Crónicas do Brasil | 20-05-2022 11:59

Brasil, o país dos ricos e dos miseráveis

Vinicius Todeschini

O Brasil se especializou em produzir misérias de todos os tipos, por ser um país criado pelos ricos para eles mesmos usufruírem e ficarem ainda mais ricos (: ). Para compensar, para cada novo rico brota –magicamente- das ruas uma legião de miseráveis e esse processo desastroso só aumentou nos últimos quatro anos, período em que estamos vivendo o mais lamentável governo do período de redemocratização do país, após 21 anos de ditadura.

               O Rio de Janeiro continua lindo, já disse Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura do presidente Lula. Na realidade, o Rio de Janeiro é bonito por natureza, mas para por aí, porque é uma das cidades mais violentas e perigosas do mundo. Muitos estrangeiros foram mortos turistando na “cidade maravilhosa” e os moradores dessa cidade tiveram que aprender a sobreviver, muitas vezes jogando o seu carro nos acostamentos para fugir de balas perdidas. Existe casos de pessoas que morreram em suas camas, só porque moravam em prédios próximos às áreas conflagradas por conflitos e balas foram atingi-las dentro das suas próprias casas, onde deveriam estar seguras. Foi o caso do ator, Older Cazarré, que morreu em 26 de fevereiro de 1992, aos 57 anos. Ele foi atingido por uma bala perdida que o acertou no peito enquanto dormia em seu apartamento, na Ladeira Saint Roman, em Copacabana.

                O Brasil se especializou em produzir misérias de todos os tipos, por ser um país criado pelos ricos para eles mesmos usufruírem e ficarem ainda mais ricos através da sua própria criação. Para compensar, para cada novo rico brota –magicamente- das ruas uma legião de miseráveis e esse processo desastroso só aumentou nos últimos quatro anos, período em que estamos vivendo o mais lamentável governo do período de redemocratização do país, após 21 anos de ditadura.

                Mudar um país, suas crenças, seus valores cristalizados é uma tarefa para muitas gerações, mas o Brasil, ao contrário, só vem aprofundando as suas contradições e injustiças naturalizadas. O país se especializou em criar misérias e em enriquecer os poderosos, tornando inacessível qualquer ascensão social, através de mecanismos de exclusão ligados, concomitantemente, à falta de políticas de mobilidade social. É como se houvesse um espírito perpetuado que faz com que todos que conseguem atingir a independência econômica criem ojeriza ao povo pobre e, principalmente, aos excluídos que vivem na miséria.

                Aqui no sul do Brasil, onde a colonização europeia é marcante, principalmente a de origem italiana e alemã, é bastante notório o racismo, mas, mesmo em lugares onde predomina a colonização portuguesa, que é bem mais antiga, o racismo é uma dura realidade. Neste sábado, dia 14 de maio de 2022, em pleno estádio Beira-Rio, que pertence ao Sport Clube Internacional, durante o jogo, Inter e Corinthians, houve um triste episódio de injúria racial. O jogador do Internacional, Edenílson, denunciou que o seu colega Rafael Ramos, lateral direito do clube paulista, o chamou de macaco, o que constitui injúria racial pelas leis brasileiras. O jogador foi preso em flagrante e liberado após o clube pagar fiança de dez mil reais. São inúmeros episódios análogos e não só no futebol, em todas as áreas da vida brasileira. A ilusão de um país multirracial e livre do racismo há muito foi soterrada.

                Começamos esta semana com o presidente passeando no domingo de jet-ski no Lago Paranoá, em Brasília, fazendo uma lanchaciata. Ele segue em campanha, indiferente aos indicativos negativos do seu governo. É como se o mundo derretesse e as pessoas, ao invés de ficarem atônitas, fossem lamber as pedras como se fossem picolés. Diante de tudo isso, não se pode deixar de perguntar: o fim dos manicômios liberou geral a loucura e o avanço para a saúde mental, que foi o fim dos manicômios, trouxe para a rua todo o desvario e insânia que antes estavam confinadas. Claro que isso não tem nenhuma relação direta, a loucura é um fenômeno que, mesmo enquadrada pelos manuais de psiquiatria, sempre transcende a eles. O nosso caso é mais simples, é só retirar um psicopata da presidência.

                Brasil, país dos ricos e dos miseráveis. Alguns, em pleno gozo dos prazeres materiais que a vida oferece para que tem dinheiro, dirão de forma sarcástica: eis um país democrata, e eu direi; eis um país que nunca superou completamente à escravidão. Em março deste ano, no Rio de Janeiro (a tal cidade maravilhosa), uma idosa de 84 anos que serviu por três gerações a uma mesma família foi resgatada de um regime análogo à escravidão. Sequer tinha a posse dos seus documentos e dormia em um sofá perto da entrada de um dos quartos. Foram 1.937 brasileiros resgatados em 2022, número apenas menor que em 2013, quando foram 2.808 trabalhadores que viviam como pessoas escravizadas.

Vinicius Todeschini 17-05-2022

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