Crónicas do Brasil | 29-03-2024 12:39

A verdadeira cara do Brasil

Vinicius Todeschini

A tragédia brasileira é um samba enredo, esta espécie de ópera popular manifestada nas ruas em eventos grandiosos e coloridos. Não existe dor aparente no êxtase narcísico de quem desfila, afinal não passa de uma representação, depois tudo volta ao normal, pois a maioria das pessoas paga para desfilar, afinal o carnaval é um grande negócio, uma apropriação pelo sistema de uma manifestação popular que vai se afastando cada vez mais das suas origens e tradições.

Certa feita, Chico Buarque de Holanda, declarou que a verdadeira música popular é a música que predomina atualmente, ou seja; funk carioca, batidão sertanejo e os pagodes românticos, principalmente. As grandes canções e mesmo, “A Era da Canção”, já passaram e o futuro do presente é uma ameaça permanente ao pretérito perfeito, pelo menos no que tange a estética e a ética, filhas da mesma mãe, prenhe de liberdades em outra época. A decadência moral se reflete na aderência a um projeto, cujo escopo maior é manter as aparências da “família brasileira”, ente que nunca existiu na forma apregoada pelos ideólogos desta narrativa vazia de sentidos, intoxicada pelo veneno da mentira e repetida à exaustão. O país sacoleja como peçuelo no lombo do cavalo e não demonstra nenhuma perspectiva de mudança de mentalidade, pelo contrário, a cada nova descoberta de uma mentira surge uma enxurrada de novas versões para negar o que está escancarado pelos fatos. Pesadelos nunca mais, isso é só a realidade!

O bolsonarismo criou uma estética e uma ética própria, como nazismo, e hoje representa, além dos 22% que estão identificados até o tutano com o fascismo em seus mais diversos formatos, uma base criada nos setores da Direita: os órfãos do PSDB e de partidos similares que eram oposição à Esquerda de forma geral, mas adotaram Bolsonaro, tanto por falta de opção, quanto pela frustração das derrotas sucessivas para candidatos petistas, o que levou os intransigentes da república a voltarem as suas origens, o autoritarismo e o golpismo. O últimos dos tucanos que disputou a presidência, Aécio Neves, sempre se notabilizou pela sua capacidade não acrescentar nada ao pouco que ainda existia em seu partido e sua proximidade com o ex-juiz da Lava-Jato, Sergio Moro, nunca deixou dúvidas que, se Aécio tivesse sido vitorioso contra Dilma Rousseff, no pleito de 2014, a história recente do Brasil seria outra: Sergio Moro teria sido seu ministro e o seu indicado para a Suprema Corte. Bolsonaro representaria só a terceira força política do país e os seus seguidores, exímios produtores e divulgadores de fake news, continuariam no limbo.

A tragédia brasileira é um samba enredo, esta espécie de ópera popular manifestada nas ruas em eventos grandiosos e coloridos. Não existe dor aparente no êxtase narcísico de quem desfila, afinal não passa de uma representação, depois tudo volta ao normal, pois a maioria das pessoas paga para desfilar, afinal o carnaval é um grande negócio, uma apropriação pelo sistema de uma manifestação popular que vai se afastando cada vez mais das suas origens e tradições. O morro mudou e os bailes funks, onde as cachorras são a atração, tomaram conta. Os sambas acelerados dos desfiles se afastaram das suas cadências malemolentes e cheias de suingue e “o Rio de Janeiro do samba e das batucadas/ Dos malandros e mulatas de requebros febris”, como escreveu em Aquarela Brasileira o compositor Silas de Oliveira, não existe mais. Em uma cidade fatiada entre a milicia, o crime organizado e o Estado corrompido, o Rio de Janeiro segue em agonia e êxtase e ninguém sabe bem onde isso vai parar, mas todos deveriam saber como isso começou e se desenvolveu.

O Brasil não vai mudar e seguirá por muito tempo reproduzindo os mitos que criou, mesmo que tenham pés de barro. Os grupos que aprenderam a usar as redes sociais para criar e perpetuar mentiras acabam também caindo na sua própria armadilha e com a prática e a repetição se tornam reféns do que inventaram e repetiram insistentemente, porque isso se torna o que é a sua vida e o que são. O governo atual abriu em um ano 47% a mais vagas em concurso públicos do que o Bolsonaro em seus quatro anos, mas isso não impede bolsonaristas de dizerem o oposto, pelas ruas e redes sociais. Paulo Guedes, ex-ministro da Economia, já dizia em 2019 que iria travar todos os concursos, porque a sua forma de governar é neoliberal e privatizar tudo é o seu lema e sempre que teve poder para fazer isso foi o que fez.

A falta de qualquer compromisso com a verdade está justificada, segundo os fanáticos, pela luta cega e maniqueísta contra o comunismo, que quer destruir tudo que a civilização judaico-cristã criou. Ledo engano, foi o humanismo que fez evoluir às ciências e criou novos paradigmas humanistas para as relações humanas (:) protegendo a infância, as mulheres e as minorias. A Bíblia é recheada de assassinatos, de traições, de incesto e intolerância e, mesmo que isso não tire o valor hermenêutico e imanente do livro, também não lhe dá nenhuma característica de guia unívoco. A insistência em apoiar um político que esbanja mitomania, demagogia e chauvinismo; um negacionista sem cultura e sem nenhum traço de humanidade e elegância confirma o desespero de milhões de pessoas que não aceitam a vida como disse Nelson Rodrigues; “A vida como ela é”. A vida é complicada e é finita, muitas vezes quando se aprende uma coisa já não se pode aplicá-la porque tudo tem um tempo e os ciclos seguem inexoravelmente, mas tudo que temos é o que somos e dar murro em ponta de faca é uma sangria inútil, sem causa e sem razão.

Vinicius Todeschini 28-03-2024

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