Crónicas do Brasil | 15-04-2023 07:00

“Direita Civilizada” versus Esquerda Preponderante

Vinicius Todeschini

Existe algo profundamente enraizado na cultura brasileira que ultrapassa qualquer ideologia e, na maioria das vezes, ultrapassa qualquer ética coletiva e individual, chama-se “ação entre famílias e amigos” ( : ) A real diferença entre este tipo de espírito nacional e a cultura mafiosa oriunda da Itália é só a quantidade. Não será fácil superar isso, porque é algo identitário e ego sintonizado com a maioria. Por isso os próximos cem anos deverão se tornar uma grande cruzada nas entranhas do gigante semiadormecido chamado Brasil e o resultado nunca saberemos.

Colocar aspas em “Direita Civilizada” se faz necessário, porque o amplo apoio ao golpista Bolsonaro confirmou que, para muitos desse espectro político, os fins justificam os meios. Não há necessidade de colocar aspas na Esquerda Preponderante, porque as suas posições maioritárias estão justificadas dentro do regime democrático e identificadas com fatias consideráveis da classe média que partilham deste ideário. No entanto, é importante lembrar que a implementação de certas políticas comportamentais -em 14 anos de poder no governo federal e, antes mesmo, em vários governos estaduais e municipais- deram subsídios à Extrema Direita para criar fake news e estimular uma rebeldia sem causa, que quase jogou o país em um abismo. É claro que isso é subestimado ou mesmo ignorado por setores mais radicais da Esquerda, porque acreditam que é preciso impor estas pautas, justificadas pelas ciências, mas nem tudo que é bom para a ciência é bom para o homem. Paulo Freire acabou sendo traído no que ele propunha como solução para superar à ignorância, pois, para ele não havia sábio absoluto ou ignorante absoluto e por isso lutou, conceitualmente, contra a Pedagogia Tradicional e Bancária e a sua imposição do que é certo e errado, mas a Esquerda caiu nesta contradição e reproduziu o sistema que tanto criticava.

O que a Esquerda Preponderante não faz, porque aprendeu que jamais venceria deste modo, é propor algo fora da democracia. Nem em seus piores momentos, Ciro Gomes, por exemplo, apoiou algum golpe. Ele atacou Lula, insistentemente, em uma vã tentativa de ocupar o seu espaço, mas jamais foi uma ameaça real ao presidente, contribuiu, isto sim, para Bolsonaro fazer uma votação mais expressiva que possui em representação política. Na verdade, não houve uma real adesão popular ao fascismo, mas uma grande confusão de conceitos e valores de um povo que ainda não amadureceu em senso crítico e histórico. Muitas pessoas se identificaram porque puderam afirmar coisas que estavam reprimidas por anos de patrulhamento da Esquerda e exageraram na dose por não entender o que estava acontecendo. O ridículo passado foi inevitável e pouco a pouco se transformou em vergonha disfarçada, acharam que era uma libertação quando foram, simplesmente, fisgados à moda fascista. Um século depois o fascismo se reinventou e os democratas continuaram dormindo o sonho dos justos.

A democracia é um sistema que está sempre sob fogo cruzado, porque envolve questões que são caras ao ser humano. O narcisismo nos inviabiliza como seres completamente sociais, mas, ao mesmo tempo, cria a ilusão que as pessoas se organizam, somente, em torno de ideais, mas ali, de fato, o que está resguardado, o polo de atração, é o substrato do que são e o que enxergam, no espelho sedutor, é somente o que desejam ver. O ledo engano acontece, porque ao excluírem os diferentes e os taxando, os reificando, apenas aceitam, sem questionamentos, uma limitação que os condena a serem assim e, todo o tédio e toda a inveja se transforma em ódio profundo contra aqueles que não refletem a si mesmos.

Existe algo profundamente enraizado na cultura brasileira que ultrapassa qualquer ideologia e, na maioria das vezes, ultrapassa qualquer ética coletiva e individual, chama-se “ação entre famílias e amigos”, incluindo os amigos dos amigos. É como se esta relação garantisse fidelidade completa, onde está estabelecido, tacitamente, um pacto de silêncio contra qualquer tipo de investigação. Por isso, tanto no público, quanto no privado, esta prática permeia todas as relações e gabarita os quadros profissionais que irão ocupar os cargos mais importantes do país. A real diferença entre este tipo de espírito nacional e a cultura mafiosa oriunda da Itália o é só a quantidade. Não será fácil superar isso, porque é algo identitário e ego sintonizado com a maioria. Por isso os próximos cem anos deverão se tornar uma grande cruzada nas entranhas do gigante semiadormecido chamado Brasil e o resultado nunca saberemos.

Os cem dias do novo governo de Lula e seus argonautas ainda não assegurou o amplo apoio dos mais ricos e poderosos que apoiavam o radicalismo neoliberal de Paulo Guedes, o capitão da nau bolsonarista. Toda a movimentação de Bolsonaro em seu exílio voluntário nos EUA, somados aos episódios sórdidos da sua apropriação indevida dos presentes dados ao Estado brasileiro garantiram certa estabilidade política ao novo velho presidente. Lula ganha fôlego e, no alto dos seus 77 anos, ele pode comemorar, pelo menos, um pouco de calmaria em um mar quase sempre encapelado.

A hipocrisia dos liberais nunca será vencida pela exposição das suas contradições, elas são inúmeras, desde as fundamentais até as mais frívolas, mas todas elas têm em comum a falta de empatia pelo sofrimento humano. O liberalismo é um agnóstico que usa as religiões, os costumes e todo o maquinário cultural existente em cada lugar para esconder o óbvio: só alguns podem prosperar neste modelo e os que prosperaram, seja do jeito que foi, manterão isso dentro das suas famílias e dos seus grupos. As técnicas psicológicas se sofisticaram através dos séculos para manter o poder e o dinheiro nas mãos da minoria, mas o custo da soma, para o planeta e a humanidade, se tornou mais caro que a divisão

Vinicius Todeschini 12-04-2023

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