Crónicas do Brasil | 23-12-2022 09:56

Os Inimigos do Rei

Vinicius Todeschini

Ser brasileiro, atualmente, é conviver com o surrealismo dos bolsonaristas recalcitrantes e com o cinismo barato de uma classe privilegiada que, entra governo sai governo, continua usufruindo de todas as vantagens, a despeito de qualquer compromisso social com o país e o seu povo.

Como seria a nossa sociedade, caso conceitos como o mutualismo de Proudhon tivessem vingado? Ele se opunha ao controle do Estado e defendia, dentro deste conceito norteador, formas de propriedade e distribuição de renda que permitissem ao indivíduo se libertar das garras do controle estatal e do liberalismo econômico, onde quem controla são os abastados, através de vários mecanismos sintetizados em uma palavra; Mercado. Certamente muitos acham isso absurdo, porque estão aculturados a tal ponto por estes valores, que pensam ser impossível uma sociedade funcionar sem esses mecanismos.
A criação de instituições alternativas mudaria os conceitos que temos das atuais e, principalmente, a total dependência delas em todos os níveis, como acontece hoje. Os bancos são um bom exemplo dessa dependência. Aqui no Brasil, há pouco tempo, uma greve de bancários afetaria toda a cadeia produtiva e paralisaria muitos setores, atrasando o funcionamento rotineiro das empresas e dos serviços. Hoje, isso não acontece mais, os movimentos grevistas nesse setor, quando eles existem, passam despercebidos, enquanto o número de agências fechadas não para de crescer, com os serviços dos trabalhadores sendo substituídos pelos aplicativos.
O capitalismo pode não acabar tão cedo, mas até quando o planeta suportará o crescimento contínuo proposto por este sistema? O desemprego, pela substituição de pessoas por máquinas com inteligência artificial, aponta contradições que se tornarão insuperáveis através da lógica capitalista. O meio ambiente precisa de um choque reverso para não sucumbir ao desastre definitivo, com consequências incalculáveis para todos, porque, mesmo os mais ricos não poderão se refugiar em outro planeta. A Terra é a nossa nave e sem ela não sobreviveremos. Isso, no entanto, parece não afligir a maioria, principalmente os que têm poder para realmente mudar este caminho com a premência que o desafio aponta.
Os caminhos da democracia são os únicos que podem criar soluções pacíficas e revolucionárias em todos os sentidos e em todos os níveis transformadores, mas para isso acontecer é preciso avançar além da visão criada pelas bases atuais. Se todos temem o caos e as guerras sangrentas, como a que está acontecendo na Ucrânia, temem, somente, que aconteça perto ou no seu próprio país. O nosso egoísmo entranhado por séculos de domínio das ambições culminou com um sistema predatório que, além de ameaçar tantas espécies, agora se vê na iminência de estar criando a sua própria extinção. Com armas nucleares à disposição de tantos ditadores o risco de um colapso é iminente, enquanto o delírio desenvolvimentista sem nenhuma harmonia com o planeta continua em curso.
Com a decadência da monarquia e o surgimento das repúblicas os aristocratas mudaram de nome. A Revolução Burguesa na França, depois do morticínio, pariu novas bases para criar desigualdades ainda maiores, em um mundo que atingiu recentemente oito bilhões de habitantes. As novas segmentações sociais, onde a mobilidade só existe através do enriquecimento rápido, acrescentaram mais dificuldades teóricas para os conceitos críticos ao capitalismo ressignificar os problemas sociais, criados pelo neoliberalismo globalizado e voraz. Justiça seja feita a Karl Polanyi, o seu conceito de imersão sintetiza melhor o que acontece hoje: “os indivíduos e suas relações encontram-se imersos em instituições culturais historicamente constituídas que os condicionam”.
No Brasil, o capitalismo globalizado chegou junto com a redemocratização e a infeliz escolha dos brasileiros por Collor de Mello, em 1989. A abertura da economia, fechada pelos militares ditadores, expôs ainda mais as nossas contradições e, se não foi a causa principal do aprofundamento da miséria, que só recuou nos governos Lula e Dilma, escancarou para o mundo um país profundamente desigual e injusto. O país verdadeiro apareceu, para todos que colocam a verdade acima dos seus interesses. Ser brasileiro, atualmente, é conviver com o surrealismo dos bolsonaristas recalcitrantes e com o cinismo barato de uma classe privilegiada que, entra governo sai governo, continua usufruindo de todas as vantagens, a despeito de qualquer compromisso social com o país e o seu povo.
Os inimigos do rei certamente apoiarão quem defender o fim dos privilégios e os avanços sociais, mas como fazer tais mudanças com governos profundamente comprometidos com o que está posto e cristalizado? Não há perspectiva real de mudança estrutural a curto e médio prazo, porque o governo que entra precisa remediar os malfeitos por Bolsonaro e avançar parece improvável neste horizonte claro-escuro. Governar, tendo como presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e com o PL, partido de Bolsonaro, tendo a maior bancada do Congresso será tarefa perigosa, mesmo para Lula, famoso pela sua capacidade de negociação. Parte do Brasil delira sem arte/E com arte a outra parte passa fome/Misturar uma parte na outra parte/É uma questão de vida e morte/Será vida? Será morte?

Vinicius Todeschini 21-12-2022

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