Crónicas do Brasil | 08-12-2022 11:28

Fascistas também choram...

Vinicius Todeschini

O Brasil é um país curioso, por aqui a monarquia acabou, mas as vantagens de alguns cargos públicos remetem àquela época, onde os aristocratas acumulavam vantagens vitalícias. Somos uma república monarquista.

Pois então, Bolsonaro chorou em um evento militar. Erisipela à parte, todos os fascistas choraram em algum momento, mas porque os seus planos não saíram como o planejado e na profunda melancolia final choraram lágrimas de crocodilo. Bolsonaro, no entanto, não deve ser subestimado, porque tem ao seu lado todo um substrato inconsciente de uma cultura -ainda naif- em relação à política. O Brasil não passou, como a Europa em geral e muitos países de outros continentes, por grandes convulsões sociais, aqui os movimentos revolucionários esbarraram em uma população sem nenhuma formação política e profundamente mergulhada em ignorância e misticismo. Por isso esses movimentos sempre ficaram restritos aos comandos de caudilhos e militares revoltados contra as velhas elites, portuguesas de início e depois, já devidamente colonizadas, brasileiras.
Muitos dizem por aqui que o velho capitão ficará permanentemente desolado pela derrota para o ex-presidente Lula, que como uma fênix renascida das cinzas voltou gloriosamente para o lugar que parece ser seu, o do maior líder contemporâneo brasileiro. Inconformado, Bolsonaro ficou deprimido e somatizou, é fato, mas como consolo ganhou uma aposentadoria como deputado de mais de R$ 30 mil reais, autorizado pelo seu aliado, o presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lyra. Somado às mordomias como ex-presidente e mais o dinheiro do PL, seu partido, ele estará pronto para continuar pregando mentiras e espalhando fake news à vontade, assim que se recuperar, afinal foi uma derrota por pontos e não por nocaute, como eu havia previsto.
O Brasil é um país curioso, por aqui a monarquia acabou, mas as vantagens de alguns cargos públicos remetem àquela época, onde os aristocratas acumulavam vantagens vitalícias. Somos uma república monarquista. Os acúmulos de vantagens são responsáveis pela grande distorção nos gastos públicos. Os juízes e desembargadores, por exemplo, entre 2014 e 2019 custaram aos cofres públicos cerca de R$ 10 bilhões de reais. Os acréscimos nos salários tornam quase impossível precisar o salário de cada funcionário do alto escalão da magistratura, mas apenas para ilustrar o desvirtuamento, a União paga auxílios saúde, moradia, pré-escolar, além de horas extras, adicional noturno, indenização por férias não tiradas, que no caso dos magistrados são duas por ano, entre outras coisas. As distorções também mudam por região, existem estados que pagam mais que outros, mas 54% dos juízes recebem acima do teto regulamentado pela lei brasileira. Em 2019 um juiz estadual de Minas Gerais recebeu R$ 647 mil reais de indenização por férias não tiradas. O Brasil gasta 1/5% do PIB com altos salários da magistratura e a Espanha 0,54%, três vezes menos. Esses dados não incluem o STF e a Justiça Eleitoral. O Poder Judiciário ainda é insondável em seus altos escalões.
Por isso, chegar ao poder no Brasil é o máximo em vantagens e garantias para si e para os seus descendentes, muitas vezes tornando isso vitalício, como é o caso de filhas de militares que continuam recebendo as pensões dos pais falecidos. Bolsonaro criou os filhos para serem políticos, porque foi reformado muito cedo pelo exército, com apenas 32 anos. A causa da reforma precoce todos sabem, ele só foi salvo pela amizade de um general que pertencia ao STM (Superior Tribunal Militar). O general Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército à época, rompeu com esse general por conta deste fato. Os seus filhos se elegeram, por ordem de idade: senador (01), vereador (02) e deputado federal (03), como são mais conhecidos por aqui e demonstraram no poder serem iguaizinhos ao pai que os ensinou a serem fascistas desde pequenos, mas como se diz, não se faz o mesmo pão sem a mesma farinha. O país tem um longo caminho pela frente para a sua redenção e o presidente eleito terá a dura tarefa de reconstruir estruturas que foram sucateadas pelo desgoverno bolsonarista. A PEC da Transição é só um remédio onde há necessidade de uma cirurgia.

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