Crónicas do Brasil | 02-08-2022 06:59

O Arquivador Maluco da República

Vinicius Todeschini

O grande palco das eleições 2022 está se abrindo e deverá ser um grande espetáculo, bufões de todos os tipos desfilarão seus delírios em montagens repetitivas e o adjetivo distorção será um mero eufemismo perto do que virá. Deus e todos os santos serão invocados para combaterem o mau combate, porque não existe nada sensato em amontoar camadas de mentiras sobre uma mentira original.

               Se não há denúncia, tampouco investigação, não se pode constatar a corrupção, mesmo que ela esteja presente de forma acintosa. Por isso, o procurador-geral da República, Augusto Aras, é a figura mais emblemática da atual política brasileira. Como chefe do Ministério Público Federal, esse personagem é capaz de se manter imperturbável diante de qualquer pedido de investigação contra o atual governo e, principalmente, contra o presidente da República. Ele foi nomeado por Bolsonaro e teve sua aprovação por duas vezes pelo Senado, o que corrobora um plenário de senadores pouco interessados na verdade dos fatos e comprometidos politicamente em manter as aparências democráticas. O Brasil passa por um momento interessante, porque a todo momento as suas instituições são estressadas pelo presidente da República, com declarações estapafúrdias e sem nenhuma comprovação de qualquer ordem, mas mesmo assim, Augusto Aras, consegue descriminalizar qualquer ação do presidente, mesmo que elas tenham custado vidas humanas, como no caso da pandemia. Pelo menos 200 mil vidas teriam sido poupadas se as vacinas fossem compradas quando foram oferecidas ao Brasil, garantem os cientistas.

                No livro Alice no País das Maravilhas, o Chapeleiro Maluco, personagem criada pelo escritor irlandês, Lewis Carroll, exibia um comportamento excêntrico, muito parecido com as reações decorrentes da intoxicação por mercúrio, que deu origem a Doença do Chapeleiro Maluco. Os profissionais que fabricavam chapéus eram expostos, exaustivamente, aos vapores de nitrato de mercúrio, substância que usavam para moldar os chapéus de feltros de lã. Esta doença ocupacional gerava certos sintomas, depois que a doença se tornava crônica, e o autor usou isso como parte da personalidade do seu personagem. Augusto Aras age de forma excêntrica, tem isso em comum com o Chapeleiro Maluco, mas a partir disso podemos comprovar que a sua excentricidade não provém da mesma doença, pois ele um arquivador e não um chapeleiro e não há fotos dele com chapéus. O procurador Geral da República age, na verdade, no seu próprio interesse, buscando juntar os cacos desse des-governo para criar a ilusão de um mosaico ordenado, quando na verdade só existe embriaguez pelo poder e gastos para garantir o futuro material e político do Clã Bolsonaro e de seus aliados mais próximos.

                O futuro desse cidadão é incerto, mas, certamente, ele já deve ter tudo muito bem costurado para, logo ali adiante, garantir uma polpuda aposentadoria às custas da República, a qual ele não zela. Existem, inclusive, conjecturas no Congresso para dar a Bolsonaro um cargo vitalício de senador, para garantir a sua segurança civil, o mantendo longe do alcance das garras da Justiça. Ninguém duvida que ele é um dos mentores desse projeto, junto com outros aliados do presidente. Augusto Aras está inscrito entre aqueles que mais prejudicaram o povo brasileiro em toda a sua história, pois é uma barreira que impede qualquer investigação e blinda o maior adversário da democracia brasileira de todos os crimes cometidos no atual mandato. Por fim, Bolsonaro continuará mantendo um público fiel, mas serão reduzidos ao que sempre foram, um bando de fascistas que farão qualquer coisa para justificar suas distorções. Ele é chamado de mito pelos seus seguidores, porque ele não corresponde à realidade.

                O grande palco das eleições 2022 está se abrindo e deverá ser um grande espetáculo, bufões de todos os tipos desfilarão seus delírios em montagens repetitivas e o adjetivo distorção será um mero eufemismo perto do que virá. Deus e todos os santos serão invocados para combaterem o mau combate, porque não existe nada sensato em amontoar camadas de mentiras sobre uma mentira original. Como não existem investigações oficiais sobre o presidente, por conta do “Arquivador Maluco da República”, todos os tipos de invencionices para justificar os seus crimes e erros serão usados. Os fluxos e o refluxos, esses movimentos que revolvem lentamente tudo que acontece no mundo, criando ciclos que começam e terminam sem nunca se fecharem completamente, onde os fatos acumulados são reescritos sem nenhuma limitação e nunca são exauridos em suas possibilidades, ressignificando-se em novas inscrições através do tempo, mostrará isso. Na República do Brasil os arquivos, atualmente, estão com sigilo de cem anos, baixados pelo presidente Bolsonaro, sigilos que não serão cumpridos pelo seu sucessor. Cem anos, definitivamente, estão fora do nosso alcance.

Vinicius Todeschini 31-07-2022

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal

    Edição nº 1587
    01-09-2021
    Capa Médio Tejo
    Edição nº 1587
    01-09-2021
    Capa Vale Tejo