Não se fazem mais revolucionários como antes e o povo pode ficar mais tranquilo em sua profissão de fé, ser oprimido. Não aparecem mais homens e mulheres dispostos a sacrificar a sua vida por uma causa que, aliás, é desconhecida pelos que, simbolicamente, são o objeto desse sacrifício. Nos “Anos de Chumbo”, como ficou conhecido o período ditatorial brasileiro, não havia a menor consciência da maioria, quanto mais apoio, pela luta dos revolucionários contra o regime discricionário. A luta atual é sobreviver em um mundo onde os valores flutuam em um oceano de estímulos que crescem em escala geométrica e quando chegam à margem das análises já não possuem mais valor algum.

Vinicius Todeschini 31-03-2021

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