Derretendo Comentários
Medo, o alimento soturno da paranoia. A paranoia criou uma máquina pesada que está afundando no solo arenoso do planeta, uma máquina que reproduz um mundo incompatível com a natureza da vida e dos seus ciclos.
Amadurecer é perceber que: para muitas pessoas estabelecidas em posições importantes nos vários níveis e segmentos da sociedade; igualdade nunca deverá existir, porque os seus antepassados conquistaram o direito às posições que herdaram -caso da maioria desse segmento- e sempre existirão milhões de justificativas, baseadas em religião, pseudociência e controle social, para justificar e tentar tapar o sol com a peneira. A barbárie (a partir da revolta das classes desafortunadas) tão temida pela burguesia reposicionou as classes sociais na França em 1789- e a burguesia venceu. Derrotar a aristocracia decadente e pervertida em seus últimos foi quase um processo previsível, mas criou uma paranoia na classe social dominante, se aconteceu com eles -mais cedo ou mais tarde- acontecerá conosco.
Medo, o alimento soturno da paranoia. A paranoia criou uma máquina pesada que está afundando no solo arenoso do planeta, uma máquina que reproduz um mundo incompatível com a natureza da vida e dos seus ciclos. O mundo continua sendo impactado pela presença humana e pelas suas tecnologias, que alteram rapidamente o que levou milhões de anos para ser formado. Ar, solo, águas; a natureza contaminada e assoreada estará perdida sem uma perspectiva de manutenção da vida. A maioria das pessoas, no entanto, continua a crer que os erros são somente dos governantes, mas a omissão e a conivência pesam muito mais. Onde estavam os defensores da verdade quando era preciso entrar em ação e ir além dos seus discursos candentes? É preciso ir além das palavras e enfrentar às batalhas, onde a ação e a participação são indispensáveis, ou a guerra estará perdida.
Os comentários dos jornalistas dos grandes grupos midiáticos derretem como um sorvete recém caído sobre o asfalto quente, porque não há como sustentar uma contradição cuja base é o próprio sistema que defendem, mas representam um grande grupo e a voz do dono perpassa todas as outras vozes. Tudo isso está acima dos interesses que juraram servir, pois as carreiras estão em jogo. Redes de comunicação têm posicionamentos fixos e mudam, apenas, de programação (:) a Fox é republicana; a Globo é conservadora e neoliberal, mas negocia; a Record serve só aos seus interesses, mas precisa se manter, por coerência, junto à extrema-direita; o Clarín é contra o peronismo; o Estadão é contra o Lula e o PT; a Veja é contra a Esquerda, chega a ser pitoresco. Alguns comentaristas desafiam o senso crítico do público, Octavio Guedes, é um desses. Pela Globo News ele ataca, sistematicamente, a estupidez bolsonarista, mas argumenta contra o imposto sobre as grandes fortunas, tema sempre doloroso para a maioria dos ricos, porém, uma árvore se conhece pelos frutos que produz, porque de muitos galhos só caem carrapatos.
“Mas o que você não sabe por inteiro/É como ganhar dinheiro”, já dizia Raul Seixas, o rei do rock brasileiro. E ganhar dinheiro é o maior mérito que alguém pode ter no sistema capitalista e isso vale muito mais que todos os seus defeitos somados. As pautas seguem rigorosamente um padrão e qualquer discussão termina nos limites preestabelecidos, onde a única saída apontada é a política econômica neoliberal, com suas privatizações e a sua irresponsabilidade social, onde as inciativas dos clubes de filantropia devem atender aos ‘totalmente excluídos’ do sistema. A miséria não é um produto da pobreza, mas sim um dos fundamentos de um sistema milenar de castas que encontrou no capitalismo e, nas políticas neoliberais, a sua versão mais atual.
Milei, em seu primeiro discurso como presidente da Argentina, tentou insuflar o povo a exigir medidas de choque econômico e citou exemplos históricos. No período do Plano Cavallo, quando Menen tentou a mesma coisa, o plano começou com bons resultados, mas depois se revelou apenas mais um galope sem rumo e sem final, que levou o país, anos depois, ao retrocesso histórico e econômico do escambo. Aqui aconteceu algo similar, o Plano Cruzado, criação monstruosa de Funaro e Sarney. Além do choque econômico, anunciado pelo seu superministro, Luis Caputo, com 9 medidas e nenhum plano claro a longo prazo de recuperação da economia, pediu dois anos para obter algum resultado, ou seja: mais sofrimento para o povo com o arrocho e a carestia que virão, inevitavelmente. Nada de novo sob o sol.
O embaixador israelense no Brasil, Daniel Zohar Zonshine, disparou uma pérola em entrevista à revista Veja. Ao tentar responder sobre a fala do presidente Lula, que iguala os ataques do Hamas e as ofensivas de Israel em Gaza, ele afirmou: “Repare que a intenção faz toda a diferença: os israelenses não querem matar ninguém. Estão disparando contra alvos legítimos, até quando miram um hospital, já que ali estão entrincheirados criminosos dispostos a tudo”. ‘De boas intenções o inferno está cheio’, diz o ditado, é o velho filme revisto que revela coisas que não tínhamos percebido. Enquanto isso, aqui no Brasil, levantamentos recentes do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) colocam que o número de igreja evangélicas cresceu 228% em 25 anos e o número de moradores de rua 953,31 % nos últimos dez anos, mas tudo se naturaliza. Como se vê elas existem; as misérias que ninguém vê.
Vinicius Todeschini 14-12-2023


