Crónicas do Brasil | 02-05-2024 14:56

PPP – PretoPobrePeriferia

Vinicius Todeschini

Preto, pobre e da periferia se for encontrado com um simples ‘baseado’ pode ser preso e enquadrado como traficante, mas um jovem de família rica bate a mais 150 km/h por hora com o seu Porsche, mata um motorista de aplicativo em uma rua da cidade de São Paulo e os policiais militares, sequer, realizam o teste de bafômetro e o liberam em seguida. Na mesma cidade um cidadão da periferia é ameaçado pelo ex-marido da mulher (de quem alugava um imóvel) armado com uma faca, embora já tenha pagado o aluguel. Quando aciona a polícia ele é que vira alvo da abordagem, porque é preto, pobre e da periferia.

O Brasil viveu recentemente uma espécie de macartismo à brasileira com a Operação Lava Jato, protagonizadas pelos procuradores federais lotados em Curitiba e capitaneada pelo ex-juiz Sergio Moro - atualmente senador pelo Paraná, que está sendo julgado por abuso de poder econômico e corre o risco de ser cassado, assim como o seu partner, o ex-procurador Deltan Dallagnol, o foi. Ele perdeu seu mandato de deputado federal por decisão unânime dos juízes TSE-Tribunal Superior Eleitoral. A capital paranaense ganhou a alcunha, “República de Curitiba”, pelos perseguidos da ‘Operação’, que marcou a nossa história recente e, só não levou o país a uma convulsão social por conta da “índole pacífica dos brasileiros”.

O presidente Lula foi preso sem provas e inúmeras irregularidades, além de abuso de poder, foram constatadas na atuação da Lava Jato, além do tom messiânico dos protagonistas, que tentaram dar um tom religioso a ‘Operação’ para causar comoção, principalmente no interior do país onde o conservadorismo é mais forte. Cidades inteiras (:) acendiam e apagavam as luzes das casas e dos prédios, gritavam das janelas e das sacadas ou buzinavam dos automóveis quando o Sergio Moro permitiu, de forma irregular, o grampo e a divulgação de uma conversa entre Lula e Dilma. Ele reconheceu que o grampo era ilegal, mas justificou a ação e o comparou ao caso Watergate, lá, no entanto, foi o próprio Nixon que autorizou o grampo na sede dos democratas. Moro já foi muito mais longe que isso para se autorizar a desmandos, pois o seu projeto sempre foi chegar à presidência do país, porém não alcançou nem mesmo uma indicação ao STF.

Preto, pobre e da periferia se for encontrado com um simples ‘baseado’ pode ser preso e enquadrado como traficante, mas um jovem de família rica bate a mais 150 km/h por hora com o seu Porsche, mata um motorista de aplicativo em uma rua da cidade de São Paulo e os policiais militares, sequer, realizam o teste de bafômetro e o liberam em seguida. Na mesma cidade um cidadão da periferia é ameaçado pelo ex-marido da mulher (de quem alugava um imóvel) armado com uma faca, embora já tenha pagado o aluguel. Quando aciona a polícia ele é que vira alvo da abordagem, porque é preto, pobre e da periferia e mesmo sem oferecer nenhuma resistência é imobilizado pelo pescoço e recebe spray de pimenta no rosto. Nos EUA, país modelo para o bolsonarismo, mais um cidadão negro é assassinado pela polícia, Frank Tyson, de 53 anos. Imobilizado pelo joelho do policial sobre o seu pescoço ele balbuciava que não estava conseguindo respirar, mas o policial não parou e ele foi a óbito. Tyson pediu às pessoas para chamarem o xerife quando viu os policiais chegarem ao bar onde estava, afirmando que eles queriam matá-lo. Ele tinha razão! Só muda o cenário, os rituais homicidas são os mesmos do caso de 2020, quando George Floyd foi assassinado de forma similar pela polícia e “I can’t breathe”, virou uma espécie de mantra contra o racismo e a violência policial, mas não impediu que tudo acontecesse de novo.

O dinheiro não transforma as pessoas, não as melhora, na maioria das vezes é o contrário, claro que algumas já nasceram muito ricas e nem imaginam como seria ser pobre. A falta de empatia sempre existiu, mas com o avanço dos radicais de direita em vários países do mundo o que se vê é o desejo ostensivo de eliminar os pobres e não os tirar da pobreza endêmica. Não basta manter o padrão abaixo de qualquer dignidade para essa parte da população -que é a maioria no Brasil- muitos desejam que despareçam. O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia Estatística- divulgou que um em cada quatro lares não há comida suficiente na mesa e, mesmo que o novo governo tenha retirado da situação de fome total, 24,4 milhões de pessoas, a diferença entre os ricos e os pobres é de mais de 40 vezes e não para de crescer. Não há nenhuma perspectiva de mudança estrutural para transformar a dura face dos centros das grandes cidades brasileiras e basta caminhar por esses lugares para se ver um contingente sempre maior de pessoas vagando, catando e pedindo.

“Por este pão pra comer/Por este chão pra dormir/A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir/Por me deixar respirar/Por me deixar existir/Deus lhe pague”. A canção de Chico Buarque, “Deus lhe pague”, até parece defasada, já que as elites brasileiras não querem mais esse tipo de arranjo social, que consideram “uma concessão”. Como não podem morar, indefinidamente, fora do país desejam um “projeto de limpeza” contra as pessoas que transformam "suas cidades" em monturos de lixo e em acampamentos a céu aberto. A história e a atualidade confirmam que não há mais limites para a crueldade, veja o rabino Eliyahu Mali, que incita a matar todas as crianças palestinas alegando que os terroristas atuais são as crianças poupadas do massacre anterior: “Terroristas de hoje são as crianças que mantivemos vivas na guerra anterior. São as mulheres que criam os terroristas. Mate todos. Você não é mais esperto que a Torá”. A letra impressa da Lei não determina a verdade e está sujeita a revisões e alterações pelos que detém o poder, mas os livros religiosos têm características próprias, que são mantidas inalteradas pelos religiosos através do tempo. O apego a textos religiosos e às interpretações fundamentalistas desses textos, combinado com o crescimento dos evangélicos e uma rede imensa e incontrolável de produção de fake news é a estratégia mais radical e perigosa da extrema-direita atual. O trinômio Deus, Pátria e Família volta ao Brasil, sessenta anos depois, como uma real ameaça à democracia.

Vinicius Todeschini 02-05-2024

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