Crónicas do Brasil | 30-08-2022 13:59

O Complexo de Bolsonarista

Vinicius Todeschini

O Brasil é um país de terceiro mundo, com uma desigualdade absurda, onde cerca de um terço da população vive na corda bamba da sobrevivência, enquanto mais de 33 milhões estão em insegurança alimentar pedindo comida nos sinais de trânsito, na frente dos supermercados e restaurantes e padarias.

                Ser bolsonarista é simplesmente negar a realidade para afirmar o mito, aquela forma explicativa há muito superada que fantasia antropomorficamente, remetendo tudo que não pode abarcar com a sua explicação ao status: se não cabe aqui não existe. Pensar para eles não é investigar os fatos e suspeitar da subjetividade envolvida no processo de observação, como um bom cientista costuma fazer, mas criar uma realidade paralela onde o mito é um deus de plantão e não existem fatos que o superem. O líder dos bolsonaristas negou que exista fome no Brasil, alegando que não é bem assim e que não se observa gente pedindo pão nas padarias. Se podem distorcer tanto a verdade, também podem negá-la. Por que não?

                Os apoiadores do atual presidente se sentiram injustiçados porque na sabatina de 40 minutos no Jornal Nacional da Rede Globo, o líder de audiência dos telejornais da tevê aberta, o tempo real que ele falou foi de 25 minutos e 28 segundos e Lula 30 minutos, mais 36 segundos. Isso deveria ser considerado bom pelos seus aliados, no fundo eles sabem disso, porque Bolsonaro falando é uma ameaça a si mesmo e a sua campanha, portanto, eles reclamaram por reflexo. É como o tempo de bola corrido no futebol, Lula teve mais tempo de bola corrida, porque, simplesmente, joga muito melhor que o seu principal adversário. Lula sobra quando joga e Bolsonaro é um perna de pau, em todos os aspectos.

                A mobilização constante dos apoiadores, cerca de 15% do eleitorado, que vota em Bolsonaro, sob qualquer circunstância, está ligada aos herdeiros de uma ideia maniqueísta, onde a esquerda, principalmente o PT, representa o fim dos valores que eles acreditam e para eles uma ditadura seria uma barreira para impedir o avanço dos valores democráticos e sociais, de participação e direitos a uma vida digna para todos os filhos da pátria. Esta é a sua forma de lutar contra o fato de viverem em um país de terceiro mundo, com uma desigualdade absurda, onde cerca de um terço da população vive na corda bamba da sobrevivência, enquanto mais de 33 milhões estão em insegurança alimentar pedindo comida nos sinais, na frente dos supermercados e restaurantes, inclusive padarias. Alegar que essas pessoas não vão à luta, sempre apelando para a meritocracia como solução é a única receita dos bolsonaristas.

                A complexidade do bolsonarismo começa quando saímos dos 15% e chegamos aos cerca de 30% que votarão em Bolsonaro, aí os interesses são contraditórios e há uma seleção cultural intrincada para entender o porquê desses 15%, além da bolha, votarem no atual presidente. Os interesses que os mantêm na mesma barca passam pelo vil metal, é óbvio. É ele que dá liga a esse grupo e faz com que pessoas que não tem nada em comum defendem um presidente que está fazendo o pior governo, desde a redemocratização do país, em 1989, quando o povo também se equivocou e votou “no caçador de marajás”, Collor de Mello, que foi defenestrado do poder, simplesmente por que não tinha um Centrão ao seu lado, nem um presidente da Câmara, como Lyra, muito menos um procurador geral como Aras. Se tivesse, teria terminado o seu mandato e concorrido à reeleição como Bolsonaro está fazendo.

                Os pentecostais representam uma base considerável dos bolsonaristas, porque é ali onde estão os fundamentalistas que apoiam intransigentemente o atual presidente e são uma base confiável que vota sob a direção dos pastores. Foram ridicularizados por muitos, mas hoje ninguém mais os subestima, porque são organizados e possuem a própria bancada no Congresso Nacional, portanto, ninguém mais se atreve a subestimá-los, pois cresceram absurdamente e estão no caminho iminente da superação dos católicos.

                O bolsonarismo, portanto, extrapola a própria figura do atual presidente, ele simplesmente é um catalisador da visão ultraconservadora que detesta tudo aquilo que significa mudança. A volta a ditadura, não é só por uma suposta crença nos militares, mas, simplesmente, a crença em um salvador da pátria capaz de remediar tudo que está desmoronando pela inação das elites brasileiras, que só sabem produzir riqueza para si e miséria para os outros e são incapazes de uma autocrítica e uma visão de pátria, onde todos são filhos da mesma terra e, portanto, merecem ter direitos e deveres iguais. Não, para esse grupo privatiza-se os lucros, socializa-se as despesas e quem estiver insatisfeito que vá embora, ou como diziam na ditadura: Brasil ame-o ou deixe-o. Para onde ir? Para que ir se não tem onde ficar? Nem lá, nem aqui.

Vinicius Todeschini 28-08-2022

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