Crónicas do Brasil | 23-02-2024 10:22

Abraão, Ibrahim e Lula

Vinicius Todeschini

O chanceler Israel Katz voltou a usar as redes sociais para atacar o presidente Luis Inácio Lula da Silva e usou para isso a brasileira Rafaela Triestman para criar mais uma fake news ( : ). Tratar com a extrema-direita é como colocar a mão na boca do crocodilo para salvar alguma vítima do predador, é preciso ser muito rápido e preciso para não perder a mão e a presa.

O curioso do sionismo é que o seu inventor, Theodor Herzl, admirava Édouard Drumont -precursor do fascismo e autor do livro “A França Judia”, onde defendia a exclusão dos judeus da sociedade francesa e dizia entender a natureza do antissemitismo: “Nós judeus, embora não seja culpa nossa continuamos sendo um corpo estranho nas diversas nações em que vivemos”. Ele também disse; “A perseguição corrompeu nosso caráter, e será preciso uma contra perseguição para retificá-lo”. A psicanalista e historiadora francesa de origem judaica, Elizabeth Roudinesco, escreveu que que Herzl mobilizou forças inconscientes da paixão antissemita para inverter o seu ódio de ser judeu em orgulho. Ele sonhava em ser um dramaturgo, mas, destituído de talentos para isso, se transfigurou em um grande ator sem palco, que fascinou multidões perseguidas e interlocutores circunstanciais e assim, possuído por essa paixão, conseguiu convencer as grandes potências coloniais da época a criar um Estado judeu.

O presidente Lula tem o dom da oratória e gosta de falar de improviso, porém muitas vezes perde o tom ao fazer isso. Foi o que aconteceu quando da sua declaração sobre o atual conflito entre judeus e palestinos, leia-se extrema-direita israelense contra o Hamas, com a população civil palestina no meio do conflito. A parte do discurso que gerou essa crise é a seguinte: “É importante lembrar que em 2010 o Brasil foi o 1º país a reconhecer o Estado palestino. É preciso parar de ser pequeno quando a gente tem que ser grande. O que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus”. No discurso o presidente está alinhado com a declaração da África do Sul na Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia, que considera o que está acontecendo, não uma guerra, mas um genocídio. O texto do presidente é praticamente impecável em relação aos fatos, entretanto no improviso ele citou o Holocausto e Hitler e saiu do contexto, abrindo uma brecha para a desgastada extrema-direita israelense atacá-lo.

O jornal francês, Le Figaro, de base conservadora publicou declarações de médicos que estavam atuando na Faixa de Gaza, o experiente anestesista militar, Raphael Pitti, afirmou que, normalmente, os civis têm para onde fugir, mas na Faixa de Gaza não existe essa opção. Comparou a situação à do Gueto de Varsóvia, onde quase 400 mil judeus padeceram em condições desumanas nas mãos dos nazistas. Ele afirmou que a situação está próxima de chegar a esse ponto. O presidente Macron em uma entrevista ao jornal L’Humanité, disse que alertou o ministro israelense Benjamin Netanyahu sobre o objetivo de Israel de criar uma grande ofensiva em Rafah, onde existem 1,4 milhão de palestinos amontoados em barracas pelas ruas da cidade. Macron considera essa ação um ponto de ruptura.

Diante de tudo isso não é difícil entender porque a extrema-direita se apegou tanto a essa fala de Lula para tentar desviar o foco das suas ações, que estão cada vez mais caracterizadas como extermínio. Ao atacarem agressivamente o presidente brasileiro o governo de Israel acaba por chamar a atenção do mundo inteiro sobre o que realmente está acontecendo em Gaza, gerando questionamentos sobre as suas ações na Faixa de Gaza e isso não é nada bom para os extremistas que estão no poder. A denúncia agora alcança uma repercussão mundial e torna evidente que o governo de Israel atacaria Lula pelo seu discurso, mesmo sem a citação ao Holocausto e a Hitler, porque o escopo, além do fortalecimento interno é evitar que a opinião pública mundial não tenha mais dúvidas que há um genocídio em andamento.

O chanceler, Israel Katz voltou a usar as redes sociais para atacar o presidente Luis Inácio Lula da Silva e usou para isso a brasileira Rafaela Triestman para criar mais uma fake news. Nessa postagem ela aparece ao lado do chanceler, falando em português, dizendo ter sido esquecida pelo governo brasileiro, quando isso não corresponde aos fatos. A resposta da diplomacia brasileira foi imediata, o Brasil condenou o ataque do Hamas, pediu a liberação dos reféns e ofereceu ajuda para quem quisesse deixar o país. A pedido do próprio presidente israelense, Isacc Herzog, Lula contatou o Irã, Qatar, Autoridade Palestina e Egito para apoiar a libertação dos reféns e, mesmo tendo conversado três vezes com Herzog, Lula foi atacado por ele. Tratar com a extrema-direita é como colocar a mão na boca do crocodilo para salvar alguma vítima do predador, é preciso ser muito rápido e preciso para não perder a mão e a presa.

Os grandes improvisadores do jazz sempre tinham um grande número de frases musicais guardadas na manga, para usá-las naqueles momentos que precisavam improvisar e a inspiração não vinha, assim não se arriscavam a cometer algum erro no contexto musical que estavam explorando. Miles Davis disse que não havia notas erradas no jazz, apenas notas no lugares errados, Lula fez isso: colocou as notas certas nos lugares errados e assim elas nunca soam bem.

Vinicius Todeschini 22-02-2024

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