Crónicas do Brasil | 23-05-2022 15:43

Meu Caro Amigo

Vinicius Todeschini

Com a ameaça constante do atual governante à democracia podemos estar diante de outro retrocesso, embora seja muito mais complicado para os militares apoiarem Bolsonaro nessa aventura, principalmente, porque os EUA não os apoiam, como no golpe de 1964. Caso Trump tivesse vencido, realmente seria diferente e o risco seria iminente, mas Biden venceu e isso trouxe alívio e esperança de dias melhores para todos.

               Quando Chico Buarque compôs a letra de “Meu caro amigo”, parceria com Francis Hime, corria o ano de 1975, o disco em que foi lançada esta canção é de 1976. O amigo em questão é Augusto Boal, que se encontrava exilado em Portugal. A irmã do dramaturgo foi encarregada de levar a carta cassete a ele (a música foi levada naquelas antigas fitas cassetes dentro do envelope) que morria de saudades do Brasil e queria saber notícias daqui. Naquela época as comunicações possuíam tantos limites, quanto facilidades existem hoje em dia.  O Brasil passava por um governo que prometia uma abertura lenta e gradual e uma anistia que permitiria a volta dos exilados, mas enquanto isso não acontecia o sofrimento pela distância e pela rarefação de notícias tornava o exílio muito difícil para todos.

A irmã de Boal entregou-lhe o envelope, mas quando ele abriu era uma fita cassete. Ele a colocou no pequeno gravador e antes de ouvir chegou a pensar que era uma mensagem comum com palavras ditas, mas quando ouviu o choro (gênero musical brasileiro) a emoção foi total. No final da canção Chico e Hime, além da saudação a Boal e a sua família, repetem o indefectível e realista refrão: “Aqui na terra tão jogando futebol/Tem muito samba muito choro e rock’n’roll/Uns dias chove, noutros dias bate sol/Mas o que eu quero lhe dizer que a coisa aqui tá preta/A Marieta manda um beijo para os seus/Um beijo na família na Cecília e nas crianças/O Francis aproveita pra também mandar lembranças/ A todo pessoal, adeus”.

                A experiência da ditadura foi terrível para o Brasil, porque mostrou que os militares brasileiros, pelo menos a maior parte dos que possuem poder dentro das Forças Armadas, estavam dispostos a uma aventura para colocar o país no triste rumo dos países sem liberdades democráticas e, entre tantas coisas ruins, criou um hiato para várias gerações, no que tange à participação política no país. Isso teve um reflexo imediato, porque os líderes que ressurgiram no país recém-democratizado foram velhas lideranças ou líderes que vieram do movimento sindical, como é o caso do ex-presidente Lula. Não havia diversidade na política brasileira e com isso muitos segmentos ficaram sem representatividade.

                Com a ameaça constante do atual governante à democracia podemos estar diante de outro retrocesso, embora seja muito mais complicado para os militares apoiarem Bolsonaro nessa aventura, principalmente, porque os EUA não os apoiam, como no golpe de 1964. Caso Trump tivesse vencido, realmente seria diferente e o risco seria iminente, mas Biden venceu e isso trouxe alívio e esperança de dias melhores para todos. O pior de tudo, é que se constata que os militares brasileiros não mudaram, continuam se arvorando como os defensores da tradição, da família e da propriedade, mas nunca da Constituição. Isso confirma que dentro dos quartéis ainda lhes ensinam “antigas lições”, como dizia a famosa canção de Geraldo Vandré, “Pra não lhe dizer que não falei das flores”, que lhe rendeu sessões de tortura e o exílio.

                São inúmeros os crimes dos militares que nunca foram punidos, sequer julgados, porque houve o entendimento de que o perdão deveria ser para todos, tanto para quem lutou pela democracia, como também para golpistas, torturadores e assassinos, enfim, todos que cometeram crimes em nome da ditadura estavam justificados e sobre isso se edificou a atual democracia brasileira.

                Bolsonaro não cansa de cometer crimes e ameaçar a democracia, agora mesmo 264 deputados votaram contra os direitos das crianças e adolescentes, ao aprovar o projeto de lei que regulamenta o homeschooling. O parecer aprovado autoriza a educação domiciliar durante a educação básica, cujos pais tenham escolaridade de nível superior ou tecnológico e apresentem certidões criminais da Justiça Federal, Estadual ou Distrital. A autora dessa façanha é a relatora do projeto, Luisa Canziani (PSD-PR).

                O país passando por uma crise sem precedentes e os militares apoiando mais uma tentativa de golpe, se uniram às forças mais reacionárias do país para tentar retroceder a Idade Média, que na verdade nem aconteceu tecnicamente no Brasil, o país foi oficialmente descoberto em 1500 d.C. Mesmo que o golpe absoluto e definitivo não aconteça, esses retrocessos, como o da Educação, confirmam que há uma luta incessante patrocinada pelos conservadores do país para afundar o Brasil nas trevas da ignorância.

Vinicius Todeschini 23-05-2022

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