Crónicas do Brasil | 03-11-2022 11:59

Como derrotar um fascista

Vinicius Todeschini

Estamos mergulhados em uma crise valores sem precedentes, porque neste entrecruzamento da história brasileira, os choques entre valores fundamentalistas e uma pauta de novas discussões, que se impõe diante das novas conquistas sociais das mulheres, da população LBGTQA+, e de outros segmentos da população, discriminados por gênero, cor e, principalmente, por procedência, levou o país a uma profunda divisão ( : ) O Brasil tem muitas caras e muitas máscaras e nenhuma delas, caras e máscaras, respondem o que se quer saber.

                Os movimentos fascistas são como doenças causadas por agentes oportunistas que vivem em determinado organismo sem causar dano algum, mas quando esse organismo enfraquece eles se multiplicam até destruírem tudo à sua volta, se não forem contidos rapidamente. As grandes desilusões nacionais com grupos, partidos e organizações que falharam, miseravelmente, em seus compromissos e objetivos dão o impulso necessário para isso. O fascismo, por sua parte, mantém os seus representantes em campanha permanente, sempre com a mesma cantilena e prontos para chegar ao poder, muitas vezes democraticamente, para só depois, empoderados legalmente, implementar reformas totalitárias e concentradoras de poder. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil, o país perdeu em direitos sociais com uma Reforma Trabalhista e uma Reforma da Previdência, feitas, respectivamente, por Temer e Bolsonaro, que fragilizou ainda mais a rede social de proteção da saúde, do trabalho e da previdência da maior parte da população, apenas os ricos e os super-ricos não foram atingidos, como é regra no país da desigualdade.

                O Brasil vem perdendo, pouco a pouco, as conquistas sociais da Constituição Social de 1988 -a Constituição Cidadã- uma grande conquista de todo o povo. No decorrer dos anos, os liberais e os golpistas se aproximaram cada vez mais, sempre pelo escopo de diminuir os custos sociais do país, cortando despesas com Educação, Saúde e Previdência, mas sem restringir os custos dos privilégios de uma casta da população -os privilegiados- esses jamais são atingidos em seus interesses e riquezas. Essas mesmas castas que controlam o país há séculos, compreenderam, desde muito cedo, que para manter seus privilégios tinham que aculturar o povo a uma realidade imutável e tradicional, como tudo mais que é inventado e mantido por gerações, por bem ou por mal. O grande bastião do seu projeto sempre foi retardar o acesso da educação de qualidade ao povo, por isso é tão difícil para a extrema-direita aceitar Paulo Freire, porque ele desnuda a Educação no Brasil e vai além; propõe uma solução real. Darcy Ribeiro e Leonel Brizola também são odiados, pois, com o seu projeto revolucionário de Educação Integral, que foi implementado no estado do Rio de Janeiro quando Brizola se tornou governador desse estado, mostraram que é possível mudar o que parece ser uma maldição, quando na verdade é somente uma injustiça.

                Estamos mergulhados em uma crise valores sem precedentes, porque neste entrecruzamento da história brasileira, os choques entre valores fundamentalistas e uma pauta de novas discussões, que se impõe diante das novas conquistas sociais das mulheres, da população LBGTQA+, e de outros segmentos da população, discriminados por gênero, cor e, principalmente, por procedência, levou o país a uma profunda divisão. As eleições são uma cristalização complexa disso, um mosaico que aos poucos se adapta a uma dicotomia, tentando mostrar uma cara que nunca é homogênea, nem nunca será. Cazuza queria que o Brasil mostrasse a sua cara, mas ele se foi em 1990 e, naquela época, o mosaico era menos complexo do que agora ou, pelo menos, assim parecia. O Brasil tem muitas caras e muitas máscaras e nenhuma delas, caras e máscaras, respondem o que se quer saber. No futuro se olhará para esta época e haverá tantos registros, em função da Revolução Digital em plena expansão, que haverá subsídios para todos os gostos e estilos tentarem definir o turbulento começo do século XXI.

                Com Lula na presidência haverá um governo muito além da Esquerda, porque o presidente eleito organizou uma Frente contra a Extrema-Direita e seus métodos. No entanto, é preciso aprender as lições de 2018, porque ali todos os pecados da Esquerda foram usados contra ela, de forma virulenta e massivamente divulgados pela grande capilaridade digital dos bolsonaristas, apreendidas junto à Extrema-Direita Americana. É preciso compreender o interior, porque ali ainda existem muitas pessoas que chamam intelectuais e artistas de vagabundos, mesmo que exijam dos filhos estudos obrigatórios para se tornarem doutores, mas ainda assim não conseguem ou não querem, dissociar trabalho intelectual e artístico, de vagabundagem. Sim, existe uma indústria de mestrados, doutorados e pós-graduações, mas isso não anula o fato que todo o conhecimento é válido, mesmo que esteja impregnado de ideologia, porque em tudo há intencionalidade, como escreveu Husserl, o mesmo que foi demitido pelo seu discípulo Heidegger, empoderado pelos nazistas como reitor da Universidade de Freiburg. Derrotar um fascista não é tarefa fácil, pois são como carrapatos quando chegam ao poder, mas na sua força reside a sua fraqueza, pois todo ditador acaba acreditando ser imbatível e infalível quando está no auge do poder e passa a colecionar inimigos mortais que irão destruí-los assim que puderem, o que inevitavelmente acaba por acontecer. Bolsonaro perdeu, mas o verdadeiro desafio é manter o fascismo assim: derrotado!

Vinicius Todeschini 31-10-2022

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