Crónicas do Brasil | 07-10-2022 16:32

Manual de Sobrevivência Brasil

Vinicius Todeschini

Para manter este “Manual de Sobrevivência Brasil” atualizado é preciso estar atento e forte, como diz uma canção de Caetano e Gil, mas também é preciso entender que a Esquerda perdeu território geográfico e simbólico por veleidades acadêmicas, muitas vezes defendendo as ideias de Paulo Freire sem viver as suas práxis.

                O Brasil está como alguém que, depois de muitas sessões de análise tem um insight, e vê manifesto o que carregou latente durante toda a sua vida, algo que não lhe deixou viver plenamente. O Brasil está em efervescência. A revelação é muito forte e, mesmo com os olhos abertos, não consegue enxergar, por um tempo, um palmo adiante do nariz, porque há um alumbramento.  É naif tentar explicar o que não se sabe o que é quando foi e, ao mesmo tempo, quando se entende o que é, já é outra coisa, sem deixar de ser a sua própria representação. Mesmo parecendo complicado o princípio é simples, mas a simplicidade acaba aí, porque os desdobramentos desse princípio só podem ser entendidos em movimento, são dinâmicos, se movem por padrões e por impulsos imprevisíveis, ao mesmo tempo. Por isso chamar um país de conservador é simplismo, nenhum país é, absolutamente, homogêneo

                A ideia fixa de alguns, sobre um Brasil conservador, é um exemplo perfeito para entender o porquê não entendemos o Brasil. O vertiginoso crescimento dos evangélicos, guiados por líderes com um projeto de poder para dominar, política e culturalmente o país, é um fator novo de desequilíbrio dentro dessa dinâmica intrincada de Jogos de Poder e de Guerra. A ideia de sermos um país conservador, tão disseminada por esse grupo, atende interesses específicos, porque chegaram à conclusão que para vencer a guerra deveriam usar a mesma estratégia do inimigo, no caso a Esquerda, que, segundo seus ideólogos, depois de um longo processo de cooptação e aculturamento, teriam feito uma profunda lavagem cerebral em gerações e gerações de jovens brasileiros. Tese digna de uma Teoria da Conspiração, mas não! O equívoco continua em desdobramentos infindáveis, criando bases para um retrocesso maniqueísta e medieval, retroagindo éons para justificar uma ideologia seletivamente negacionista da evolução científica.

                O que está em jogo na eleição do dia 30 de outubro, data da votação no segundo turno, é uma Guerra Cultural, onde os aliados do presidente -paramentado de democrata- mas fascista, tentam dar uma conotação de Guerra Santa, tentando demonizar a Esquerda e confundindo parte da população com uma pauta de costumes medieval e sem consistência, diante de Era da Informação. O fato de Damares Alves, ex-ministra de Bolsonaro, ser eleita senadora pelo Distrito Federal é significativo, afinal Brasília é uma ilha cercada de cidades satélites por todos os lados e ali se concentra a pobreza. Pessoas pobres votando em representantes dos interesses dos ricos e poderosos, confirma a extensão do lumpesinato brasileiro e, também, como a Esquerda se academicizou e foi perdendo o contato direto com as pessoas mais simples, justamente onde a extrema-direita percebeu uma oportunidade e se infiltrou, com sua pauta de valores reacionária e preconceituosa, criando mecanismos de manipulação, suficientemente fortes, para manter, boa parte dessa população refém desses mecanismos balizadores do seu próprio pensamento.

                Para manter este “Manual de Sobrevivência Brasil” atualizado é preciso estar atento e forte, como diz uma canção de Caetano e Gil, mas também é preciso entender que a Esquerda perdeu território geográfico e simbólico por veleidades acadêmicas, muitas vezes defendendo as ideias de Paulo Freire sem viver as suas práxis; outras vezes não confessando a sua própria ignorância diante de um novo tempo, onde o velho sempre perde.  Os discursos que se tornaram anacrônicos para as novas gerações, a falta de reconhecimento da sabedoria popular (além do folclore já aceito) criou um solo rico em nutrientes para o crescimento de plantas daninhas que se tornaram árvores frondosas e fazem sombra a essa Esquerda desconectada, que preferiu a seara das discussões intermináveis em torno próprio umbigo. O presidente Lula -depois de um longo calvário- parece ter despertado do sono dos justos e está demonstrando ter entrado em forma, dimensionando o tamanho do inimigo e do estrago já feito pela artilharia bolsonarista, sem nenhum escrúpulo. A voz de Lula parece ecoar a lucidez necessária para superar, nessa última batalha eleitoral, as potestades que jamais deveriam ter sido subestimadas pelos que desejam um mundo diferente. No entanto, para voltar a sonhar com ele, até uma Utopia precisa de matéria prima para ser sonhada e essa matéria é a esperança, aquela que Pandora conseguiu não perder quando abriu a tal caixa.

Vinicius Todeschini 07-10-2022

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