Crónicas do Brasil | 20-06-2022 16:19

O Brasil Bandido de Bolsonaro

Vinicius Todeschini

A implicância com a demarcação de terras indígenas e a liberação tácita e oficiosa dessa região como território livre e sem lei, levou aos assassinatos do indigenista Bruno Araújo e do jornalista inglês Dom Phillips, dois defensores dos direitos humanos e da natureza. Eles foram cruelmente mortos e seus corpos foram queimados por facínoras que não respeitam às leis, mas têm livre trânsito e o apoio do Brasil Bandido de Bolsonaro.

                Bolsonaro segue uma linha traçada no exército brasileiro pelos velhos generais, como Golbery do Couto e Silva, que marcou época e criou escola. A ideia era colonizar a Amazônia como forma de garantir a sua posse e para isso difundiram o conceito de “Inferno Verde”, definindo a natureza como inimiga natural do homem, aquela velha concepção de controlar as forças da natureza e não de criar uma convivência harmoniosa. A defesa do garimpo e dos garimpeiros e o estímulo ao avanço do agronegócio sobre a floresta vem da aderência a esses conceitos, amalgamados aos altíssimos interesses econômicos que criaram o enriquecimento de um grupo que jamais supera a sua ganância e a sua crueldade em relação aos povos da floresta. A implicância com a demarcação de terras indígenas e a liberação tácita e oficiosa dessa região como território livre e sem lei, levou aos assassinatos do indigenista Bruno Araújo e do jornalista inglês Dom Phillips, dois defensores dos direitos humanos e da natureza. Eles foram cruelmente mortos e seus corpos foram queimados por facínoras que não respeitam às leis, mas têm livre trânsito e o apoio do Brasil Bandido de Bolsonaro.

                A implementação de um Estado, onde os interesses econômicos superem qualquer possibilidade de alguma ética ou escrúpulo, passa por um des-governo que apoia e estimula atores para criar o caos e, obtendo êxito, neste projeto, demonstrar que somente sob o seu tacão poderá se restaurar a Velha Ordem, onde os pais fundadores e seus apóstolos reafirmam o reacionarismo, calcado em repressão, opressão e total desrespeito à democracia. É inseguro desafiar a Nova Ordem que quer refazer a Velha Ordem. É um paradoxo, mas é o que tenta criar Bolsonaro e seu grupo, que não respeitam a vida e os avanços sociais e científicos.

A ideologia que sustenta tudo isso não é uma invenção brasileira, mesmo com as suas peculiaridades, mas a sua origem está em pensadores que difundiram o conceito de uma igualdade abstrata imposto pelos constituintes de 1791, na França pós-revolucionária, criadores de uma Constituição cheia de privilégios intrínsecos, onde a igualdade social jamais foi contemplada. Emmanuel Joseph Sieyès criou a diferença que separava os cidadãos ativos dos cidadãos passivos. A discrepância entre eles é que os primeiros teriam direitos políticos completos e os outros somente direito a existir da forma que pudessem. Por fim, em 1795, Boissy d’Anglas, criou uma fórmula para explicar a ordem imposta depois dos atos de 1794, que levaram Robespierre e mais 22 jacobinos à guilhotina, chamada de “terror da direita”: “um país governado pelos proprietários é de ordem social, aquele onde os não-proprietários governam está em estado de natureza”. Não é, portanto, mera coincidência, nihilo nihil fit, afinal, a cultura ideologizada até as entranhas só poderia existir a partir da destruição completa do que está posto, daí se entende as ações dos grupos de extrema-direita pelo mundo visando criar o caos e desestabilizar todos os Estados democráticos, estando em que nível de consistência estiverem.

No Brasil Bandido, concebido por Bolsonaro e asseclas, existem milícias que invadem bairros populares e matam indiscriminadamente aos moldes do Esquadrão da Morte, organização paramilitar miliciana que aterrorizou o Rio de Janeiro na década de 1960, com o beneplácito da ditadura da época. O povo será indiscriminado na hora de ser aterrorizado pelos novos aparelhos paramilitares que serão criados, milícias que terão o apoio do Estado que ele sonha em criar. A Amazônia será um território livre para o agronegócio, para o garimpo e a pesca ilegal. Tudo isso está intrínseco na resposta que Bolsonaro deu ao jornalista inglês, Dom Phillips, covardemente assassinado a mando desses grupos. Perguntado por Dom Phillips sobre os projetos para a defesa da Amazônia, Bolsonaro visivelmente incomodado respondeu agressivamente. “Primeiro vocês têm que saber que a Amazônia é brasileira e não de vocês”.

Este é o país que sonham os neoconservadores, com um ditador tingido de presidente, mas a serviço dos super-ricos, porque se tornará um super-rico, afinal o patrimônio do seu filho mais velho já demonstra isso, o senador Flávio Bolsonaro aumentou o seu patrimônio, entre 2002 e 2018, em mais de 6.000% e recentemente comprou uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília, segundo ele, com recursos próprios do seu trabalho como advogado. Não esqueçamos que a sua loja de chocolate do Barra Shopping, no Rio de Janeiro, pela declaração do Ministério Público carioca, teria lavado até R$ 2,3 milhões com transações imobiliárias. Por fim, na véspera de Corpus Christi, Bolsonaro declarou: “Jesus não comprou pistola porque não tinha naquela época”.

Vinicius Todeschini 17-06-2022

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