Crónicas do Brasil | 30-09-2022 09:59

Os estertores de um projeto messiânico e golpista

Vinicius Todeschini

O Brasil chama a atenção na atualidade, não por alguma inovação estética, mas justamente por uma crise ética sem precedentes, por isso nossas eleições estão a preocupar muitos observadores pelo mundo.

                Escrever sobre eleições é um grande desafio, principalmente quando se trata de um país que está apenas em sua proto-história democrática. O Brasil é assim mesmo, tragicamente imaturo e com muitas dificuldades para enxergar as suas próprias contradições e entendê-las, por isso o embate entre as forças progressistas e as reacionárias ainda cria muita confusão na cabeça das pessoas. Diga-se de passagem, que existe muita área obscura em qualquer ideologia que pode ser manipulada, em forma e conteúdo, dependendo do contexto e dos protagonistas. A palavra não encontra a verdade, porque a verdade é onde a palavra nunca foi, mas o esforço para chegar ao pé da montanha, se for para escalá-la, é válido. Afinal, se a montanha respondesse, ainda assim, ela diria do alto de uma montanha…

                No início do mês vindouro, mais perto do final do dia 02 de outubro, saberemos o resultado; se finaliza ou se ainda estenderemos um pouco mais o embate entre os dois candidatos polarizados na disputa pela presidência. O esforço do ex-presidente Lula é para ganhar agora, no primeiro turno, porque, no segundo turno, o pleito se tornará muito mais renhido e concentrado em apenas dois candidatos. Neste possível cenário haverá um acirramento dos ânimos ainda maior, pelo estímulo fascista e milicioso que o atual presidente e candidato à reeleição pontua a cada discurso.

A grande quantidade de armas liberadas no período desse governo tem muitos elementos velhos para produzir novas tragédias. O número de CACs (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador) cresceu assustadoramente no país e eles podem portar armas em qualquer itinerário. Isso abre um campo enorme de cooptação para as milícias que, antes, buscavam este recrutamento nas Forças Armadas, Bombeiros e Polícias. Outro dado alarmante é o número de armas da população civil, que dobrou, a média atual é de uma arma para cada cem pessoas. No final, a confirmação da desigualdade social pelos dados da própria tragédia, 78% das vítimas são negras. As periferias são territórios onde essas armas são testadas e usadas livremente pelos milicianos, traficantes e pelas Forças de Segurança, justamente onde vive a população mais exposta e fragilizada.  A presença das Forças de Segurança só existe quando acontecem grandes conflitos, deixando um rastro de sangue de bandidos e inocentes a cada operação, por isso não é à toa o clima de desconfiança em relação à polícia. Essas operações são feitas sem muitos esclarecimentos e terminam, invariavelmente, mal, além de nunca trazer uma solução ou qualquer tipo de paz a esses lugares.

                Independentemente do que aconteça, uma coisa é muito clara: o projeto de implementar um regime de força com o ex-capitão no comando falhou e falhou feio. Foram várias tentativas e todas elas feitas com avanços e recuos, porque dentro da estratégia fascista deveria acontecer um movimento de apoio popular, mesmo que segmentada, concomitantemente, mas isso não aconteceu, apenas os setores mais reacionários, amalgamados aos oportunistas de plantão, aderiram, o que corresponde aos 30% de Bolsonaro –15% de reacionários recalcitrantes e 15% de oportunistas. 

Bolsonaro é aquele ser que desafia e blefa muito, mas depois que coloca as suas cartas na mesa, se a derrota é iminente, tenta desacreditar o próprio jogo que o colocou naquela posição. Não há nenhum compromisso com nada a não ser manter o poder e o dinheiro que o Clã Bolsonaro tem conseguido, afinal foram 107 imóveis, desde 1990, 51 com dinheiro vivo. O seu maior temor é ser preso, o que poderá acontecer, muito embora a Justiça Brasileira conserve com rigor a sua tendência de colocar panos quentes por cima das falcatruas de figuras públicas. Existem muitas investigações em curso, mas ainda passarão muito anos até que se construa um Estado com força suficiente para executar ações efetivas sobre os poderosos do país, enquanto isso, Temer e Bolsonaro, entre tantos, continuarão flanando pela cena política da Contemporânea Terra Brasilis. O Brasil chama a atenção na atualidade, não por alguma inovação estética, mas justamente por uma crise ética sem precedentes, por isso nossas eleições estão a preocupar muitos observadores pelo mundo. Interpretações tentam dar conta, com dados e analogias históricas, mas os contextos sempre são diferentes e a história nos ensina que a experiência tem pouca serventia diante do novo, a realidade, que a tudo mediatiza, esmaga os velhos discursos como a mó ao grão. 

Vinicius Todeschini 27-09-2022

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