Crónicas do Brasil | 11-08-2023 16:39

Zema, o boquirroto e o separatismo no Brasil

Vinicius Todeschini

A trajetória de Romeu Zema e do seu partido (Partido Novo) se confundem e começam na passagem do cometa ‘Antipolítica’. Ele é neto do empresário italiano Domingo Zema, criador do Grupo Zema . Muitas vezes o governador de Minas demonstrou a sua falta de cultura (: ) No final da entrevista, ao ser presenteado com um livro da grande poeta mineira e filha da cidade, Adélia Prado, ele perguntou se ela trabalhava na rádio. Para a poeta, que jamais o teria como leitor, até que foi bom, porque o seu nome foi o mais comentado do Twitter por um bom tempo.

Romeu Zema é o atual governador de Minas Gerais, o segundo estado em população do país e um dos mais importantes sob o ponto de vista histórico. Os mineiros compuseram com os paulistas – “A Política do Café com Leite” - articulação das duas principais oligarquias regionais que comandaram o país durante a República Velha. O mandatário vigente, no entanto, destoa do estilo que consagrou os políticos mineiros. Conhecidos por serem discretos e agirem nos bastidores, os políticos de Minas consolidaram o estilo “come quieto”. Esta gíria é o contraponto para as famosas gabolices masculinas entre os seus congêneres sobre as suas conquistas sexuais, que quando não são inventadas são exageradas para impressionar a concorrência, digamos assim. O estilo mineiro seria mais de fazer e menos de falar, o que caracteriza o famoso “come quieto”, aquele que faz, mas não conta.
Em uma entrevista para o jornal de São Paulo, O Estadão, no dia 6 do mês corrente, o governador Romeu Zema fez uma analogia entre o governo e um produtor rural. Ele criou uma espécie de parábola onde um produtor rural representa o governo. O produtor trata muito bem as vaquinhas que produzem pouco - se referindo aos estados do Nordeste - e é negligente com as que produzem muito, se referindo aos estados do Sudeste e do Sul. A fala desastrosa repercutiu imediatamente e, logo em seguida, ele publicou um tuite para tentar mitigar o estrago. No texto está escrito que a união dos estados das regiões Sul e Sudeste não visa diminuir as outras regiões, mas era tarde, o estrago já havia sido feito.
A trajetória de Romeu Zema e do seu partido (Partido Novo) se confundem e começam na passagem do cometa ‘Antipolítica’. Ele é neto do empresário italiano Domingo Zema, criador do Grupo Zema (:) que opera em setores de eletrodomésticos e móveis, distribuição de combustíveis, concessionárias de veículos, autopeças e serviços financeiros. Zema ocupou o cargo de presidente do Conselho da empresa por 26 anos e só se afastou para entrar de cabeça na política, pegando carona na cauda incandescente do ‘Cometa Antipolítica’, que quase devastou o país. Muitas vezes o governador de Minas demonstrou a sua falta de cultura, mesmo formado em Administração pela Fundação Getúlio Vargas. Uma das suas gafes que mais viralizou aconteceu durante uma entrevista a uma rádio de Divinópolis, cidade do interior mineiro. No final da entrevista, ao ser presenteado com um livro da grande poeta mineira e filha da cidade, Adélia Prado, ele perguntou se ela trabalhava na rádio. Para a poeta, que jamais o teria como leitor, até que foi bom, porque o seu nome foi o mais comentado do Twitter por um bom tempo.
O outro lado dessa questão é que persistem no país vários movimentos separatistas, principalmente no Sul e no Sudeste, e a criação do Cossud (Consórcio Sul-Sudeste) pode reavivar este fogo de galpão e torná-lo um incêndio de proporções imprevisíveis. O ex-governador de Minas e ex-candidato à presidência, Aécio Neves, neto de Tancredo Neves, se aproveitou da deixa e, ao velho estilo mineiro, afirmou que Minas nunca foi antagônica às regiões mais pobres do país e, com “humildade calculada”, admitiu que o estado de Minas também faz parte delas. Outros governadores mais moderados que fazem parte do Cossud, como o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, declarou que Zema não fala pelo consórcio, mas é apenas a sua opinião pessoal e mais; que o escopo desta união regional é promover o desenvolvimento do Brasil como um todo. Por outro lado, existem muitos governadores que apoiam Zema. Os governadores de São Paulo, do Paraná e de Santa Catarina estão do seu lado e o governador do Rio Grande do Sul, cujo maior sonho é ser presidente do país, o apoiou, mas ante a repercussão negativa tergiversou e sem nenhum prurido, como sempre, mudou o seu discurso sobre isso.
Existem muitos movimentos separatistas atuantes no Brasil e todos eles têm um elemento em comum, o econômico. Alguns afirmam que o estado mais rico do país, São Paulo, seria um país de Primeiro Mundo, caso se separasse do Brasil, porém, a miséria brasileira é estrutural e está em toda parte. O jornal “O Estado de Minas”, em outubro de 2017, publicou uma curiosa reportagem sobre um desses movimentos: “O Sul é o meu País”. O grupo promoveu um plebiscito informal e o resultado foi a vitória da proposta separatista. Com cerca de 80, 12% das urnas apuradas, 96,1% votaram a favor da separação dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, mas a participação foi de, apenas, 331.378 eleitores. O projeto era alcançar entre um milhão e dois milhões de eleitores. Em política o derrotado de hoje pode ser o vitorioso de amanhã, investido como chefe de Estado, por exemplo. Bolsonaro, um dos piores quadros da política brasileira em todos os tempos e uma ameaça permanente à vida e à democracia virou presidente. Esse cidadão quase levou o Brasil ao desastre completo, por isso nunca se deve subestimar nenhuma forma de fazer política, vejam o que aconteceu na Alemanha há 90 anos, quando um cabo boêmio e pintor frustrado chegou ao topo da pirâmide política e quase destruiu o mundo.
Vinicius Todeschini 11-08-2023

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