Crónicas do Brasil | 09-01-2023 15:50

Crônica de um Golpe de Estado anunciado

Vinicius Todeschini

O que aconteceu neste domingo em Brasília confirma que a atual divisão no país está, principalmente, dentro das Forças de Segurança.Os policiais militares de Brasília, pelo menos boa parte deles, estão colaborando com a sua inação com os atos terroristas.

O que aconteceu neste domingo em Brasília confirma que a atual divisão no país está, principalmente, dentro das Forças de Segurança. O ex-ministro da Justiça do governo anterior, Anderson Torres, foi nomeado Secretário de Segurança do Distrito Federal, muito embora o governador do DF, Ibaneis Rocha, tenha sido aconselhado a não fazer esta nomeação. O ministro da Justiça, Flávio Dino, publicou em uma portaria, no dia 5 de janeiro, declarando que nenhum funcionário que esteja respondendo a inquéritos policiais, processo administrativo disciplinar, ação penal ou por improbidade administrativa poderá ser nomeado. Anderson Torres está sendo investigado pelo STF por participar de uma transmissão do ex-presidente que atacou mentirosamente o sistema eleitoral e mesmo assim foi nomeado. Tentando aliviar a pressão, ele exonerou Anderson Torres ainda ontem e logo depois, na madrugada de segunda-feira, o próprio governador foi afastado pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, por 90 dias. Entre os indícios apontados pelo ministro, todos muito graves, ele aponta a própria escolta dos terroristas ao local do crime pela Polícia Militar de Brasília. O que corrobora a adesão desses policiais militares ao ato golpista.

Nos EUA a invasão do Capitólio gerou prisões, apenas o autor intelectual, Donald Trump, ainda não foi preso. Anderson Torres é um bolsonarista e a sua ida aos EUA não é coincidência, todos os fatos demonstram uma grande articulação da extrema-direita tentando criar o caos para que os militares tomassem o poder. A ideia, evidentemente, era que o ex-presidente retornasse como ditador empossado pelas Forças Armadas, mas o golpe falhou. O objetivo dos extremistas era tão óbvio que custa a crer que ninguém deduziu que iria acontecer. O movimento dos ônibus em direção à Brasília deveria estar sendo monitorado pela Polícia Rodoviária Federal, outra força do Estado que vem prevaricando em suas funções, se posicionando a favor de Bolsonaro com ações claras, como a que Silvinei Vasques, superintendente da PRF na época, fez nas eleições de 2022, mandando realizar várias blitzes nas estradas do Nordeste tentando inviabilizar a chegada dos eleitores do presidente Lula às urnas.

Os mandantes devem ser investigados e presos, no entanto, aqui no Brasil há uma cultura de passar panos quentes quando pessoas poderosas estão por trás desses movimentos golpistas. O ex-presidente Bolsonaro tem que ser detido, suas ações e inações confirmam as suas más intenções e a sua passagem pela presidência não deixa nenhuma dúvida do mal que ele representa para o país e para a democracia. A situação no Brasil está ficando alarmante e não se poderá, depois das ações praticadas pelos bolsonaristas em pleno domingo, chamá-los de manifestantes, são e devem ser tratados como terroristas. As pessoas que estão praticando os atos estão sendo financiadas e realmente é de interesse público que os que estão articulando e definindo essas ações sejam devidamente enquadrados nos rigores da Lei. Não cabem mais tergiversações das autoridades em relação a isso. No Brasil, diferente do Capitólio, as ações de repressão foram lentas e só agora as coisas estão voltando a uma certa normalidade. Os depoimentos de vários terroristas presos também confirmam o que já se sabia, que o financiamento dessas ações parte de pessoas do agronegócio, a grande base bolsonarista.

Os policiais militares de Brasília, pelo menos boa parte deles, estão colaborando com a sua inação com os atos terroristas. Ninguém acredita mais nos discursos institucionais de autoridades que dizem uma coisa e fazem outra, ou seja: são coniventes com os atos terroristas que se organizam nesses acampamentos ao lado dos quartéis. Os militares, sem dúvida alguma são responsáveis diretos por tudo isso estar acontecendo, e só não se insurgiram contra a democracia porque o governo americano, além de não os apoiar, os aconselharam a não tentarem. A tradição golpista dos militares brasileiros está registrada na história e, infelizmente, além, deste fato, existe uma ambiguidade na Constituição atual que os militares conseguiram impor, articulados com a Direita. A incorporação desse conceito - de defesa da lei e da ordem - no artigo 142 cria confusão e favorece essa tradição golpista. As Forças Armadas, enquanto persistir este artigo, poderão usá-lo para uma intervenção, caso se empoderem para isso.

Allan dos Santos, outro terrorista com prisão decretada, está foragido nos EUA e, apesar da proclamada eficiência da polícia americana, ele ainda não foi preso. Claro que está protegido por partidários americanos da mesma ideologia, mas nada justifica que a Interpol ainda não tenha chegado a ele, a não ser é claro, que haja instruções partindo da própria Polícia Federal brasileira para que a Interpol não aja. O que está acontecendo no Brasil é grave e é preciso dar um basta, antes que seja tarde, para manter a ordem e impedir uma guerra civil. O que parece improvável, mas não impossível. Parte do país está disposta a desobediência civil e articulada para isso e é necessário agir com firmeza agora para evitar o desastre e o fim da democracia no Brasil. Mas para matar a serpente é preciso cortar a sua cabeça e quem precisa ser devidamente investigado e preso é Bolsonaro, a representação maior deste mal.

Vinicius Todeschini 09-01-2023

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