Crónicas do Brasil | 03-06-2022 10:00

O patriarcado resiste

Vinicius Todeschini

No Brasil o número de estupros é avassalador, porém, por aqui, a guerra que existe é uma guerra não declarada, mas perpetuada nas ações de violência policial contra as comunidades pobres e que culminou, na última semana, com a morte de Genivaldo de Jesus Santos durante uma abordagem. É importante ressaltar que ele foi abordado porque dirigia sua moto sem capacete, o que é proibido, mas fato corriqueiro nas motociatas do atual presidente que faz questão de pilotar sem capacete.

O corpo da mulher em um mundo onde o patriarcado criou as estruturas não pertence a ela. O corpo feminino é um objeto de desejo e, portanto, de posse, é onde o patriarcado exibe sua força aos inimigos que se oponham a ele. O corpo feminino é um corpo político. As disputas por uma mulher nessa sociedade pressupõem a posse como uma forma de poder e empoderamento do masculino sobre outro masculino, por isso o estupro é mais que um ato violento e covarde é um ato político, um ato de guerra e, como tal, tem o escopo de atingir todo a sociedade inimiga. As guerras sempre trouxeram com ela a violência contra as mulheres e as crianças, na extinta Iugoslávia, a notícia da criação de “campos de estupro” chocou a todos e quando se descobriu que o objetivo era a gravidez forçada de mulheres para que nascessem crianças sérvias, humilhando ainda mais o inimigo e continuando o insano processo de limpeza étnica, apenas se confirmou que não existe nenhum limite para a insanidade.

                 No Brasil o número de estupros é avassalador, porém, por aqui, a guerra que existe é uma guerra não declarada, mas perpetuada nas ações de violência policial contra as comunidades pobres e que culminou, na última semana, com a morte de Genivaldo de Jesus Santos durante uma abordagem. O cidadão foi colocado no porta malas de uma viatura e depois foram jogadas bombas de gás lacrimogêneo e gás pimenta asfixiando Genivaldo e o levando a óbito. Os procedimentos policiais no Brasil são marcados pela truculência, principalmente se tratando de pessoas pobres. É importante ressaltar que ele foi abordado porque dirigia sua moto sem capacete, o que é proibido, mas fato corriqueiro nas motociatas do atual presidente que faz questão de pilotar sem capacete. Genivaldo tinha diagnóstico de esquizofrenia e os policiais foram avisados pelo sobrinho da vítima sobre seus transtornos mentais, mas seguiram em sua ação violenta contra Genival e ele acabou falecendo por asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda. Os brasileiros aprendem a lidar com a polícia desde muito cedo, evitando discussões inúteis que possam levar à truculência policial, comportamento recorrente e, provavelmente, estimulado pelas corporações. Bolsonaro é claro os defendeu e pediu aos jornalistas isonomia para os policiais.

Putin, Trump, Bolsonaro, Orbán, Lukashenko, Assad, entre outros, são representantes da resistência do patriarcado e são incansáveis em sua luta para que essa estrutura permaneça. A volta dos movimentos conservadores é recorrente e, através da história, observamos para cada avanço, logo ali adiante, surge um retrocesso para desconstruir o progresso em nome de algo que não existe ou que foi inventado. Isso acontece em cada macro e microestrutura da sociedade numa luta sem trégua, nascem e morrem líderes representando o progresso ou o retrocesso e da capacidade deles, muito mais do que aquilo que representam, depende o sucesso ou o fracasso desses empreendimentos.

                Pela visão de Lacan a decadência dos grandes referenciais que suportavam o mundo socialmente organizado deram lugar a modernidade líquida, termo cunhado e conceituado por Zygmunt Bauman, onde qualquer certeza se desfaz e se metamorfoseia em outra.  A confiança na perpetuação de valores era uma “base sólida” para a construção de ideais de vida que se perpetuariam através de gerações, mas agora diante das incertezas e da realidade desmistificada pela ciência, paira o espectro do inefável. O mito do assassinato do pai primitivo pela horda e o seu devoramento para tentar adquirir o direito ao gozo resultou em interdição. Por trás de tudo isso surge uma interpretação que dá sustentação ao neoconservadorismo: se o pai está em decadência é nosso dever salvá-lo e recolocá-lo no devido lugar. Mas qual lugar?

                Os conservadores têm um propósito claro, manter o mundo refratário e sob seu controle e aí se misturam o desejo de poder de cada indivíduo e a capacidade de conquistar e se manter no poder. Os discursos são diferentes, mas se examinados com algum rigor partem da mesma base, até porque o neoconservadorismo rechaça os discursos elaborados com bases consistentes a ponto de poderem ser refutados, como queria Popper. No seu, “Método Hipotético Dedutivo”, ele afirmava que uma das formas para provar que uma teoria é científica é que ela pode ser falseada, mas isso demais para os neoconservadores.

Vinicius Todeschini 02-06-2022

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