Crónicas do Brasil | 13-12-2022 08:37

Uma seleção que não nos representa

Vinicius Todeschini

Quando assistimos os vídeos da seleção de 1970, a impressão é que o futebol está em outra velocidade, os jogadores correm menos, mas a bola, ela sim, parece correr e voar com virtuosismo. Hoje é o contrário, os jogadores correm como atletas olímpicos e a bola, bem, a bola não é mais a mesma. Hoje em dia os dribles são em velocidade, os jogadores colocam a bola na frente do adversário e através da imposição física vencem o marcador, eventualmente.

O Brasil completou a quinta Copa do Mundo sem chegar a uma final. Que Fase! A identificação que havia, principalmente até 1982, com jogadores que nos representavam em futebol e atitudes foi se deteriorando até chegar a este ponto: onde não existe praticamente mais nada, além de carne folheada a ouro e dancinhas sem melodia. A CBF, recheada de escândalos de corrupção e assédio moral por parte dos seus dirigentes, se notabilizou em arrecadar fortunas e mimar jogadores que, apesar de serem oriundos -em sua maioria- de classes sociais mais pobres, perderam, na medida em que enriqueciam, qualquer empatia com as suas origens. Exceções também existem, mas somente para justificar esta regra cruel. Richarlison é uma delas, porém não me ocorre mais nenhuma, todos os outros parecem estrangeiros.
O episódio da carne com ouro é emblemático e confirma que o consumo se transformou na medida de todas as coisas e tudo é regulado pelo poder de consumir de cada um e pouca coisa mais importa, além disso. O Brasil é um país pobre e as suas mazelas sociais seriam suficientes para regar completamente o Deserto do Saara com lágrimas, mas o interesse dos mais ricos está dirigido tão somente às Leis do Mercado; leia-se a Lei dos Poderosos. Os altos investimentos e a incrível mobilização contra o presidente eleito corroboram isso, pois a cada indicação de um novo ministro pelo presidente Lula, o “Mercado” reage, sinalizando que não concorda com mudanças sociais significativas que possam alterar esta ordem social perversa.
No campo o que se viu, depois de oito anos do treinador/pastor, Tite, foi uma seleção sem garra e pouquíssima capacidade de improvisação, muito mais preocupada em ensaiar dancinhas para comemorar gols que, afinal, foram poucos e nada diferenciados, aliás, o futebol brasileiro depois de 1982 é uma grande planície. O fenômeno da descaracterização de um futebol que criou tantos craques lendários é fruto, também, do desaparecimento dos campinhos de futebol nos bairros, onde o futebol praticado era, justamente, o que criou as bases do futebol brasileiro, que já foi, disparado, o melhor do mundo, mas já não é mais há muito tempo. A nova formação de jogadores em escolinhas, com métodos acadêmicos e científicos, foi desconstruindo, gradualmente, a capacidade de improvisação e a variedade de estilos, homogeneizando os novos jogadores e tolhendo o seu talento natural em prol de sistemas alienígenas ao nosso povo. Sim, o povo, porque é daí que nascem os craques e eles estão rareando por aqui e surgindo em outros países. Aquele futebol apresentado pelas seleções de 1970 e 1982, com grandes craques inventando jogadas improváveis e tornando simples coisas impossíveis, desapareceu.
Quando assistimos os vídeos da seleção de 1970, a impressão é que o futebol está em outra velocidade, os jogadores correm menos, mas a bola, ela sim, parece correr e voar com virtuosismo. Hoje é o contrário, os jogadores correm como atletas olímpicos e a bola, bem, a bola não é mais a mesma. Hoje em dia os dribles são em velocidade, os jogadores colocam a bola na frente do adversário e através da imposição física vencem o marcador, eventualmente. É raro se ver um drible de corpo como um jogador de Marrocos aplicou, apenas com o corpo, em um adversário espanhol. Messi ainda é uma exceção, pois, mesmo driblando em velocidade, demonstra uma habilidade inigualável com a bola nos pés e raramente é derrubado pelos zagueiros e volantes, todos muito maiores e mais fortes que eles.
O Brasil ganhou em 1994 e 2002, mas com um futebol completamente diferente da nossa tradição. Foram equipes pragmáticas que apostaram em alguns jogadores diferenciados e o restante da equipe jogando para eles. Em 1996, Bebeto e Romário e, em 2002, Rivaldo e Ronaldo. Ronaldinho jogou em 2002, mas não lembrou, nem de perto, a não ser por alguns lampejos, o mesmo jogador do Barcelona. E assim, de Copa em Copa, o Brasil decepciona e perde cada vez mais a admiração do mundo, que já saudou o escrete brasileiro pelas grandes campanhas, mesmo não ganhando, como em 1982, onde encantou a todos e fez com que, Pep Guardiola, se apaixonasse pelo nosso futebol e, ao tentar imitá-lo, criasse o seu estilo. Hoje em dia, ironicamente, as grandes seleções estão se beneficiando da dupla nacionalidade dos seus jogadores, fruto de um colonialismo cruel imposto aos seus países de origem. A vingança dos explorados é transformar os seus descendentes em ídolos e milionários, justamente nas nações que espoliaram as terras dos seus antepassados e os condenaram à escravidão e à morte extemporânea.
Vinicius Todeschini 12-12-2022

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