Crónicas do Brasil | 11-05-2022 22:14

O sim e o não na democracia brasileira

Vinicius Todeschini

Os vários segmentos da Igreja Católica, onde existem setores representativos mais à esquerda e a própria postura do Papa Francisco, um homem aberto às minorias e sensível ao sofrimento dos pobres, tornou essa relação cada vez mais difícil e, também, pouco atrativa para um governo que precisa do fundamentalismo para se comunicar com os excluídos.

                O ser humano não é contraditório por dizer sim e, pouco tempo depois, dizer não. O ser humano é contraditório porque ele diz sim e continua agindo como se tivesse dito não, ou diz não e age como se tivesse dito sim. É da lógica da contradição não parecer contraditória, pois essa dança de afirmação e negação está incrustada na cultura humana e, de tal forma, que não há nenhuma racionalização que explique satisfatoriamente à questão, é a velha esparrela onde todos caem.

                No Brasil o avanço das igrejas evangélicas é algo impressionante, hoje se estima que exista mais de 65 milhões de evangélicos no país e a cada dia uma nova igreja surge perto da sua casa, como se fosse uma lanchonete ou um bar, só que livre de impostos que as outras modalidades de comércio pagam. As velhas denominações evangélicas tradicionais se veem cercadas dia a dia por novas denominações religiosas, elas são formadas por pessoas que, simplesmente, como qualquer funcionário que aprende um ofício com o patrão, resolve se estabelecer por conta própria e abrir o seu próprio negócio.

                A grande jogada da extrema-direita brasileira foi ver nesse segmento, em vertiginosa expansão, similitudes ideológicas. Os fundamentalistas pentecostais e o discurso incoerente dos líderes da extrema-direita parecem combinar em alguns pontos, como por exemplo, a condição da mulher, que deve ser submissa ao homem. Essa parceria tácita está funcionando até hoje, mesmo que comece a mostrar algumas dificuldades para os pastores ajustarem, dentro da doutrina, as excrescências do regime atual e a sua prática, que se aproxima muito mais dos fariseus do que de religiosos imbuídos de valores cristãos.

O distanciamento entre a extrema-direita brasileira e a Igreja Católica se deu muito por conta da complexidade e do alto nível intelectual de alguns setores católicos, que não se coadunam facilmente com o discurso simplista e calcado em um neoliberalismo feroz, propagador da desigualdade social e do aumento da miséria. Os vários segmentos da Igreja Católica, onde existem setores representativos mais à esquerda e a própria postura do Papa Francisco, um homem aberto às minorias e sensível ao sofrimento dos pobres, tornou essa relação cada vez mais difícil e, também, pouco atrativa para um governo que precisa do fundamentalismo para se comunicar com os excluídos e, principalmente, conta com o dinheiro em grande profusão e difícil de ser fiscalizado das igrejas pentecostais para se manter no poder.

Nada mais coerente do que isso, falar sim e fazer o não, assim mesmo e sem nenhuma explicação calcada em alguma lógica sustentável. Apesar disso, a esquerda brasileira ainda não conseguiu criar nenhuma forma para penetrar nestas “Muralhas de Jericó”, onde está guardada a “Arca da Aliança” desse acordo tácito que está levando o país ao maior retrocesso da sua fase democrática recente. Os evangélicos estão no topo da cadeia religiosa e não param de crescer a arrecadar o dinheiro do povo trabalhador, mas com mentalidade lúmpen, porque parece ser incapaz de perceber a exploração que acontece e enriquece estes fariseus de última hora à custa do sacrifício de milhões. Até agora, a esquerda permanece “amaldiçoada” e, assim como Cristo, não consegue ser aceita pelo povo que deveria ser seu, porque quer libertá-lo. Contradição de primeira ordem. Sai dessa se puder! Pois, parece muito difícil que em pouco se consiga resolver tamanho paradoxo, mas o desafio está lançado para os que quiserem tentar penetrar no templo onde se costuram os acordos políticos abençoados pelos pastores evangélicos.

                Por fim, chegará o dia em que algum líder de esquerda conseguirá criar uma síntese que recoloque essa relação, entre cristianismo e justiça social no mesmo discurso e consiga quebrar à hegemonia da direita dentro do povo que se diz evangélico, se diz porque não sabe bem o que significa ser de direita e ser cristão verdadeiramente. Bem, talvez o cristianismo -que se professa hoje- seja apenas uma religião inventada sobre o Cristo e pouco interessa a figura de Jesus e seus ensinamentos, o que realmente importa é manter o gado no controle e dar o que eles um consolo para suportar uma realidade que não entendem e que não oferece nenhuma resposta segura. O panis et circenses continua em voga e agora com o consolo de continuar pela eternidade, pelo menos para quem pagar o dízimo e as ofertas. 

Vinicius Todeschini 09-05-2022

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