Crónicas do Brasil | 02-09-2022 09:59

O Primeiro Debate

Vinicius Todeschini

Lula conhece a alma brasileira como poucos, por isso de todos os candidatos é o único que representa a possibilidade de ajustar alguns pontos, aparentemente indissociáveis, deste pobre e desmazelado país, que esbanja alegria no corpo, mas tem uma alma sorumbática.

                Os assessores de Bolsonaro desejavam –apenas- que ele não tivesse nenhuma explosão de raiva e distribuísse patadas, como é do seu feitio, entretanto, ele não resistiu e atacou de forma covarde a jornalista, Vera Magalhães, da Rede Cultura. Covarde, porque pelas regras do debate da Rede Bandeirantes, os jornalistas que fizessem as perguntas não teriam direito a uma réplica e ela não pôde responder ao ataque que sofreu. Ele já atacou a vários jornalistas, ele e os seus filhos, é claro, que saíram iguaizinhos ao pai. O debate foi ruim, porque o conjunto de regras criou um modelo de debate engessado, sem uma dinâmica que estimulasse um verdadeiro confronto de ideias e conceitos. Talvez tenha sido intencional, mas ao criar um modelo para tentar quebrar a polarização, que está consolidada, acabou criando um monstro que tornou o debate enfadonho para quem participasse e assistisse.

                Lula estava parcimonioso e evitou o conflito, tentando mostrar uma postura de estadista, o que não me parece uma boa estratégia, mas a sua assessoria pretende manter a continuidade dessa postura, enfim, estratégias muitas vezes mais prejudicam do que ajudam, porque muitas vezes descaracterizam o candidato. Lula sempre foi um político intuitivo com várias sacadas que funcionaram muito bem e não deveria ser tão dirigido a ponto de tolher a sua principal característica. No entanto, ele não resistiu e depois de ser chamado de ex-presidiário em duas oportunidades por Bolsonaro, obteve direito de resposta de 45 segundos para tentar replicar, mas sua fala final sequer foi ouvida, porque ultrapassou o tempo. Lula poderia ter ido bem melhor, mas terá outras oportunidades para se redimir.

                A Grande Mídia nacional investirá em modelos de debate para tentar ajudar a terceira via, porque não gostam de Bolsonaro e muito menos de Lula, por motivos bem diferentes, é claro. Lula representa um espinho para essas elites representadas pela Grande Mídia e, Bolsonaro, embora neoliberal, destoa do modelo de representante que desejam para o país. Os outros candidatos estão alinhados ao neoliberalismo, exceção a Ciro Gomes que busca amalgamar Mercado e Estado de uma forma que possa combater à fome e promover a educação, afinal o seu partido, PDT, foi criado por Leonel Brizola, cujo projeto educacional continua sendo o melhor apresentado até hoje por um político ou um grupo. Ciro corre contra as fortes tendências do eleitorado e, apesar de ser o melhor colocado da “Terceira Via” não conseguiu constituir alianças capazes de aumentar os seus 52 segundos de horário eleitoral. É a sua quarta candidatura à presidência e, provavelmente, a última, não tanto pela idade, mas uma quinta candidatura poderá ser desgastante demais e se tornar motivo de escárnio.

                Simone Tebet (MDB), Felipe D’Ávila (Novo), Soraya Thronicke (União Brasil) não representam nada de novo, são discursos surrados de candidatos sem grande consistência tentando quebrar a velha polarização que continua, desde os tempos do ARENA e do velho MDB, dos tempos da ditadura. O Partido Novo é o mais radical em termos de neoliberalismo, atenta para que o Mercado seja a tônica de todas as ações e o Estado seja reduzido ao mínimo, velho lema dos liberais que na prática é sempre hipócrita, como se viu na quebradeira de 2008 nos EUA, o maior representante do capitalismo mundial. Já o MDB que depois da ditadura virou PMDB é o partido que está sempre no governo e que nunca conseguiu criar um perfil claro e confiável, em cada região do país tem características próprias, podendo estar mais à direita ou à esquerda. O União Brasil é um partido conservador que tenta parecer moderno ao propor trocar todos os impostos por um único imposto federal, aumentando a centralização e o controle e dificultando ainda mais a independência federativa. A sua candidata apoiou Bolsonaro em 2018, portanto, não há nada de novo sob o sol dos trópicos, por isso, Lula, aos 76 anos, ainda é o único candidato capaz consubstanciar uma ideia que, apesar de conservadora em muitos aspectos, avança na área social, como demonstrou em seus governos passados. Claro que, tanto no passado como agora, Lula nunca se arriscou enfrentar o establishment sozinho, mas sempre em parceria com um conservador, como foi com José Alencar em 2002 e agora com Geraldo Alckmin. Lula conhece a alma brasileira como poucos, por isso de todos os candidatos é o único que representa a possibilidade de ajustar alguns pontos, aparentemente indissociáveis, deste pobre e desmazelado país, que esbanja alegria no corpo, mas tem uma alma sorumbática.

Vinicius Todeschini 30-08-2022

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