Crónicas do Brasil | 07-01-2023 18:26

O mercado está nervoso

Vinicius Todeschini

No Brasil, estamos saindo do pior governo da nossa história recente, que aumentou em 54% o desmatamento na Amazônia e o Brasil, que já foi referência nessa área, precisa voltar urgentemente a desempenhar este papel, mas para isso é necessário reconstruir tudo o que foi destruído em relação às estruturas desta área.

O governo mal começou e os consultores capitalistas que assessoram as grandes empresas já estão indignados com Lula, porque ele suspendeu várias privatizações. Empresas estatais lucrativas não são bem-vistas pelo mercado. O lucro, aliás, é algo de difícil definição: fruto da exploração do trabalho, resultando em mais-valia? Marx é odiado pelos capitalistas porque as suas críticas ainda são válidas, mesmo depois de tanto tempo. Adam Smith não era um ingênuo, mesmo que tenha escrito que os mais ricos ajudariam os mais pobres. É dele esta frase: “Nenhuma nação pode florescer e ser feliz enquanto grande parte dos seus membros for formada de pobres e miseráveis”. Ele seria taxado de comunista pelos bolsonaristas, porque acreditava que a riqueza de uma nação se media pela riqueza do seu povo e não pela riqueza dos seus príncipes.

O fim do lastro do ouro como garantia para a emissão de moedas, no início da década de 70, e a abertura forçada de mercados de capital, combinado com a desregulamentação econômica promovida pelos americanos, na década de 80, fez com que políticas desenvolvimentistas entrassem em decadência. O fim de uma Era, por isso os mais ricos já não são mais os capitães de indústria, criadores de novas oportunidades para milhões e sim os que detêm e manipulam os capitais, porque estas novas modalidades financeiras se tornaram mais eficientes para enriquecer. O sólido virou líquido.

O Meio Ambiente se tornou uma questão vital e o presidente Biden é um dos chefes de Estado que se comprometeu em reduzir as emissões de gás de efeito estufa em 50% em seu país, muito embora o futuro pertença a Deus e a nenhum homem, por mais poderoso que seja. A verdade é que ele está certo em promover esta mudança, mas terá que contar com a política e a vitória de políticos que pensem que como ele para isso se tornar realidade permanente nos EUA. Dentro de dois anos haverá eleições e a sua política econômica para a geração de novos empregos contará mais para ganhar as eleições do que a sua política sobre o clima, mesmo ela sendo fundamental para a nossa própria sobrevivência.

No Brasil, estamos saindo do pior governo da nossa história recente, que aumentou em 54% o desmatamento na Amazônia e o Brasil, que já foi referência nessa área, precisa voltar urgentemente a desempenhar este papel, mas para isso é necessário reconstruir tudo o que foi destruído em relação às estruturas desta área. A ministra Marina Silva, apesar da sua expertise e experiência, ainda demorará algum tempo até organizar uma equipe para reverter as políticas que foram implantadas nos últimos anos. O compromisso brasileiro com o clima é fundamental, pois a Amazônia está em nosso território, mas a sua importância é global e a iniciativa para preservá-la deve partir daqui. As questões fundamentais nesta discussão são: até que ponto a população está consciente que isso não pode ser procrastinado? Até que ponto os políticos lutarão para manter políticas sérias e permanentes em relação ao Meio Ambiente?

O general Mourão, senador eleito pelo estado do Rio Grande do Sul, está demonstrando, pelas suas primeiras declarações, que pretende ocupar o vácuo deixado, temporariamente, por Bolsonaro na liderança da extrema-direita. Atacando o governo por decisões que nem foram tomadas, muito menos publicadas e criando discussões bem ao estilo bolsonarista para multiplicar fake news sobre isso. Bolsonaro ainda não demonstrou como vai se posicionar publicamente, mas é óbvio que vai continuar sendo o que sempre foi: Bolsonaro. Durante os quatro anos do seu governo, ele e Mourão tiveram várias dissonâncias, mas agora trata-se de uma disputa por espaço político no mesmo segmento.

Espera-se grande resistência ao novo governo por parte de uma oposição chauvinista e sem nenhum prurido em ultrapassar as regras de boa convivência entre os contrários. Os projetos de inclusão social serão os mais combatidos, porque tentarão taxar de forma mais igualitária os cidadãos e os mais ricos ainda se consideram acima das leis e isentos de equidade entre direitos e deveres. Será uma tarefa hercúlea manter o equilíbrio sob ataques antecipados e de baixíssimo nível. O objetivo, obviamente, é tentar a desestabilização do novo governo a qualquer custo.

Esta semana foi para dar posse aos diversos ministros de Estado, são eles que, a rigor, farão a administração do país e dos resultados alcançados nas diversas áreas dependerá o sucesso ou o fracasso do governo. As tarefas são complexas, porque o trabalho será de reconstrução, antes mesmo da criação de novos projetos para alavancar o desenvolvimento do país. “Brasil, ame-o ou deixe-o”, diziam os ditadores dos anos de chumbo, enquanto expulsavam os brasileiros que se opunham à ditadura. Bolsonaro foi para os EUA por iniciativa própria, mas quem pagou a conta fomos nós.

Vinicius Todeschini 05-01-2023

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