Crónicas do Brasil | 01-07-2023 11:41

O Novo Censo Brasileiro e Inelegibilidade de Bolsonaro

Vinicius Todeschini

Os produtos estrangeiros ainda são mais caros no Brasil do que no resto do mundo, outro absurdo do capitalismo brasileiro que onera o cidadão com uma alta carga tributária de impostos regressivos e não abre possibilidades de consumo no mesmo nível que os países mais desenvolvidos. Conservadorismo de fachada e liberalismo de fachada, na prática outro simulacro da classe dominante, também, na economia.

O Brasil, se supunha, que tivesse uma população maior, mas o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) apontou que é menor do que essa suposição. Os 203,1 milhões contabilizados em 2022 apontam uma taxa de crescimento de 0,52%, a menor taxa de desde o primeiro Censo, de 1872, a população exata apontada é: 203.062.512 habitantes. O país na década de 70, quando a seleção brasileira jogava futebol de verdade e foi tricampeã mundial e como dizia a música ufanista de, Miguel Gustavo, que embalou o feito da seleção canarinho no México - “Noventa milhões em ação/Pra frente do Brasil, no meu coração” - tinha 90 milhões de habitantes. Eram os anos do falso milagre brasileiro e de alta taxa de crescimento populacional. Anos de uma ditadura militar que atrasou o país em 21 anos.

Os produtos estrangeiros ainda são mais caros no Brasil do que no resto do mundo, outro absurdo do capitalismo brasileiro que onera o cidadão com uma alta carga tributária de impostos regressivos e não abre possibilidades de consumo no mesmo nível que os países mais desenvolvidos. Conservadorismo de fachada e liberalismo de fachada, na prática outro simulacro da classe dominante, também, na economia. A hipocrisia das classes dominantes é impor por aqui um falso liberalismo econômico, onde só os trabalhadores são onerados e o capital é o grande beneficiado, para isso viajam constantemente para o exterior, principalmente para Miami, para consumir os produtos com preços mais em conta. O capitalismo à brasileira é assim, nem o regime onde o capital impera é íntegro nesse país.

O Censo, no entanto, confirma muitas obviedades, entre elas, que a maioria da população vive em centros urbanos com mais de cem mil habitantes, o que não surpreende ninguém porque o êxodo rural é coisa de muito tempo. O fato das expectativas, inclusive do IBGE, terem sido frustradas em relação ao número real da população também não surpreende e, mesmo com a possibilidade do cruzamento de informações que há hoje em dia, muitas pessoas não são recenseadas. Eu mesmo, quando muito jovem, trabalhei no em um Censo e visitei domicílios de uma grande cidade que jamais tinham sido visitadas por qualquer recenseador em várias gerações, evidência que esses dados não são completos em relação ao total real da população brasileira, porque o número de moradores de ruas, por exemplo, não para de crescer e seus números estão, nitidamente, subestimados.

No final das contas, Bolsonaro, não percebeu as discrepâncias do seu projeto em relação ao dos militares que deram o golpe em 64. O nacionalismo dos militares era calcado em uma economia liberal, mas, ao mesmo tempo, com um Estado forte. Lacerda já tinha cometido o mesmo erro e acabou por não alcançar seus objetivos de chegar à presidência, justamente por não entender o substrato ideológico dos militares brasileiros, que ele incentivou a dar o golpe. Lacerda defendia ideias onde o financiamento industrial do país deveria ser feito pelos investimentos estrangeiros e a agricultura, nos moldes da República Velha, deveria ser o carro chefe das exportações. Politicamente, entretanto, ele atacou Getúlio e os seus herdeiros nos mesmos moldes dos ataques sofridos pela Esquerda e por Lula, que acabaram levando Bolsonaro ao poder. As narrativas criadas em torno do significante -corrupção- por mais esdrúxulas que fossem funcionaram para justificar a eleição de uma antidemocrata e golpista, mesmo se sabendo, de antemão, que ele tentaria implodir a democracia assim que estivesse na presidência e foi o que aconteceu.

O presidente ditador, Ernesto Geisel, é um perfeito exemplo disso, ele conseguiu evitar um golpe dentro do golpe pelo general Silvio Frota e promoveu uma abertura política lenta e gradual, também se opôs ao controle da economia pelos EUA, sedentos por explorar o país que eles ajudaram a se tornar uma ditadura. Geisel preferiu fechar um acordo com a Alemanha em relação ao programa nuclear brasileiro, desagradando os norte-americanos. Um exame mais detalhado da história recente já nos permite entender melhor porque o alto comando militar da época nunca se afinou completamente com Lacerda e, o atual, manteve reservas a Bolsonaro e como há similitudes nos projetos dos dois em suas formas de fazer política através de fake news. O nacionalismo brasileiro está associado ao varguismo, mas os generais do regime de 64 investiram largamente em estatais, ou seja; em um projeto que se assemelhava mais ao de Vargas do que a concepção lacerdista e da direita brasileira, que desejava (:) a diminuição do Estado, a diminuição da estrutura sindical para controlar os trabalhadores, reformas que retirassem diretos dos que trabalham, oposição à reforma agrária e exploração máxima das forças de trabalho, incluindo o arrocho salarial. Os militares, mesmo os mais reacionários, eram a favor da industrialização nacional e, mesmo submissos às grandes nações, tinham ambições nacionalistas e isso Lacerda não percebeu e a presidência, seu sonho juvenil, lhe escapou. Bolsonaro, pelo contrário, chegou lá, mas, sem formação ou preparo intelectual, trocou os pés pelas mãos e agora está inelegível até 2030 para o bem do Brasil e do mundo.

Vinicius Todeschini 30-06-2023

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