Crónicas do Brasil | 03-01-2023 10:06

Lula falou e disse

Vinicius Todeschini

Os brasileiros, em sua maioria, estão cansados de avançar, parar e retroceder, precisamos caminhar sempre em frente para o país alcançar a estabilidade fundamental e o seu povo não ficar mais sujeito a aventureiros como Bolsonaro. É preciso superar a metáfora criada por Stefan Zweig ( : ) e aperfeiçoar a nossa democracia para superar com mais eficácia os nossos defeitos e cumprir um papel mais relevante no mundo, para que a grandeza deste país, cantada em prosa e verso, possa ser, definitivamente, justificada.

O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin afirmou que o maior desastre do governo anterior foi na área da Saúde. Ele liderou a equipe de transição e por isso a sua opinião tem muito peso, mas o que foi destruído nos últimos quatro anos ultrapassará qualquer avaliação inicial, disto ninguém duvida. O SUS-Sistema Único de Saúde, criado em 1988, é motivo de orgulho para os brasileiros e não foi à toa que o ex-presidente americano, Barack Obama, buscou elementos da sua constituição para usar como modelo do seu programa, Obamacare, como ficou conhecido o Affordable Care Act (ACA). O programa acabou sendo desconstruído por Trump de várias maneiras, uma delas foi a indicação de Amy Coney Barrett, para a Suprema Corte. Vale lembrar que nos EUA o acesso à Saúde é um problema estrutural, com planos de saúde caros e atendimentos particulares inalcançáveis para a grande maioria.

O estrago causado por um governo que veio com o propósito de destruir tudo que encontrasse pela frente, na tentativa de mandar a seguinte mensagem para a população: só o empreendedorismo e a meritocracia poderiam mudar as suas vidas, foi terrível Com um terço da população vivendo na corda bamba entre a pobreza e a miséria absoluta -alguns afirmam que são cerca de cem milhões de brasileiros vivendo nesta condição- acreditar que, sem nenhum investimento social e assistencial, se possa mudar isso é um completo absurdo. O objetivo, obviamente, era levar o povo abandonado a algum tipo de revolta para justificar um golpe de estado e implodir o sistema democrático de dentro para fora, mas subestimaram as instituições democráticas, que resistiram bravamente ao assédio insidioso e constante de Bolsonaro e seu grupo. O golpe falhou e o regime discricionário almejado não foi estabelecido.

Bolsonaristas atacam em redes sociais incessantemente, mas sem apresentar os fatos. Negam o óbvio! Seus acampamentos ao lado dos quartéis são uma amostra patética do quanto uma parte da população pode descambar para o fanatismo. Celulares na testa para invocar extraterrenos, marcha unida para imitar militares, cânticos patrióticos sem qualquer data alusiva e mais uma miríade de atitudes obtusas que ultrapassam qualquer sensatez ou mesmo alguma possibilidade de humor, pela sua bizarrice e pelo terror que encerram. Quem escreve e publica está sujeito a ser atacado, mesmo que se respalde com informações confirmadas e um discurso coerente com o seu propósito. Nada disso é garantia que seja respeitado e contestado em bases reais e com bons argumentos. O escopo desta franja da população é apenas continuar promovendo uma guerra cultural sem nenhum sentido e com um final destinado ao fracasso. Serão temas para novos documentários que registrarão, sob vários ângulos, mais uma tentativa tirânica de tomar o poder, assim como aconteceu na Bolívia recentemente.

O discurso de Lula pontuou questões fundamentais e quem o ouviu na íntegra não deve ter se decepcionado. Sem jamais descambar para o revanchismo, no entanto, não apontou para nenhuma possibilidade de anistia, assinalando que existem leis e quem não as respeitou será, mais cedo ou mais tarde, responsabilizado e responderá pelos seus atos. Os brasileiros, em sua maioria, estão cansados de avançar, parar e retroceder, precisamos caminhar sempre em frente e sem mais retrocessos, para o país alcançar a estabilidade fundamental e o seu povo não ficar mais sujeito a aventureiros como Bolsonaro. É preciso superar a metáfora criada por Stefan Zweig, “O País do Futuro”. Somos o maior país de língua portuguesa no mundo e precisamos aperfeiçoar a nossa democracia para superar com mais eficácia os nossos defeitos e cumprir um papel mais relevante no mundo, para que a grandeza desse país, cantada em prosa e verso, possa ser, definitivamente, justificada.

Quando o presidente diz que a verdadeira vitória é da democracia demonstra consciência, porque ela resistiu a todo sorte de ataques, que aumentava todos os dias durante os trágicos quatro anos do bolsonarismo no poder. Lula continua nesta linha ao confirmar as insistentes tentativas de destruição do que foi construído, desde 1988, com a promulgação da Constituição Cidadã, assim chamada por Ulysses Guimarães, o presidente da Assembleia Constituinte. Aconteceram demolições em diversos setores e ele elenca os na Educação, na Cultura, Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente e, principalmente, na Saúde. “É sobre estas terríveis ruínas que assumo o compromisso de, junto com o povo brasileiro, reconstruir o país e fazer novamente um Brasil de todos para todos”, com esta sentença Lula reafirma mais uma vez o significante reconstrução. Não esquece de falar que o Brasil, através de um governo negacionista, foi o país que, proporcionalmente à população, teve a maior quantidade de vítimas fatais, o que caracteriza um crime lesa-humanidade, reconhecido por todos os organismos internacionais, porque o governo tinha recursos para evitar isso. Nos cabe colaborar e torcer para que tudo funcione da melhor maneira possível, mas já esperando uma oposição terrível, pronta para boicotar, distorcer e acusar o novo governo de comunista, por exemplo. Mas não passarão, se enredarão em suas próprias teias de mentiras.

Vinicius Todeschini 01-02-2023

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