Crónicas do Brasil | 11-03-2023 15:03

O Imbecil Inteligente

Vinicius Todeschini

Silas Malafaia é um pastor evangélico milionário que a revista Forbes classificou como o terceiro pastor mais rico do Brasil. Em uma declaração postada em julho de 2013 no You Tube, disse que não se pode ir contra os pastores, porque eles são ungidos de Deus, não importa o que eles façam; “ninguém deve se meter com os ungidos de Deus”, afirmou. Segundo matéria do jornal “O Globo”, de setembro de 2022, 21 novas igrejas evangélicas são abertas por dia no país.

A imbecilidade, este substantivo feminino que, infelizmente, se tornou o significante de uma categoria vasta e que perpassa todas as classes sociais, se tornou o público-alvo dos que fazem deste segmento o seu ganha-pão. Estes formadores de opinião se especializam em desconstruir para desinformar e colocar no lugar do conhecimento científico um mito. Os que o seguem o fazem porque não pensam com senso crítico e já que pensar é algo difícil, porque exige esforço e aprendizado acadêmico, coisa que em países pobres, onde milhões de pessoas são privados deste processo, não faz parte da normalidade, eles prosperam pelas redes sociais, como já o faziam pelas mídias tradicionais. Existem outros seguidores que não os seguem cegamente, mas porque tem um ganho secundário sobre àquilo que não existe, onde a justificativa do lucro lhe poupa a reflexão.

O comportamento das Forças Armadas, por exemplo, sempre foi no sentido de proteger os poderosos, inclusive com golpes militares para que esta hegemonia conservadora, que dilacera o país desde que ele existe, nunca fosse quebrada. Os mitos construídos, para explicar àquela velha tragédia, viraram piada e várias formas jocosas são utilizadas para conformar o país às suas mazelas sociais. Piadas racistas, idatistas, misóginas, machistas, chauvinistas, foram naturalizadas, porque, como diz àquela marchinha de Lamartine Babo: “Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata, eu quero o seu amor”. O problema é que o preconceito pega, que o mito emplaca e a tragédia social brasileira acaba sendo justificada progressivamente e isso acaba sendo a única coisa progressiva que temos aqui, porque até os imposto são regressivos.

A ignorância cultivada se diferencia da falta de conhecimento (que é a ignorância típica de quem não tem formação e acredita nos mitos), ela serve a um propósito. Quando o líder da Igreja Universal, Edir de Macedo, fala que a mulher não deve ter mais estudo que o homem, justifica isso reafirmando o mito, porque, segundo ele, não existe família, não existe casamento, nem felicidade, quando a mulher é a cabeça e o homem o corpo, deve ser o contrário, o homem tem que liderar, obrigatoriamente. Outra colocação dele é sobre o casamento entre pessoas de etnias diferentes, que ele não recomenda, muito embora, espertamente, não condene, porque racismo é crime no Brasil. A sua justificativa é uma “pérola” à reificação do racismo, porque ele afirma que neste tipo de casamento, fatalmente, os filhos enfrentarão rejeições por parte dos seus coleguinhas de escola.

Silas Malafaia é um pastor evangélico milionário que a revista Forbes classificou como o terceiro pastor mais rico do Brasil, com uma fortuna entre R$ 150 milhões e R$ 300 milhões de dólares. Ele negou isso à jornalista, Mônica Bergamo, da “Folha de São Paulo” e declarou que iria processar a revista norte-americana. Se ele é o terceiro mais rico, certamente, Edir de Macedo é o primeiro, com folga. Malafaia é formado em Teologia e Psicologia, mas não tem nenhum limite ético em relação a torcer e retorcer a Bíblia com interpretações que lhe sirvam para ganhar mais dinheiro. Em uma declaração postada em julho de 2013 no You Tube, disse que não se pode ir contra os pastores, porque eles são ungidos de Deus, não importa o que eles façam; “ninguém deve se meter com os ungidos de Deus”, afirmou ele.

Com a ascensão e a participação direta dos evangélicos na política, o país passou a assistir a uma disputa de narrativas. Os pastores os chamam de ovelhas e de rebanho, nada mais apropriado, aliás, porque são seguidores fiéis. Eles já ultrapassaram 70 milhões de pessoas e, segundo matéria do jornal “O Globo”, de setembro de 2022, 21 novas igrejas evangélicas são abertas por dia no país. As religiões têm ajudado a perpetuar o atraso e discriminação no país, o médium Divaldo Pereira Franco, o mais importante médium brasileiro depois da morte de Chico Xavier, defendeu os golpistas de 8 de janeiro e espalhou fake news sobre vacina e marxismo. As fakes news produzidas pelo setor religioso no Brasil extrapolam qualquer lógica razoável, pois partem do pressuposto que sempre existirão milhões de pessoas prontos para ler, ouvir e acreditar no que for publicado e são incansáveis nisso.

A importância de Bolsonaro em tudo isso é imensa, porque ele é o imbecil inteligente nº 1 e sem ele o projeto fascista brasileiro ficaria acéfalo. As suas características pessoais lhe fazem o personagem ideal para este momento da história, assim como foi Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália. A mistura entre religião e política no Brasil criou um espaço imenso para o imbecil inteligente e a proliferação desses tipos, na imensa planície do senso comum brasileiro, parece estar longe do fim. O país tem um nível cultural muito baixo e a falta de um projeto educacional permanente, de alta qualidade e abrangência, contribui para que os brasileiros não tenham o mesmo nível cultural de outros países da América Latina, quanto mais da Europa. O Brasil está experimentando às consequências de todos os seus erros e se aproxima perigosamente do abismo com a ascensão da besta cega do fascismo, prenhe e voraz.

Vinicius Todeschini 10-03-2023

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