Crónicas do Brasil | 09-02-2024 23:22

Transparência Embaçada

Vinicius Todeschini

O Brasil se mostrou resiliente ao golpe e seguem às investigações aos golpistas, mas é preciso punir exemplarmente, o que é bem mais difícil. O ex-presidente Collor de Melo, por exemplo, mesmo condenado pelo STF (última instância) segue livre e compareceu a posse do novo ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. Coisas do meu Brasil brasileiro. Saravá Ary Barroso.

A concorrência de narrativas em repúblicas e reinos do mundo são permanentes e aqui no ‘Paraíso Colonizado’ não poderia ser diferente. O ministro do STF, Dias Toffoli mandou investigar a TI (Transparência Internacional), ONG financiada pelos ultraliberais de vários países que, muito embora reproduza o discurso empoado de anticorrupção, apoia os grupos políticos que se opõe às esquerdas do mundo. A relação entre TI e Lava-Jato vem sendo descortinada e os resultados apontam para uma relação espúria, onde interesses ideológicos e pessoais ultrapassam qualquer agenda em defesa da democracia e do Estado de Direito. A Operação Spoofing revelou, entre outras coisas, mensagens trocadas pelo ex-procurador e ex-deputado federal cassado, Deltan Dallagnol, com o diretor executivo da TI no país, Bruno Brandão. Uma das mensagens se enquadra perfeitamente na egrégora que criou um dos capítulos mais hediondos do país, que levou Bolsonaro à presidência, Sergio Moro ao Ministério da Justiça, a eleição da bancada mais reacionária do Congresso Nacional dos últimos 40 anos e culminou com a tentativa de golpe.

“Mover um pouco a Overton Window”, disse Brandão a Deltan em uma mensagem. O inaceitável, em determinado momento histórico, passa a ser razoável e exequível em outro e a insensatez aceita com normalidade. As etapas da Overton Window -Inaceitável, Verossímil, Neutralidade, Provável e Inevitável- quando fielmente cumpridas podem levar uma sociedade a ir contra aquilo que defendia anteriormente, o que não faltam são exemplos, porque esse conceito nasceu exatamente da observação do comportamento das massas nos processos históricos. Os think tanks (grupos de reflexão em tradução livre, leia-se líderes carismáticos formadores de opinião), sabem que quando não é possível mudar, imediatamente, às posições políticas daquele país o alvo deve ser às novas gerações, para que elas alterem a ordem do pensamento predominante, logo ali adiante. No livro “Propaganda” (1928), Edwards Bernays escreveu: “Somos dominados por um número relativamente pequeno de pessoas... que entendem os processos mentais e os padrões sociais das massas”. Muitas verdades não mudam, apenas se atualizam com meios mais eficientes para exercer esse controle, por isso os grandes discursos, que criaram e moldaram sociedades, são reinterpretados incessantemente. ‘Entender profundamente para manipular eficientemente’.

A criação do Partido da Lava-Jato com o apoio da TI só não aconteceu, porque surgiu a Vaza-Jato com às mensagens hackeadas desses interlocutores, revelando os reais objetivos dessa força-tarefa. A Rede Globo, uma das empresas de mídia que comprou totalmente a ideia da Lava-Jato, e apostou todas as fichas em Moro e Dallagnol como os líderes de um movimento para “redimir” o país, agora está se debatendo para defender a TI, já que a Lava-Jato desceu pelo ralo. A tradicional hipocrisia editorial do jornalismo dessa emissora fez com que vários dos seus jornalistas tivessem que improvisar sobre o tema na entrevista do executivo, Bruno Brandão, e o constrangimento ficou estampado.

Apareceu um ofício da TI ao MPF ( Ministério Público Federal) detalhando como se deveria fazer uso do dinheiro advindo dos acordos de leniência, cerca de 2,3 bilhões de reais. Rodrigo Janot, ex-procurador federal estava à frente do MPF, na época, esse senhor se notabilizou ao afirmar em entrevistas que entrou armando no STF, em 2017, com a firme intenção de atirar no ministro Gilmar Medes e se suicidar depois. Em Berlim, sede mundial da TI, a direção mundial abriu uma investigação para apurar o caso, porque pelas regras internas dessa ONG é estritamente vedado a interferência na política de outro país, que nesse caso está evidente. Negar é parte do jogo, mas quem acreditaria em algum grupo ou empresa que aja de forma desinteressada pelo bem da humanidade? Os interesses são óbvios e são sempre contrários ao discurso oficial, que nega o óbvio, para confundir e para não criar provas contra si.

O coroné Arthur Lira, na retomada dos trabalhos da Câmara dos Deputados, fez um discurso agressivo onde afirmou que os deputados não são carimbadores de projetos do governo federal. O Brasil elegeu o presidente Lula com mais de 60 milhões de votos, mas os programas do seu governo se tornaram reféns de um latifundiário de Alagoas que só deseja mais poder e dinheiro. As elites entronizadas no poder, desde às capitanias hereditárias, mesmo derrotadas nas urnas, estão cada vez mais poderosas, no entanto, a Polícia Federal deflagrou hoje, dia 08/02, a Operação Tempus Veritatis que atingiu em cheio o núcleo duro do bolsonarismo. Os generais Augusto Heleno, Braga Neto, Paulo S. Nogueira e o almirante Garnier Santos; o presidente do PL, Costa Neto, (preso em flagrante por porte de arma ilegal); Anderson Torres, ex-ministro da Justiça foram alguns dos alvos. São 33 mandatos de busca e apreensão, 4 mandados de prisão e 48 medidas cautelares. O Brasil se mostrou resiliente ao golpe e seguem às investigações aos golpistas, mas é preciso punir exemplarmente, o que é bem mais difícil. O ex-presidente Collor de Melo, por exemplo, mesmo condenado pelo STF (última instância) segue livre e compareceu a posse do novo ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. Coisas do meu Brasil brasileiro. Saravá Ary Barroso!

Vinicius Todeschini 08-02-2024

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