Crónicas do Brasil | 14-09-2023 12:00

Uma tragédia anunciada

Vinicius Todeschini

As calamidades no Brasil, um país que tem a tragédia permanente da desigualdade social, quando acontecem em áreas de risco permanente, onde vive a população mais pobre, já não causa impacto, mas quando se trata de regiões altamente produtivas, como agora, a repercussão é outra ( : ) A guerra fiscal entre os estados inviabiliza a possibilidade de um desenvolvimento harmônico e continua criando distorções, os donos das empresas são os únicos beneficiários desse sistema, porque, depois de escolherem o estado que lhe dará mais vantagens, como isenções de impostos e obrigações legais, o abandonam quando surge algo mais interessante.

Os ciclones extratropicais sobre o estado do Rio Grande do Sul inundaram várias cidades e algumas, como a pequena cidade de Roca Sales de 11 mil habitantes, foram completamente devastadas pelas águas do Rio Taquari. A ciência alerta há muito tempo sobre às consequências das contínuas intervenções na natureza, esse conhecimento, no entanto, não tem sido usado pelos governantes para enfrentar esses fenômenos cada vez mais recorrentes e destrutivos. Áreas que deveriam ser conservadas para que os rios, em época de cheias, pudessem se espraiar, não são respeitadas. O capitalismo e sua visão predatória da natureza (:) construções sem estudos consistentes sobre o impacto ambiental, áreas de preservação usadas para a agricultura e a pecuária. É a busca por riqueza para ser um cidadão de primeira classe e não um mero número, além do que,o ser humano nasce com “decadência programada” e é preciso pagar pelos serviços de ‘saúde’, que se transformaram em grandes negócios, onde os planos de saúde se tornam progressivamente ainda mais caros com o avanço da idade das pessoas.

No sul do país existem muitos descendentes de europeus (:) portugueses (açorianos), alemães e italianos são os mais predominantes e foram os primeiros, mas existem descendentes de poloneses, de suíços e suecos... São muito diligentes e trabalhadores e acumularam, de geração em geração, muitas riquezas, mas ainda estão apegados aos valores da época em que os seus pioneiros chegaram aqui. Eram valores predominantes nos países de origem dos seus antepassados e talvez, por isso, o sul do país -Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná- muitas vezes se posiciona de forma contrária ao interesse coletivo e se coloca de forma reacionária. O racismo aqui ainda é muito resistente e a oposição aos governos populares que tentam combater as desigualdades é muito forte.O governador do estado sul-rio-grandense é um neoliberal convicto e quer ser presidente da República, para isso faz de tudo para se manter na berlinda, mas diante dessa tragédia é visível o seu despreparo para liderar o povo, porque tragédias não estavam nos seus planos e culpar a natureza é a única coisa que soube dizer quando colocado emxeque.

Em uma sociedade organizada cataclismas desta ordem não são determinados apenas pela natureza, pelo menos em seus resultados, porque existem mecanismos técnicos de previsão para evitar a perda de vidas humanas e diminuir os prejuízos, mas isso não tem acontecido, pelo menos aqui no Brasil. Sai ano, entra ano e elas continuam se repetindo e muitas vidas são perdidas todos os anos sem que isso tenha uma solução definitiva. Em situações como essa se pode perceber, nitidamente, a mão da ganância, é ela que prepara o terreno para que as tragédias se repitam e se tornem parte da rotina do país. Nos trópicos, que começa acima do estado do Paraná, todos os anos, no verão quente e chuvoso, morrem muitas pessoas levadas pelas tempestades tropicais, mas nada é feito.São morros que desmoronam em cima de casas e bairros construídos em zonas de risco que são arrastados na correnteza das enchentes e não há, verdadeiramente, nenhuma ação do ‘Estado’ e da ‘Iniciativa Privada’ que aponte uma solução definitiva para solucionar ou, pelo menos, diminuir o impacto dessas tragédias dos trópicos e subtrópicos.

Os governantes atuais são carreiristas, estão sempre investindo em seus projetos pessoais e cuidando da sua própria candidatura ou a dos seus parentes e aliados. Há pouquíssimos governantes que trabalhem para equilibrar a vida humana com a natureza, que é a razão da nossa existência e sobrevivência como espécie. Os seus projetos subestimam a importância do equilíbrio ambiental e visam, basicamente, atrair investimentos de novas empresas. A guerra fiscal entre os estados inviabiliza a possibilidade de um desenvolvimento harmônico e continua criando distorções, os donos das empresas são os únicos beneficiários desse sistema, porque, depois de escolherem o estado que lhe dará mais vantagens, como isenções de impostos e obrigações legais, o abandonam quando surge algo mais interessante, como a Ford, por exemplo,que iria se instalar no Rio Grande do Sul, mas optou na última hora pela Bahia e depois de um tempo se mudou ‘de mala e cuia’ para a Argentina.

As catástrofes continuam nos alertando sobre o equívoco de um povo que não toma posse do seu país e delega nas mãos dos oportunistas o comando das ações. As calamidades no Brasil, um país que tem a tragédia permanente da desigualdade social, quando acontecem em áreas de risco permanente, onde vive a população mais pobre, já não causa impacto, mas quando se trata de regiões altamente produtivas, como agora, a repercussão é outra. Os bolsonaristas rapidamente se aproveitaram para alimentar as redes sociais, tentando culpar o governo atual pela tragédia no Rio Grande do Sul. O ex-porta-voz da ditadura, o jornalista Alexandre Garcia, afirmou que o governo petista teria mandado abrir as barragens para inundar as regiões dos vales do estado, mesmo tendo sido despedido de duas redes importantes da grande mídia (Globo e CNN) por este tipo de comportamento.O deputado bolsonarista, Gustavo Gayer, divulgou uma fake news, onde uma veterinária do Rio Grande do Sul afirmou que os donativos para os desabrigados só seriam entregues quando Lula pudesse estar presente. Pelo visto a maior tragédia é o que já está posto e não o que está por vir.

Vinicius Todeschini 14-09-2023

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